quinta-feira, 20 de junho de 2013

Nas Cordas do Desespero - Capítulo 5 [Web Novela]

5

O CLIMA FRIO FAZIA DAS RUAS UM LUGAR INCÔMODO. Mauro sempre gostou da liberdade. Sempre perdeu tempo olhando o ar ao seu redor, o vento, o céu. Agora, não mais. Agora o mundo parecia grande demais para ele. Grande demais para tudo.
Ou talvez fosse ele pequeno demais para o restante do universo.
Já anoitecia. Algumas horas atrás, fora liberado de seu trabalho para um repouso necessário. Diferente do combinado, não seguiu para sua residência. Decidiu caminhar. Andar por aí, sem rumo, sem pensamentos. Andar por aí, somente por andar, para evitar a sensação vazia que sua casa, a qual já não era mais capaz de chamar de lar, lhe garantia.
Todos os televisores gritavam notícias sobre as pequenas Júlia e Elizabeth, afortunadas com um destino fatídico e cruel, nas mãos de um psicopata alucinado.
—Maldito seja...
Mauro estava sozinho, mas às vezes deixava uma frase ou outra escapar. Falava consigo mesmo. Pensava alto. Enlouquecia.
—Se eu pudesse encontrá-lo.
Mas não podia. Não era um herói. Não era um policial, um investigador, um detetive. Não era ninguém.
—Se eu soubesse quem ele é.
O que faria? Uma denúncia anônima que jamais geraria resultados? Uma vingança fria e tenebrosa, que faria de sua imagem corrompida e deturpada ao invés de livrá-lo da angústia de coexistir no mundo em que um homem tão asqueroso pode residir?
—Se eu pudesse mudar tudo.
Parou. Na calçada, interrompendo o caminhar de tantas outras pessoas que ele não notava, Mauro estacou seus passos. Aquele pensamento florescia em seu peito há muito tempo. Precisamente falando, há mais de três anos.
Se pudesse mudar tudo, sua casa não seria vazia, fria e silenciosa. Suas cobertas não teriam somente seu cheiro. Sua cama de casal não teria somente um travesseiro.
Daiana portaria uma aliança dourada na mão esquerda, ainda, e Elizabeth estaria sorrindo neste momento, discutindo com o pai sobre possíveis namoros enquanto Mauro lhe diria que ela era muito jovem, mesmo sabendo que ela sempre lhe pareceria muito jovem para crescer e deixar de ser criança.
Se pudesse mudar tudo, mudaria.
Mas não podia.
—Sai da frente, cara!
Um homem o empurrou, e Mauro se deu conta de que todo seu corpo estava amolecido pela situação quando quase despencou com o toque indelicado do transeunte. Pediu desculpas, incapaz de sentir rancor ou infelicidade maior do que aquela que abraçava seu coração gélido. Prosseguiu sua caminhada. Não sabia para onde ia, mas sempre seria assim. Não havia um lugar para ir. Talvez não houvesse nem mesmo um lugar para voltar.
Júlia e Elizabeth são os dois nomes mais escutados na mídia. As garotas, de idades similares, foram alvejadas por um homem cruel, cuja mente doentia jamais poderá ser compreendida. Mas o que leva alguém a agir dessa forma? O que faz com que um homem se torne um monstro?
Mauro fechou os olhos e a mente, e decidiu que assim faria toda vez que passasse por uma loja onde os televisores reportassem o caso de sua filha e da outra garota assassinada.
De repente, algo chamou sua atenção. Do outro lado da rua, um homem caminhava de mãos dadas com uma garota. Ela vestia uma blusa de capuz, enquanto ele tinha um casaco castanho e barba grisalha por fazer. O velho tinha passos rápidos, a garota tinha dificuldade em acompanhá-lo. Como se ela não desejasse segui-lo. Como se ela não o acompanhasse, mas sim fosse forçada a andar.
—Pare!
Mauro gritou, mais alto do que imaginou que pudesse, e atravessou a rua sem pensar. Carros derraparam na frenagem desajeitada que o ímpeto de loucura de Mauro os obrigou. Buzinas ecoaram ao lado de ofensas e xingamentos, todos absurdos numa revolta temporária. O stress de um dia de trabalho saltou da boca de diversas pessoas na direção de Mauro, mas ele não os ouvia. Corria, apenas, até alcançar o calçamento paralelo ao seu, onde o velho caminhava com a garotinha encapuzada.
—Pare, agora!
O que ele estava fazendo?
O velho e a garota se assustaram.
—Eu mandei parar!
Eles não pararam, como ninguém pararia quando um louco desconhecido gritasse daquela forma.
Mauro ofegava. Com passos deslocados e tortos, alcançou o velho, saltando em sua frente como um ladrão em abordagem. O homem de barba grisalha recuou, assustado, a garota deixou escapar um gritinho de pavor, cobrindo os olhos com as mãos.
—O que é isso? —o velho perguntou, confuso.
—Eu sei o que você tá fazendo, cara! —Mauro acusou, mas não sabia. Não sabia nem mesmo o que ele próprio fazia.
—Quem é você?!
Mauro empurrou a garota para longe do velho, puxando-o para perto de si, as mãos cerradas de maneira firme e ríspida.
—Você não vai mais matar nenhuma garotinha, seu assassino maldito! —ele gritava, sem perceber. Todos escutavam. Todos o olhavam com receio de reagir, de ajudar ou impedir que ele fizesse algo de errado. Todos sentiam pena daquele homem.
—Assassino?! —o velho parecia atordoado. —Do que você tá falando?
—Não adianta tentar me enganar, eu sei que você tá levando essa garota!
—Papai, quem é esse homem?
A voz da garotinha fez com que Mauro acordasse de seu transe.
Papai.
Era difícil se recordar de que ele perdera sua filha.
—Ela é a minha filha, amigo —disse o velhote. —Você não pode acusar as pessoas desse jeito. Eu poderia te processar, ou coisa —
Antes que o velho terminasse suas reclamações, Mauro se foi. Correu, como uma criança humilhada em sua própria brincadeira. Correu, desajeitado como um adulto que não sabe o que quer, nem mesmo sabe se realmente deseja algo. Correu, pois só lhe restava correr, mais nada.
Corria, e via nas calçadas tantos outros suspeitos. Casais apontando para crianças de colo, homens solteiros usando toucas e coletes, mulheres mais velhas vistoriando carrinhos de bebê. Tudo parecia suspeito. Tudo parecia errado.
Mas o erro era ele.
Chegou em sua casa sem que percebesse. Abriu a porta e entrou, arfando num desespero que não deveria existir. Lacrou todas as trancas, cobrando de si mesmo uma segurança surreal, empurrou o sofá contra a porta de madeira que impediria um invasor de entrar, ou um homem enlouquecido de sair. Tirou suas roupas e jogou-se sob as águas do chuveiro, deixando que o frio lhe esfriasse os pensamentos. Ainda nu e molhado, desabou sobre o sofá da sala, fechou os olhos e tentou se tranquilizar.
—Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem.
Nada estava bem. Nada ficaria bem. Nada poderia ficar bem.
—Eu não vou deixar nada te machucar, Elizabeth —repetia ele, ainda com os olhos fechados. —Não vou deixar que nada te machuque.
Mas ela já estava morta.
—Eu não vou permitir...
Falando sozinho dessa forma, Mauro acabou por adormecer, inquieto e suando frio. Suas noites nunca mais seriam tranquilas.

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