quinta-feira, 23 de maio de 2013

Conto - Olhos de Lince


Olhos de Lince

Abrindo os olhos, viu um teto branco, ou acho que fosse, pois o branco também lhe era novidade. Havia doutores, cobertos com máscaras e com altos salários, escondidos em suas vestes polidas, anjos mecânicos, apurados na arte de consertar pessoas.
Mais uma vez, consertavam, e ele, o defeituoso, chorou e, pela primeira vez, viu suas próprias lágrimas correrem solta.
Paredes azuis, corredores tomados por portas, janelas que mostravam a luz do sol. Tudo era assim, tão simples, tão lindo. Uma perfeição que ele desconhecia. Dezesseis anos. Dezesseis anos para distinguir cores, para sair do completo breu. Tempo demais. Quantos relógios não rodopiaram em todos esses anos? Quantas vidas não foram perdidas em quase duas décadas? Dezesseis anos de luzes apagadas e, de repente, tudo tinha cor, tudo tinha forma. Novidade, sim, a mais bonita de todas elas: ele, agora, podia enxergar.
Nascera na cegueira, ingênuo. Esticava os braços para caminhar sem cair, aprimorava as narinas para distinguir as refeições. Seu sonho era ver o mundo. Não era infeliz, entretanto. Sorria, quase sempre. O espelho à sua frente, refletindo seu sorriso, mas ele não podia ver. Diziam que tinha um sorriso bonito, agradável de se admirar, um riso sincero e amoroso. Talvez realmente tivesse. Seria bonito, seria feio? Como saber quando o escuro é a única opção? Então, como era o que podia fazer, ele esperou, e o tempo seguiu veloz, como um trem. Cada dia terminado era um risco em sua vida, um dia em que não vira os passos que deu. Esperou e, quando foi chamado, choramingou, ainda sem ver as lágrimas.
Agora, emocionado, as via.
Eram lindas.
Cristalinas, refletidas em seu rosto claro, quase albino. Os olhos de um azul similar ao azul das paredes daquele banheiro de hospital, que não era de todo belo, mas para alguém que nunca enxergava, tudo era lindo. O azul marejado em seu semblante contrasteava ao ouro de seus fios, herança de sua mãe. Do pai, herdara as sardas, e também a altura. Esguio, magricela e alto, franzino. Louro, cabelos maiores do que o padrão dos homens de sua terra, olhos mais claros do que o tradicional. O azul não era de sua natureza; copiando a imagem da mãe, teria o castanho no olhar, não a cor dos rios. Porém, após o transplante de córneas, o tom oceânico rutilava em sua expressão, singelo. Olhos virgens, puritanos, garantidos por uma criança que jamais conhecera outra vida senão a rural. Olhos perfeitos, quase que mágicos, banhados pela inocência que somente a infância é capaz de preservar.
Olhos de lince.
Sentava-se, então, numa praça tomada pelo cinza dos homens e pelo verde da vida.
Respirava fundo, como sempre gostara de fazer, mas o prazer era sereno: agora, quase via o ar que acariciava suas narinas. Sentia-o tocá-lo numa carícia perfumada, ao tempo em que se admirava com as folhas verdes e amareladas pelo outono. Nada melhor que sentir a natureza, claro; mas vê-la? Sentindo seu toque com a capacidade de saber que ela está ali, de verdade, e não somente ilusão. Era perfeito. Acima de si, as nuvens, num azul que, de tão azul, era quase como o mar. Aquele era o céu, e ele era uma moldura para um quadro plumado e ventoso, de nuvens claríssimas, na forma do algodão, desenhadas de forma precisa, uma a uma, pelo mais perfeccionista dos pintores. Tão belas quanto as folhas, em suas curvas úmidas; eram simétricas, incontáveis em cada árvore, em cada galho. E os galhos, como eram estranhos e curiosos! Vez ou outra pareciam garras de monstros, ao menos como o garoto as imaginava, mas saíam das árvores, dos troncos, dos caules, do marrom da natureza que, mesmo cercada por imperfeição, era de todo perfeita.
Passou horas ali, e tudo era novidade. O mundo, a vida, a natureza.
Também, as pessoas.
Homens e mulheres, velhos e crianças, todas as idades circulavam por aquele local. Casais de mãos unidas, amando, amados; famílias a correr atrás de seus filhos, sorrisos de comercial de margarina estampados em seus rostos, dentes amarelos, algumas vezes claros, brilhosos; amigos sentados, por tempo indeterminado a jogar conversa fora, gesticulando, movendo as mãos, os olhos, o corpo todo, numa dança de significados que, antes da visão, o garoto sequer imaginava. Aquela vida era maravilhosa, e por tanto tempo se escondeu atrás da cortina obscura da cegueira, tanto tempo que, agora, o garoto se surpreendia com a imensidão de um mundo minúsculo. De início, gastou horas na admiração das pessoas. Elas eram fascinantes, quase sempre lindas, quase sempre perfeitas.
Mas a visão das pessoas mostrava muito mais.
Elas nem sempre sorriam. Sentado naquele lugar, como estranho observador, curioso e detalhista, o garoto viu demais. Casais largavam o toque das mãos, aumentavam suas vozes, choravam ao se afastar; crianças se machucavam, e as piores feridas ainda eram criadas no psicológico por pais impacientes, jovens demais, irresponsáveis; idosos prosseguiam o caminhar da vida com dificuldade, indispostos a manter-se na calmaria de seus lares, e na oscilação de passos vagarosos, não recebiam ajuda, não recebiam sequer olhares. Uma senhora derrubou seus pertences, um garoto os encontrou, guardou-os para si, desonesto; uma criança se machucou, a mãe, soteira e adolescente, sequer notou, e quem caminhara ao seu redor não se importou em avisá-la, deixando a garotinha chorar sozinha, a ferida coberta pela areia dos brinquedos, a dignidade perdida nas escolhas errôneas de sua genitora; um cachorro maltratado implorava por um mísero pedaço de pão, súplica rejeitada por uma criança de pouca idade, mas muita maldade, que, com os pés calçados, afastou o animal de forma impiedosa.
E tudo aquilo era visível, palpável, real.
O garoto lacrimejou. Os olhos ainda estavam sensíveis, sim, mas o choro era outro. Não pós-traumático, não sem razão. Chorava pelo mundo. A ele, cujo escuro se tornara tão familiar, as cores eram lindas e, por si só, motivavam uma vida de certezas, um paraíso brilhoso e aconchegante, cujo verde das folhas lustrava os olhos, o ouro do sol irradiava a mente, o azul do céu abraçava o coração. Com seus olhos de lince, fossem mágicos ou não, ele via a vida de outra maneira, e aprendeu, da pior das formas, que talvez fosse o único a vê-la de tal forma. Para os demais, mesmo entre tantas cores, tudo era cinzento. Os outros, mesmo diante do arco-íris, viam sete listras monocromáticas, sem cores, sem alegrias.
Com os olhos azuis marejados, o jovem se levantou e partiu, deixando para trás a praça e as pessoas. Agradecia, em seus confins, pelos olhos de lince que lhe foram garantidos.
Não fossem eles, talvez o tempo congelasse e ele, como todas as demais pessoas, visse o paraíso que era o mundo como uma terra tomada por preto e branco.

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