domingo, 26 de maio de 2013

Subir (n)a vida


Hoje eu subi uma pedra altíssima.
Nesta mesma pedra, subi muito antes, quando criança. Quando criança, não tinha a mesma força que tenho hoje, certamente. Também não tinha os mesmos medos que hoje tenho, sim, mas não falo sobre medo de altura. Metros e mais metros não me impediram de escalar e, lá do topo, ver uma paisagem digna de filme. Não é sobre isso que falo. Ainda que hoje eu seja mais forte e mais resistente, a escalada foi mais árdua. Como disse, não por medo. Há outras coisas relacionadas, há outras coisas pendentes.
Quando crianças, não temos medo. Não temos, também, a noção do que é grave e do que é simples. Uma queda é somente uma queda, e nunca dói antes de acontecer. Ah, aquilo nem parece tão alto, mas se mostra muito alto quando você já está lá em cima. Poxa, uma escada sem proteções, parece perigoso depois que você já a subiu. Quando crianças, tudo é bonito demais, e difícil de menos. Ao crescer, abandonamos essa oportunidade de ter medo sem temer. É, mais ou menos assim: sabemos que pode dar errado, mas e se der? Tento de novo, não é? Sujar, cair, ralar, sangrar; coisas que um banho resolve.
Subir quando criança é mais fácil. Temos somente o nosso peso, mais nada. Adultos, por sua vez, carregam muito mais. Eles deixam a ingenuidade e a inocência no primeiro degrau da escada, assim que colocam seus pés sobre ele. Então, ao subir, carregam também suas responsabilidades. Sobem cada lance de escadas levando consigo pensamentos pesados demais: o que farei no dia seguinte caso eu me machuque? O que eu direi ao meu chefe, aos meus assistentes, à minha esposa ou aos meus filhos, caso algo aconteça? Como vou trabalhar se me atrasar? Como serei visto se marcado por hematomas de um dia de aventuras? É um peso grande demais, um peso que as crianças não conhecem. Elas estão sempre sujas, sempre machucadas, sempre 'acontecidas'. Sempre felizes.
Lá no topo, há metros e mais metros do chão, eu via muito. Via uma paisagem linda, sim, mas via além. Estudando a natureza, eu a fotografava, e ela me era uma modelo exemplar. As pessoas fazem pose para a foto, mas a pose se desfaz após o clique dos botões. A natureza não. Ela está sempre linda. Está sempre posando, sempre perfeita. Toda foto vai mostrá-la como ela realmente é, sem a necessidade da edição da imagem, da mentira digital. Estudando a natureza, eu via um mundo que era o meu, mesmo sem parecer. Dali, vendo todo aquele verde e aquele azul, eu tentava compreender como é possível que, lá embaixo, tudo fosse tão cinza. Com tantas cores, com tanta beleza, com tanta vida, eu buscava nos confins de meu falso entendimento o conhecimento que me explicasse como o homem pode deixar uma magnificência assim de lado. Eu subi aquela pedra, e muitos não a subiriam. Mas, mesmo sem subi-la, quantas coisas podemos ver assim, tão belas, do nível do solo? Perfumes, fragrâncias, a areia da praia, o mar, o oceano, os peixes de um aquário, as flores de um jardim, as folhas de uma floresta. Tudo no mesmo andar, mas o andar que os homens se preocupam é outro, o térreo ou o terraço, o pé ou o cume de um edifício lotado de trabalho. Não que estejam errados, mas, muito menos, que estejam certos.
De onde eu me sentei, das pedras, das folhas, eu me senti uma criança. Não tinha o mesmo vigor, mas tinha as mesmas vontades. A vida reprime adultos que crescem como crianças, mas quem está errado nessa história? Trabalhamos, somos responsáveis, sem esquecer do sorriso no rosto, da educação, das brincadeiras e dos sonhos. Qual o erro nessa história? É tudo tão trivial, tão pacato, que mesmo uma criança pode lidar com essa rotina repetitiva e desajeitada. Mesmo uma criança pode arcar com toda a responsabilidade de um adulto.
Mas, e um adulto, pode arcar com o sorriso sincero de uma criança?
Nem sempre. Adultos se esquecem de tentar, de almejar. Alguns se esquecem de sonhar. E, sem sonhos, nada são, nada somos. Sem sonhos, adultos são somente isso: adultos. Vazios, como adultos (dizem as normas) têm de ser. Responsáveis, fechados, trabalhadores, reclusos. Adultos.
Podemos, todos nós, subir a vida, e assim subir na vida. Escalamos paredes altíssimas, com a vontade de um garoto, com a força de um homem. Com a disposição de uma criança, com a resistência de um adulto. E, lá no topo, podemos ver todas as cores, toda a vida. Que tenhamos medo das quedas, sim, na responsabilidade de quem vive uma vida de afazeres, mas que nunca esqueçamos de, a todo instante, irradiar-nos com a beleza de um sorriso puro e sincero, como somente os sorrisos da infância são.

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