quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Conto - Paixão Além do Tempo


Paixão Além do Tempo

Ele achava que era o terror das garotinhas, mas era um terror com as garotas.
—Hei, gatinha, alguém já disse que você é inegavelmente linda?
—Acha mesmo?
—Mas é claro!
—Então faz o seguinte: leva a sua mãe em casa. Meu pai faz uma igualzinha.
Cada bravata era um tapa em seu rosto, e ele estava cansado de apanhar.
Não era assim por opção, no entanto. A vida não lhe garantira bons exemplos de relacionamento. Acima de tudo, garantira péssimos exemplos, iniciados no casamento da mãe, destruído por uma traição irremediável do pai, que deixara a casa para nunca mais voltar, e desde então não mais fora visto. Depois a irmã, cuja noivado se perdeu conforme se perdia o amor, abandonado pela necessidade da liberdade que o ciúme não deixava existir.
Com imagens assim em sua mente, é claro que aquele garoto adolescente de puberdade exacerbada não desejaria um relacionamento sério. É claro que ele teria medo de se machucar, que ele teria medo de machucar alguém.
E era muito mais fácil e agradável fingir ser o terror das garotinhas, mesmo sabendo que nenhuma das garotinhas lhe dirigiria olhar algum, exceto os olhares de desprezo e das piadas.
—Tô dizendo, cara, você precisa repensar suas atitudes —era o que sempre dizia seu melhor amigo. —As garotas gostam de caras determinados, que sabem o que querem da vida!
—Mas eu sei o que quero da vida, poxa! —ele se defendia com o mesmo argumento todas as vezes. —Estou estudando há anos para prestar o vestibular, quero arriscar na medicina, talvez ganhe uma bolsa incentivo ou algo assim!
—Não, cara, você não entendeu. As mulheres não querem saber de caras estudiosos. Você tem que bancar o rebelde sem causa, o garoto-problema, saca? As garotas curtem esse tipo de rapaz, aquele moleque negação nas aulas, que faz piada de tudo e mal consegue limpar a bunda sem ajuda.
—Isso é nojento!
—Sim, é nojento, mas é o que elas querem. Você não quer ser o que elas querem?
Não.
—Claro que sim.
Mentira, como muitas outras que contara anteriormente.
—Então vai precisar repensar suas atitudes.
E ele repensava, todos os dias, mas chegava sempre à mesma conclusão: se o mundo era assim, imundo como parecia, ele não queria mais pertencer àquele lugar. Como suicídio não era uma opção, ele se deixava levar no vento, vivendo cada dia como se fosse o último, numa adrenalina alcançada da melhor maneira nos blocos digitais de um memory card de Playstation.
Quando dormia, lembrava-se da infância, dos tempos onde o amor era uma bobagem sem igual, onde ver alguém se declarar, entregar doces ou fazer um desenho torto para uma menina era motivo de piada pelo resto dos dias. Não que agora, na adolescência, fosse diferente, claro.
Mas, naquela época, ele tinha alguém para presentear.
Ela era uma boa menina. Marina, seu nome, e perceba que, por tamanha importância possuída, seu nome é citado, e o dele não. Isso sim era amor, pode ter certeza. Ele fazia cartas, trazia flores, dava seu lanche para ela. E os outros apontavam e riam, chamavam-no de trouxa. Eles estudaram por quatro anos lado a lado, mas não trocaram nenhum beijo. Ao término do fundamental, ela foi embora, e ele ficou para trás, sozinho.
Agora, ele também tinha amigos, até mesmo amigas, mas ninguém mais para presentear. Ele não se apaixonou outra vez, não mais. Ou não ainda. A vida é curta, mas é bem aventurada, pra quem sabe lidar (o que não era o seu caso, definitivamente). Então ele esperou, e o tempo passou, e ele continuou sozinho, vendo amigos se afastarem em namoros prematuros e coisas do tipo.
—Você precisa mesmo de uma namorada —disse uma de suas amigas.
Ela era bonita, e facilmente beijável, mas isso não queria dizer nada. Ela era sua amiga, apenas isso. Para ela, ao menos. Para ele, era quase como um objeto voador não identificado, que você olha, admira, mas nunca alcança.
—Por que diz isso?
—Por que eu arrumei uma para mim no mês passado —contou ela. —É divertido. As pessoas não encaram muito bem, mas eu não ligo, nem ela.
—Já percebeu que até as garotas encontram garotas e eu não?
—Relaxa, isso pode ser só uma fase.
—Eu não aguento mais essa fase de dezesseis anos...
Mas ele aguentou, e o ano chegou ao fim, e outro se iniciou, o último do ensino médio. A sala se reuniu no início das aulas, contaram as histórias das férias, muitos dos alunos viajaram e se divertiram. Ele não. Ficou em casa terminando seus jogos eletrônicos e gastando sua mesada com livros. Era o suficiente; pelo menos fazia o tempo passar.
—Você já viu a aluna nova?
Não, ele não tinha visto. Quando seu amigo a apontou, o baque foi imenso.
Não era uma aluna nova.
—Marina?
Ela sorriu, levantou-se com alegria e o abraçou.
—Há quanto tempo! —simpática, os olhos brilhando. —Eu não esperava que você estivesse estudando aqui ainda! Como anda a vida?
Ela não andou nada depois de você foram as palavras estampadas em seus pensamentos, mas ele não as proferiu.
—Vai seguindo, quase que rastejando. E a sua?
—Ah, aconteceram muitas coisas, umas boas, outras ruins. Meu pai morreu ano passado.
—Eu sinto muito.
—Tudo bem. Eu fiquei abalada demais na época, mas sabe, a gente tem que superar. Eu voltei para cá por causa dele. Talvez isso seja um sinal.
—É. Talvez seja.
Um sinal do quê?
—Podíamos sair para comer alguma coisa qualquer dia, o quê acha?
Ele adoraria se gabar e dizer que a convidara para sair, mas aquelas palavras eram dela, e isso era o mais impressionante. Quatro carteiras mais longe, seu melhor amigo engolia o riso com as mãos avantajadas.
—É... Claro, claro que sim. Podemos tomar alguma coisa.
—Um sorvete, uma cerveja, um banho juntos, quem sabe.
—Banho?
Ela gargalhou.
—É brincadeira, seu bobo.
Ele não digeriu aquela brincadeira por muitos dias.
—Cara, você tem um encontro, já percebeu isso?
A voz estrondava em sua mente.
—Não sei não, isso não me parece um encontro. É como um reencontro, na verdade. Ela era a minha amiga dos primeiros anos de escola, a minha melhor amiga, na verdade.
—Isso não existe, cara.
—O quê?
—Amizade entre homem e mulher. Eles se aproximam por interesse, sempre assim.
—Bobagens...
—Você vai entender. Essa garota quer o seu corpo nu, sabia? Com chocolate espalhado, ainda.
Ele riu, mas não achou graça. Aprendeu isso com a vida: rir por educação. Rir para não causar problemas. Rir para não piorar as coisas.
Por dentro, angústia.
Seria aquilo um encontro? E o que ele, que nunca antes tivera um encontro na vida, faria?
Num estalo de dedos, ambos já estavam sentados ao redor de uma mesa redonda, aguardando pelo açaí que vinha nas mãos de uma garçonete morena.
—Como está a sua família? —foi uma das primeiras frases que o nervosismo permitiu que ele dissesse.
—Bem, eu acho —respondeu ela. —Meus irmãos ainda choram pelo meu pai, às vezes. Minha mãe disse que não teria outro homem, mas ela tem seus casos, eu sei. Ela não me engana.
—E você?
—Eu estou bem.
—Não é isso. Como anda você quanto aos casos? Já está namorando? —Ele percebeu que a pergunta soara séria demais para uma brincadeira, então disfarçou. —Ah, qual é, todo mundo sabe, a nossa idade é cheia dessas coisas, de beijos e tal. Me conta suas histórias.
Ela piscou, atônita.
—Eu não tenho histórias pra contar. Não sou o melhor exemplo de sorte no amor, acho.
Eu também não.
—Que coisa. Eu tive alguns lances...
Não, cara, o que você tá dizendo?
—Ah, entendi... Que legal.
—É. Legal.
Seu idiota.
—Mas... e agora? Você tá namorando, algo assim?
—Erm... bom, não. Eu escapei dos compromissos, sabe? Agora quero distância deles por um tempo.
O que eu estou dizendo?
—Sei... É bom ver que está curtindo a vida.
—É. Também acho.
Morra...
O açaí terminou numa conversa pacata e gaga, e eles então deixaram o lugar, caminhando de volta até suas casas. Ele a acompanhou, como todo bom garoto faria. Pensava em várias coisas, mas acima de todas elas estavam suas palavras, suas mentiras, que talvez custassem uma oportunidade tão rara quanto cometas no céu.
—Eu fico por aqui, então —disse ela, sorridente, mas hesitante. —A gente pode sair outras vezes, não é?
—É, sim. Claro. Podemos sair sempre.
—Então até amanhã.
Ela se aproximou, envolveu-o com os braços e deu um beijo em seu rosto.
Ali, o tempo parou.
Ele sentiu a respiração dela na sua pele, então o toque dos seus lábios, suas mãos nas suas costas, suas pernas coladas às dele. Ele a sentiu ali, presente, e só então percebeu o quanto isso lhe fez falta pela vida toda. Anos se passaram, e ele era um desastre no amor, ele era uma tragédia com os relacionamentos, e agora entendia. Ele era péssimo com todas as garotas, porque todas as garotas não lhe interessavam. Somente uma importava. Somente uma lhe chamou atenção na vida toda.
Se o tempo assim pedisse, ele poderia superar aquela perda, poderia encontrar alguém poderia até tentar ser feliz longe dela, mas ela voltou. Estava ali, agora, e ele a sentia.
Aquele abraço o fez vislumbrar o futuro, e havia muita coisa à frente. Ele viu um beijo apaixonado, viu dias felizes, viu um amor incondicional. Viu um par de alianças prateadas, depois douradas, viu um vestido de noiva e uma igreja decorada, viu um iate e um céu estrelado, e aquelas cenas se misturavam no toque dos lábios dela em seu rosto, no carinho das mãos postadas no seu corpo, na respiração delicada e aconchegante.
—Tchau.
Ela deu alguns passos para trás sem se virar, depois voltou-se e entrou na sua casa, fechando o portão atrás de si.
Ele ficou ali por algum tempo, pensando. Será que ela pensou as mesmas coisas naquele momento? Será que ela sentiu a mesma falta que ele sentia? Será que aquilo que ele sentia era recíproco?
Vinte minutos mais tarde, choveu. Ele se molhou muito, mas não se importou. A chuva era uma reflexão, e ela levou embora todos os temores. Ele decidiu que faria valer a pena a rotina; pensou em tantas coisas novas que percebeu que sua vida estava mudando.
Chegou em casa encharcado, tomou seu banho, derrubou o leite que deveria tomar, queimou o pão, quebrou uma moldura da sua mãe, apagou uma pasta de fotos da irmã. Fez tudo isso e, enquanto o insultavam, ele se deitou, fechou os olhos e não dormiu.
Pensava nela, sonharia com ela, acordaria ainda pensando nela e, feliz ou infelizmente, teria de se conformar com isso pelo resto da sua vida.

domingo, 18 de novembro de 2012

Resenha - Lugar Nenhum, de Neil Gaiman

Todo mundo sabe que eu não escondo uma paixão incomum pelos trabalhos do Neil Gaiman. Desde que conheci Sandman, incluindo as passagens velozes por Deuses Americanos, O Livro do Cemitério, Coraline e Mirror Mask (A Máscara de Ilusões), sempre admirei o trabalho do autor, e não poderia ser diferente na última obra que tive contato: Lugar Nenhum, um romance que se originou numa minissérie de 6 episódios, ampliando a trama e criando um cenário único na Londres de Baixo, onde as estações são representadas por formas de seus nomes, e tudo é diferente do que parece ser.

Lugar Nenhum nos conta a história de Richard, um homem que chegou a Londres a algum tempo (trecho apresentado no primeiro capítulo, que funciona como um prólogo para o restante da história) e tenta viver sua vida da melhor maneira ao lado de Jéssica, sua namorada, quase noiva, numa espécie de relacionamento distante do perfeito, mas útil para a finalidade que ambos buscam. Num dia como outro qualquer, enquanto Jess e Richard se dirigem a um jantar importante para a moça, Richard para para socorrer uma garota ferida, e isso faz com que Jess opte por terminar o compromisso que eles tinham. Não bastasse isso, a partir do dia seguinte, as pessoas que Richard conhecia começam a tratá-lo como se tivessem-no esquecido, e daí para frente as coisas só ficam piores e piores...
Com personagens marcantes e únicos, como as inexplicáveis lendas vivas, Senhor Croup e Senhor Vandemar, a estática Hunter e o cavaleiro mais Dom Quixote da história, Marques de Carabas, seguimos na viagem de Richard, que acaba se juntando com Door, uma garota oriunda de uma família com o Dom de abrir portas, na busca por respostas pela morte de seus pais. É lá que eles acabam encontrando pistas falsas, armações, traidores e similares, e o Anjo Inslington parece ser uma boa opção para resolver todo esse caso. Mas nada é o que parece ser na Londres de Baixo.
O fato de utilizar um lado espelhado de uma cidade existente para a fantasia negra já se tornou um clichê (o qual eu mesmo já utilizei, admito), mas nunca se torna massante. Cada autor o faz de uma maneira, e Gaiman conseguiu trabalhar a criatividade ao limite na elaboração dos cenários existentes sob cada estação. A 'Seven Sister' tem realmente sete irmãs, a Earl's Court é representada por uma Corte Real, a Black Friars tem seus Monges Negros e o Anjo Inslington também tem suas referências nas estações. Isso faz com que o leitor se ambiente a Londres de uma maneira inesperada, simétrica e, ouso dizer, mágica. Deste modo, conforme Door e seu grupo avançam pelos desafios e pelo Mercado que sempre muda de lugar, conhecemos personalidades, nomes importantes, lugares marcantes e coisas atípicas de outra Londres, a Londres do Neil, a Londres de Lugar Nenhum, e ela parece tão interessante, senão mais, do que a Londres de Cima, o lugar para onde Richard deseja voltar de qualquer modo.
Lugar Nenhum tem a narrativa típica de Gaiman, bastante próxima dos roteiros de quadrinhos, seu marco principal, portanto não espere nenhum enrosco nas descrições. As coisas acontecem rápido, rápido demais às vezes, mas isso nos livra de perdas de tempo desnecessárias. Eu, particularmente falando, acho bastante digna tal escrita, mas cada um tem seu gosto, sabemos disso, e resta somente a leitura para que tirem suas próprias conclusões. Posso adiantar, no entanto, que não perderão tempo algum na leitura de Lugar Nenhum; muito pelo contrário: ganharão uma experiência formidável por um cenário desenvolvido por uma das mentes mais fabulosas dentre os escritores.
Até a próxima!

Conto - Gélido Fervor


Eu sempre fui um tanto quanto sensitivo.
Aquela era uma péssima ideia, entretanto. Acordar nas noites mais inóspitas imaginando a presença de algo que não deveria existir, vislumbrar nos sonhos os maiores terrores que ainda afrontariam minha vida, entre outros ocorridos macabros, era algo que eu dispensaria facilmente. Mas aquilo me acompanhava, e eu sentia medo, obviamente, como qualquer adolescente de quinze anos sentiria.
Como qualquer pessoa sentiria, na verdade.
Naquela noite, não foi diferente.
Despertei no meio de um sonho erótico com uma das atrizes da novela previamente assistida (como todo bom garoto em estado de puberdade há de sonhar, acredite). O cenário não me era tão familiar, e só então recordei-me de que, para que meus pais pudessem desbravar os terrores de uma festa de família, aceitei passar a noite na casa do Tio Wake, uma morada afastada da civilização, onde minha conexão wi-fi não era receptível e nem mesmo o sinal do celular colaborava para a virtualização dos afazeres.
Ali, cercado por mato verde e cheiro de nada com vento, eu acordei sentindo um frio assombroso, mas um frio quente.
E você pode rir de mim caso eu diga, mas sim, era um frio quente. Como isso é possível? O vento frívolo me castigava a pele de maneira gélida, e então me acolhia num abraço quase que vulcânico, fervendo minhas vestes e fazendo me suar, e então a brisa soprava outra vez, e todo o suor frio de meu corpo congelava, quedava de meu corpo como lágrimas cristalinas.
Com os olhos abertos, constatei que as janelas e as portas estavam fechadas. Sem vento, sem brisa, sem sopros. Sem nada.
Era eu e o quarto e aquele gélido fervor.
A bexiga me alertou de imediato que meu organismo implorava para urinar. Lembrei-me que, quando tive a oportunidade, não o fiz, parte por ter certo receio de utilizar um banheiro que ficava no exterior da casa. Agora, meu tio adormecera, e eu teria que fazer uso daquela toalete improvisado na madeira sem companhia. Não que esperasse que ele me acompanhasse até lá e... bom, você entendeu.
Deixei as cobertas para trás, abraçando-me vez ou outra para evitar aquele frio exótico, então me enxugando quando o calor me atordoava na sequência. A casa rangia por inteiro conforme eu caminhava, e logo ficou para trás, deixando-me de frente com aquele verde que eu deveria amar, como todo homem deve amar a natureza, mas odiava por livrar-me da internet e das mensagens de texto. Pisei com as pantufas que um dia pertenceram à minha Tia Wake, que Deus a tenha, e a terra fofa regozijou meus temores. A noite estava agradável, e não havia vento algum diante do céu estrelado e da lua minguante. Estranhei, mas prossegui, parte com frio, parte acalorado.
Quinze metros, e lá estava o miúdo box de madeira e alumínio onde as necessidades eram despejadas. Quinze metros, quinze metros que me pareceram infindáveis, que me fizeram assistir a vida a cada piscadela. A porta estava fechada, e eu não entendi o motivo. Uma pequena fresta me fez notar a luz acesa. Olhando para trás, vi as luzes da casa apagadas. Meu tio ainda dormia, certamente. Ele possivelmente esquecera a luz do banheiro acesa, nada mais.
Abri a porta.
O celular pendeu de minha mão no mesmo instante, baqueando contra as pedras numa melodia sonora e audível. Havia alguém ali, mas não era o meu tio. Não era alguém como os alguém costumam ser. Era algo. Estava em pé, com as pernas longas esticadas, sem veste alguma sobre o corpo pálido, quase que rosado, como um albino de pele esticada e anormal, demarcado por cicatrizes tão horrendas quanto profundas, riscos que desenhavam em sua pele clara como crianças insanas desenhariam em folhas de sulfite nas escolas de educação especial.
Eu queria me assustar com aquele ser, queria me assustar com aquela forma, mas eu me assustei única e exclusivamente com aqueles olhos.
Dois olhos de um tom ensandecido de púrpura, como joias sem brilho, sem íris, sem pupilas, sem nada.
Como pedras foscas, sombreadas, mórbidas.
Dois olhos sem vida.
Eu não gritei, pois a voz me falhara, bem como a respiração. Não gritei, mas corri, e corri mais do que as aulas de educação física me ensinavam a correr. Corri até que as pernas não me aguentassem, e caí no chão rochoso, marcando os cotovelos e os joelhos por uma viagem que me seria inesquecível. Olhei ao redor, encontrando uma pequena casa que não era a do meu tio, e só então pensei nele, em tê-lo deixado para trás, sozinho com aquela coisa, mas eu precisava fugir, precisava encontrar alguém, precisava sobreviver, e sentia que não o faria perto daquele ser.
Você está bem?
A voz me pegou de surpresa. Havia um homem ali, trajado em roupas pesadas e escuras, o rosto acobertado por um boné e uma touca, quase que escondido. Eu recuei alguns passos na esperança de correr outra vez, mas não o faria por estar sem forças.
—Quem é você? —perguntei, e somente aquilo tive forças para perguntar.
—Eu sou o vigia do depósito. Você está bem?
Um vigia. Respirei aliviado. Estava a salvo, finalmente!
Eu parei ao seu lado, contei a ele o que me acontecera. Ele riu, pois adultos sempre riem dessas histórias, mas me disse que estava tudo bem. Percebi que, naquele momento, o frio era incomensurável, e o vigia me fez sentar num lugar onde o vento não deturparia meu conforto.
—Você pode ficar aqui, se quiser. Quando o dia amanhecer, seu tio vai procurar por você, ou você mesmo pode voltar para a sua casa. É mais seguro do que fazê-lo agora.
Eu confiei nele, pois me parecia um bom homem. Abracei-me a trapos surrados que encontrei naquele lugar e, de maneira serena, adormeci, sem sonhos para me incomodar o descanso.
Acordei assustado, duas mãos pesadas me sacudindo o corpo. Já era manhã.
—Onde você esteve a noite toda?!
Era meu tio, o rosto alarmado.
Eu engoli em seco. Não consegui responder.
—Você fugiu quando eu te vi no banheiro, lembra? Sabe que eu não consigo acompanhar a velocidade de um garoto de quinze anos! Por que você não parou de correr quando eu gritei?
Não, tio, não era você, quis dizer, mas e se realmente fosse? Teria eu imaginado tudo aquilo? Como pude ser tão ingênuo...
—Eu fiquei com medo, tio! Você me assustou!
—Deveria ter medo de dormir sozinho num lugar desses! Existem animais perigosos por aqui, sabia? Cobras, até mesmo onças, como pôde fazer isso?!
Olhando nas proximidades, percebi que o vigia não mais estava por lá.
—Tinha um homem aqui, tio.
—Um homem?
—Sim, um homem. Ele disse que era o vigia do depósito.
Eu pretendia apontar a construção que vira na noite anterior, mas só então percebi que o que apontava não passava de destroços tombados.
—Você está brincando comigo, não é? Vamos, estamos indo embora agora. Eu vou preparar um café e você vai ficar dentro de casa até os seus pais voltarem, entendeu?
Nunca antes vira meu tio daquele jeito. Por mais arriscado que me parecesse a ideia, a curiosidade me dominou e, sem pensar duas vezes, perguntei:
—Mas tio... e o vigia? Você o conhece?
A sua resposta estrondou em minha mente como um trovão atrás das montanhas.
—Não existe um vigia. O senhor Thomas costumava olhar o depósito de combustível, mas uma tempestade destruiu o lugar, e um incêndio cuidou de acabar com a vida daquele pobre velhote. Isso foi há três anos.
Uma tempestade, e então um incêndio. O frio das águas torrenciais, o calor das chamas descontroladas. A pele pálida e grotesca me estuporava, uma imagem que eu jamais esqueceria.
Aquele no banheiro não era o meu tio.
Aquele vigia não era real.
Enquanto caminhava para casa, um vento estranho me assolou.
Eu senti frio, um frio indescritível e gélido, mas logo despenquei em febre, num fervor incomum para aquela época do ano.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Resenha ~ Dragões de Éter - Caçadores de Bruxas

Raphael Draccon é, para os leitores e escritores do Brasil, um mito. Não o único, claro, pois temos outros nomes de igual ou maior valor na literatura fantástica, mas ele certamente se destaca pelas produções e pelo enfoque nos trabalhos atípicos dos textos fantasiosos. Eu o respeito e agradeço por todo o envolvimento com o público, e acima de tudo por auxiliar no desenvolvimento fantástico no Brasil, que agora aceita muito melhor obras do gênero oriundas de seus próprios moradores, o que, anos atrás, parecia uma ideia bizarra e surreal.
Por que estou dizendo isso?

Porque, apesar de respeitá-lo tanto, e também de possuir a trilogia Dragões de Éter e o recente Fios de Prata no meu armário de leitura, eu nunca havia lido nenhum trabalho do Draccon. Já vi contos, claro, mas não um romance, não um livro. E foi isso o que resolvi fazer há algum tempo: ler Caçadores de Bruxas, o primeiro livro da saga Dragões de Éter, responsável por alavancar o nome de Draccon.

Caçadores de Bruxas se desenvolve de maneira gradativa, às vezes lento, às vezes rápido, mas sempre se desenvolve. A primeira coisa que tinha em mente ao iniciar a leitura de tal livro era que, por maior que fosse o renome do autor, aquela era a primeira obra de grande porte de sua carreira (tecnicamente falando), e obviamente ele melhoraria ao longo dos anos, pois é isso o que escritores fazem: eles melhoram. Seria o mesmo que se atirar sobre o primeiro livro da série Harry Potter, um fenômeno mundial praticamente inalcançável, e esperar que ele seja o melhor de todos. Deste modo, deparei-me com uma obra de qualidade, sim, mas que deixa a desejar se comparada às sequências, e isso é um ótimo sinal!
Deixando de lado tal argumento, sigamos ao livro em si.
Caçadores de Bruxas nos apresenta diversos personagens que, de uma forma ou de outra, influenciam no resultado final da trama principal. Temos os irmãos Hansom, a família do Rei Primo, a rainha (ou seria Rainha?) Terra, os príncipes, a mágica das Narin e muitos outros (incluindo um troll guardião e um mestre anão!). Essa mistura ocasiona diversas passagens atípicas e satisfatórias, certamente, mas tomar conta de tantos personagens assim não é algo simples. Draccon o fez, sim, mas talvez não tão bem quanto o faça atualmente, em seus trabalhos posteriores. É possível se perder em algumas trocas de capítulos, bem como se angustiar por uma passagem de um personagem ser tão pequena se comparada à de outro, logo em seguida. São dificuldades que ele sabia que enfrentaria, mas ainda assim não teve medo de arriscar.
Falemos então sobre a narrativa de Draccon. O estilo de escrita é agradável, aquela nobre arte de se narrar uma história como se o narrador fosse um personagem que não participa da mesma, mas a conta, como os avôs contaram histórias para você um dia, com comentários e similares. Acho esse tipo de escrita muito interessante, e nesse ponto Draccon se destaca: o narrador é bem vivo, participativo e interessante, por mais que sua faceta só nos seja revelada nas últimas páginas do livro (ou, para os que adquiriram as primeiras edições, na última página mesmo!). Sobre a escrita, podemos tratá-la como interessante, mas o ritmo muda bastante e, por vezes, isso pode te impulsionar a ler mais, mas também pode te impedir de continuar por aquele dia. Eu, particularmente falando, demorei um pouco para terminar de ler as mais de 400 páginas de Caçadores de Bruxas, o que é incomum. Não por desinteresse ou coisa do tipo, mas pelos altos e baixos, uma oscilação que pode parecer incômoda, mas é muito mais comum do que se imagina.

Tratando sobre os personagens, o cenário e os acontecimentos, tudo isso se mostra bastante agradável, com um planejamento grandioso por parte do autor. A interação dos grandes nomes com os pequenos heróis da trama é simplista, mas eficiente e precisa, e não deixa aquela impressão da 'reunião forçada que acontece numa taverna', famosa dos rpg's de cenários próximos a Nova Ether. Obviamente, alguns dos personagens se destacam entre os demais, e alguns ficam apagados. Exemplificando ambas situações, citaria Snail Galford, o ladrão negro, e Liriel, a ladra com certos dons mágicos, são personagens com sequências interessantíssimas, mas o próprio João Hansom parece um peso de papel para o enredo, sendo importante, claro, mas sem exercer grande participação nos fatos. Felizmente podemos apontar mais casos de destaques positivos do que de 'esquecimento' de personagens, o que prova que, mesmo em seu primeiro romance, Draccon tinha facilidade com o desenvolvimento de relações entre personagens de cenários fantásticos, mesmo que em grande quantidade.
Finalizando, é fato que Caçadores de Bruxas não seja o melhor de Raphael Draccon, mas é um livro agradável de se ler, com pontos positivos e negativos, como todos os outros. Confesso que não me impressionei muito com o final, que chegou a ser bastante previsível, inclusive, mas passagens anteriores foram impactantes e certas cenas causam um impressionismo bom, aquele que te faz admirar o autor por ousar, por ser quem é e não se importar com mais nada. Deixo a leitura como recomendação aos amantes do medievalismo que se perde no steampunk ou cenários típicos. Para terminar, classificando o livro numa nota de 0 a 10, acredito que um 7,5 expressaria bem minha opinião.
Até a próxima!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Momentus - Recortes do Facebook ~ Outubro

Vamos aos escritos do mês de outubro?


OUTUBRO

Na vida, todo mundo passa.
Tem gente que passa e se vai, sem demora.
Tem gente que passa e não vai, mas enrola.
Tem gente que passa e estaca, se escora.
Tem gente que passa e fica, pra nunca mais ir embora.



Se o amor contagia, não deixa de ser doença.



Se a vida é feita de equilíbrios, os dias ruins que já se foram são peso para as maravilhas que ainda estão pra chegar.



Há uma imensa vontade de mudar o mundo, mas não antes da miúda vontade de mudar a si mesmo.



Quando o caminho da felicidade lhe trouxer sofrimento, lembre-se que as mais belas rosas têm no caule sofríveis espinhos.



Sob as águas do chuveiro, sob o conforto do travesseiro, nas janelas dos ônibus, nas esperas, no silêncio, nos sonhos e pensamentos; você.



Pelo ardor da existência, um mundo de violência só se cura com a inocência.



Ela esperou, e ele a fez sofrer.
Ela esperou, e ele a enganou, ludibriou, encheu a vida de mentiras.
Ela esperou, e ele se foi sem se importar, sem deixar vestígios.
Ela esperou e, um dia, ela cansou de esperar e decidiu viver.
E ele se arrependeu, voltou atrás, ajoelhou-se onde ela sempre esperava, mas ela não mais estava ali. Então ele decidiu esperar, mas já era tarde demais.
Ele esperou, mas ela nunca mais voltaria.



Não se deixe enganar com aparências: as mais belas prisões ainda lhe privam da liberdade.



Respostas para quem não tem perguntas, perguntas para quem não tem respostas.



As mais belas cores escurecem diante dos mais perversos sentimentos.



Ele ofereceu a ela um pincel que faria um único desenho se tornar real, e assim lhe disse que qualquer vontade, sonho ou anseio, por mais íntimo e egoísta que fosse, seria concebido nos traços daquela arte.
E ela, na ingenuidade, não tinha vontades, sonhos ou anseios por si mesmo.
Com o pincel mágico em mãos, ela rabiscou a tela em branco e, sem pensar duas vezes, desenhou um novo mundo, um mundo melhor.



Às vezes eu acho que preciso deixar uns hábitos para trás e me tornar mais 'adulto'.
Somente as crianças se preocupam com os outros. Os adultos se dão bem por egoísmo, porque sabem se preocupar somente consigo mesmo, sabem fingir que nada está acontecendo e dar de ombros quando algo de ruim acontece, sem procurar soluções por ter preocupações maiores do que baboseiras.
Somente as crianças acham graça em qualquer coisa. Os adultos levam a vida a sério, pouco aproveitam do lazer e das companhias, sempre focados no trabalho e na rotina, com miúdos momentos de piscadelas que lhes permitem esquecer o financeiro para cultivar o social.
Somente as crianças vivem a vida ao máximo. Os adultos não correm riscos, pois são muito adultos para arriscar. Eles não podem se dar ao luxo de viver tudo o que a vida garante, já que têm muito ao seu redor, muito nos seus bolsos e nas suas mãos, muito na mente e na língua. Perder não é uma possibilidade, é apenas um desleixo, um descuido, um problema. Vencer é o que importa, e não se vive ao máximo por se viver para a vitória.
É, às vezes eu penso que realmente deveria me tornar mais adulto.
Mas, ao pensar nisso tudo, prefiro deixar meus pensamentos de lado e esquecer de tudo em algumas horas de videogame com os amigos.



Eu gostava do tempo onde você era interessante pelo que era, não pelo que tinha.



Quando a simplicidade se complica, a complexidade simplifica o irremediável.



O ser humano é tão desacostumado à perfeição que, quando algo está perfeito, ele estranha e se afoba.



Completo no incompleto, finito no infinito, relógio circulando no encontro dos perdidos; voeja, desbrava, ajusta o “inajustável”, recorre ao irrecorrível, faz alarde no amável; confunde o que é certo, confia ao confundível, afoba no repouso e descontrola o inaudível; extremo, pacato, mundano e ativista, calmo, desesperado, sereno, tão pessimista; seja realidade, seja pura ilusão, pertence ao ser humano tão insana descrição.



Levanta a cabeça e respira fundo, sem marra, sem medo, recrie seu mundo.



Não há compaixão por quem vive sem glória
Somente uma chance de seguir adiante
Em frente, avante, mudando sua história



Pense em sua vida como um jardim. Você tem que cuidar de todas as flores, pois a beleza está em tudo o que o circunda. Ao se dedicar para somente uma flor, terá de se conformar com o fato de que mesmo as mais belas flores um dia hão de murchar.



-Hoje eu vou falar com ele.
Mas ela não falou.
Era um dia como todos os outros, e ele estava lá, no mesmo banco, sentado, sozinho, paciente. E ela também lá estava, não tão paciente, mas tão sozinha quanto. Em sua mente, aqueles olhos, aquele perfume, aquele sorriso.
-Amanhã eu vou falar com ele.
Mas ela não foi, e também não foi na semana seguinte, nem no mês seguinte, nem no ano seguinte.
Até ele desaparecer, e ela então se viu sozinha, e a solidão a consumiu.
Não era uma solidão desgostosa, ácida e revoltante, como aquela dos deixados para trás, dos abandonados, dos que ficam atirados no sofá enquanto a porta não se fecha pelo vento.
Era a solidão do erro, da insegurança, do medo de arriscar.
A solidão de quem tem toda a cachoeira à frente dos olhos mas desiste ao ver a água escapar por entre os dedos de suas mãos.



Não para sempre, pois o sempre tarda e se extingue; não para sempre, mas para o meu sempre, para o meu infinito, até que o finito extrapole e o fim nos leve, de mãos dadas, para o recomeço do ciclo. Não para sempre, não pela eternidade, mas por todo o tempo que eu quiser, que eu puder, que eu respirar.



Não para sempre, mas sim até o fim.



Que eu tenha cem anos no corpo, mas dez no espírito, pois não se move montanhas com os braços, somente com a determinação.



Não há muro que segure a força de um sonho.



Que esteja tudo em pedaços, que vivam todos nas dores, ainda estarei aqui completo, cercado de sonhos e cores.



Há quem foge dos medos e tomba; há quem queda diante deles e, ao se levantar, já é forte o suficiente para afrontá-los.



Desabe o mundo sobre tudo e todos; atingidos são apenas aqueles que se entregam pois, aos destemidos, tormenta alguma poderá fazer mal.



Antes molhar os pés na chuva do que se afogar no pranto.



Largue tudo, largue o mundo, largue os medos e receios, deixe apenas entre os braços quem lhe importa, quem ama e é amado, e só assim entenderá o significado de viver, de existir, e a complexidade de um simples beijo apaixonado.



Já era madrugada quando o telefone tocou. Ela acordou assustada, o frio era intenso, as cobertas fora de si. Atendeu, escutou chiados anormais, a ligação caiu. Praguejou e fechou os olhos outra vez, suspirando, e só sentiu-se calma novamente quando os braços de seu marido lhe envolveram num abraço quente e confortante.
Então, outro toque, e desta vez, ao atender, ela pôde escutar alguém dizer: -Você pode abrir o portão para mim? Esqueci as minhas chaves.
Era o seu marido, lá fora.
Mas então quem se deitava ao seu lado?



Nenhuma dor me impedirá de alcançar o que almejo.



Ao temer perdê-la, perdeu a si mesmo e, sem saber quem era, vagou na solidão até o fim de seus dias.



Ele ligou para a mãe num último instante de agonia, sem saber o que lhe perseguia, sem saber o que lhe apavorava. Disse a ela que a amava, e que não mais sairia daquele túnel, abaixo da ponte, mas não havia túnel algum. A mãe se desesperou e, ao som do último grito, acompanhou a polícia em buscas que jamais teriam fundamento.
Afinal, se sequer foram capazes de encontrar tal lugar, como pretendiam encontrar um rapaz desaparecido?



Caminhando por entre as árvores, o garoto encontrou uma criança perdida. A garotinha sorriu para ele e correu, cantarolando, e ele a seguiu, procurando ao mesmo tempo pelos pais desatentos que a deixaram vagar sozinha, em vão. Seguiu-a por horas e mais horas, e suas pernas sequer lhe respondiam às vontades devido ao cansaço. Quando parou, sentado num dos bancos de madeira cujo conforto era duvidoso, viu-a acenar além das árvores, e ali ela se desfez em pétalas, subindo junto da brisa para uma liberdade que homem algum jamais alcançaria.
E só então ele se lembrou de que era impossível haver uma garota perdida e uma família entre aquelas árvores.
Aquele era o seu jardim, e não um parque público.
Ele estava sozinho, como sempre esteve.



-Vai se esconder, mamãe!
E a mãe se escondeu, mas a garota a encontrou sob as cobertas.
-Outra vez!
E mais uma vez ela o fez, mas a garota era esperta, e logo a encontrou atrás das cortinas.
-É a última vez, mamãe, eu prometo!
E ela se escondeu uma terceira vez, alvejando o porão daquela residência que desconheciam. A garota procurou, mas nada encontrou em lugar algum. Procurou por horas, por dias, nada.
Arrependeu-se de dizer à mãe que aquela seria a última vez, mas ela realmente fora.



-A mamãe está me chamando.
A garotinha chorava. Seu irmão, como sempre, olhava emburrado para ela, os braços cruzados, a cara fechada.
-Não, ela não está.
A voz estava ali, além da porta lacrada.
-É ela, é sim! Ela está me chamando!
O garoto bufou, impaciente, e a garota chorou, temerosa.
-Desista. Ela não vai falar com você outra vez.
Com passos pesados ele se foi, deixando para trás uma criança preocupada, sedenta por carinho e por abraços.
-Ele não entende, mamãe, ele não consegue ouvir. Mas eu consigo. Eu posso ouvi-la me chamar. Eu posso ouvir a sua voz.
Ela se escorou à porta que ninguém mais abriria, e ali ficou, sonhadora. As lágrimas secaram, mas o pensamento não voejou: a voz estava ali, chamando por ela, clamando pela sua presença, mas ela ainda precisava aceitar a morte da genitora.



Ela movia montanhas com seus braços, enfrentava hordas com seus punhos e afrontava os maiores temores com os olhos abertos, sem hesitar. Ela determinava suas vontades, ela escolhia seus caminhos, ela passava por cima de todos os obstáculos sem ajuda, sem ninguém.
Mas, quando estava sozinha, ela chorava.
Chorava, não por ser fraca, não por ser frágil. Chorava por ser humana. Chorava por ser uma deusa, mas uma deusa tomada por emoções, violada por dificuldades, corrompida pela fraqueza; uma deusa sem poderes, sem vitórias, uma deusa caída. Chorava por se achar fraca, por não ver diante do espelho tantas quantas eram suas conquistas, por não ver além dos montes todo o orgulho que esbanjava.
E ele, postado na lonjura de tal momento, a viu.
Não como heroína, não como deusa.
A viu como mulher, como garota, como uma boneca de porcelana. Esteticamente perfeita, indescritivelmente fragilizada.
Assim ele a viu, assim ele a amou. Parte por ser imperfeita; parte por ser esta sua maior perfeição.
Sentado ao lado daquela menina, daquela mulher, ele a abraçou, mas não era ninguém, e ela chorou em seu ombro, desolada, incapaz sequer de esconder tua fraqueza. Sentado ao lado daquela garota ele conheceu os mais belos sentimentos, entendeu que, mesmo que nada fosse, tudo era para quem lhe importava.
E ela, imersa em seus braços, compreendeu.
Ela movia montanhas, enfrentava hordas, determinava suas vontades e escolhia seus caminhos, passando por cima de quaisquer obstáculos sem ajuda, sem ninguém.
Às vezes ela caía; às vezes ela chorava.
Ele estava sempre lá, de braço abertos, pronto para reerguê-la com um sorriso.



Não há chave do sucesso
Quando fechadura não há
Não recue, olhe adiante
O que queres já está lá



Sincero é aquele que mente
Mas mente pra preservar
A estética da semente
Que se preza a cultivar
Mentiroso aquele que nega
A verdade que repugna
Que aceita o espelho e despreza
A beldade que o ensina



Conheci uma cronista
E em mim algo despertou
Narrei junto dela, às vistas
Um conto que se prolongou
Hoje o romance despista
O amor que vivenciou



Entre chagas e espinhos
Um rumo há de se mostrar
Disperso em redemoinhos
Gritante, mudo, a bailar
Na valsa do amor nascente
Só a paixão se destaca
E com paixão vivo ardente
Sobrepondo em risos as estacas



Dentre os mais gritantes tempos
Um só ante a multidão
Cercado, sempre ao relento
Temendo tal solidão
Na solidão dos unidos
Mãos dadas são o remédio
De um silêncio estampido
Que reprime todo tédio



Escuro, vento soturno
O vento em choque ao muro
Brilhante manto noturno
Em nada além de um segundo
Encontro-me abandonado
Sozinho, tão desprezado
Nos cantos, amordaçado
Sempre preso, acorrentado
Nunca tive medo do escuro
Mas o escuro me faz tremer
Estendo as mãos, inseguro
Procurando por você
Silêncio, balada fúnebre
De um mundo de puro caos
Onde vivos habitam túmulos
E mortos são puro mal
Corro, tombo, me afugento
Evito de acreditar
Abraço o vazio tormento
Respiro a tranquilizar
Salto e grito, acordo assustado
Suor frio de pesadelo
Mas cá, você, ao meu lado
Afaga-me num só beijo



Eu dei as mãos para um anjo.
E ela era tão linda que eu sequer sei descrever. Fazia-me um bem fantasioso, conforme deslizava teus braços em meu corpo, teus frágeis dedos em meu rosto. Afagando meus cabelos, vi estrelas num mundo sem céu, e aquele era o paraíso.
Respirando com certa dificuldade, pois o ar me faltava, escutei aquela voz de perfeição acentuada cantarolar-me um amor infinito.
-Eu não quero acordar.
Meu pedido era impossível.
-Você não precisa.
Ela sorriu, angelical.
-Eu posso dormir para sempre?
Então ela me beijou, e eu a senti, quente e aconchegante, calorosa e apaixonante, e eu entendi antes mesmo que ela me respondesse.
-Não. Você já está acordado.



Há grandes coisas de pequena importância, bem como miúdas atitudes de enorme significado.