Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

sábado, 15 de junho de 2013

Conto - O Fogo e o Vento

Em agradecimento, e homenagem, a uma amiga que diz ser como o Fogo.

O Fogo e o Vento

Após mais um exaustivo dia de trabalho, os quatro elementos se reuniram na Colina do Fim do Mundo para conversar. Falaram sobre seus afazeres, sobre o mundo, sobre os ciclos da vida e sobre os humanos, ainda que não apreciassem tal assunto em demasia. A Terra estava cansada, sempre reclamando das dores que aquele povinho ingrato lhe causava, e foi a primeira a se deitar para descansar. Logo em seguida, a Água a acompanhou, já contaminada pela ambição errônea que uma raça que tanto precisava dela lhe deixava sofrer. Restaram, sentados em bancos de chamas e de ar, somente o Fogo e o Vento.
Os quatro elementos, a cada dia, tomavam uma forma diferente, de acordo com suas próprias vontades. Às vezes eram homens e mulheres, e às vezes, também, eram dragões e feras fantásticas. Naquele dia, o Fogo era uma garota miúda e franzina, e o Vento era um menino magricela, de pele morena e olhos ventosos.
—Sempre ficamos os dois, a sós —o Fogo falou, risonho, e falava a verdade.
—É o destino que o mundo seguiu —contou o Vento. —Sabe como é. O verde das folhas e o marrom do solo, tudo é a Terra, e ela já não é mais respeitada. Nem mesmo a Água, tão necessária, é reverenciada como um dia o foi. O mundo já não é mais o mesmo, e sabemos bem disso.
O Vento pigarreou, limpando a garganta, e engasgou ao tentar iniciar um novo discurso, lançando-se numa crise de tosse.
—Você também não me parece bem —disse o Fogo, meio preocupado, meio irônico. —Tem enfrentado as mesmas dificuldades?
—As de sempre —foi a resposta do Vento. —O ar impuro, a poluição, a fumaça de um povo que vive para trabalhar. Nada fora do comum. —Tossiu outra vez, o peito ardendo. —Alguns dias, machuca mais do que o normal.
—Só eu fico de fora desse sofrimento...
—É. Só você.
Silêncio.
Um sussurro foi carregado pela brisa, e o Vento o engoliu, singelo.
—É meio triste —começou o Fogo, depois de um tempo. —Não dói. Não em mim, pelo menos. Mas todos vocês sentem essa mesma dor, cada um do seu jeito.
—Você também tem a sua dor —o Vento tentou, em vão.
—Não é a mesma coisa —o Fogo retrucou, emburrado.
—Eu disse algo de errado? —O Vento parecia assustado, preparando um pedido de desculpas, mas:
—E há algo certo a se dizer? —foram as palavras do Fogo. —Eu vivo numa eterna briga. Queria fazer diferente, às vezes.
—Cada um de nós faz o que sabe fazer de melhor. Eu vento. —Sorriu. —Você, queima. Está fazendo isso agora, se me permite dizer.
—É da minha natureza. Vão restar só as cinzas.
—Tudo bem. Eu vento. E, assim, eu sigo.
O Fogo deu de ombros.
—Acho que ando muito esquentada —brincou o Fogo, e riu, debochando de si mesmo. —Não sei bem o quê pensar. Tenho medo de ser diferente. Tenho medo de sempre queimar, de sempre ferir.
O Vento estendeu seu braço, tocando a pele do Fogo com suas mãos. Ele não se queimou.
—Está tudo bem —disse ele. —Eu vento, como disse. Sopro o fogo, apago. Levo a fumaça embora. Trago de volta só o que servir.
O Fogo admirou o Vento pelas suas palavras, mas ainda sentia-se inseguro.
—No fim, acaba sendo melhor do que —o Vento continuou. —Estou sempre sozinho. Sempre seguindo, sempre partindo.
—E sempre falando —zombou o Fogo. —Mas eu gosto.
O Vento riu, também. Depois:
—Você queima. Mas aquece, também. E inspira.
—Me acostumei com a ideia de só aquecer. Talvez isso te ajude a não se sentir tão sozinho. Entenda como um segredo, se preferir. Eu gosto de segredos.
—Mas esse segredo não pode me ajudar. Você aquece, acolhe. Mesmo que queime ou machuque, ainda atrai. Eu vento, sigo. Quando se aproximam, eu sigo. Quando eu me aproximo, me perco. —Pensou, por um suspiro. —Quando acelero, disperso; quando paro, inexisto.
O Fogo abriu a boca para dizer algo, mas se calou, esperando pelas palavras que o Vento proferiu:
—Seria bom levar embora as coisas ruins, trazer de volta só as coisas boas. Carregar lágrimas, ventar novos sorrisos. Já o fiz, um dia. Acho que hoje já não sei voltar.
—Talvez você não deva voltar —refletiu o Fogo. —É a sua força. Você foi feito para sempre seguir em frente.
—Pra levar todas as tristezas sem devolver felicidades? —perguntou o Vento, achando graça em sua própria infelicidade. —Ficaria com todas as lágrimas pra mim. Tem choro demais pra carregar. Até o vento pesa.
—Quer me convencer de que o Vento é terrível? —o Fogo indagou, e o Vento fez que não.
—Não sou terrível. Mas me aterrorizo com isso. Só o próprio Vento vê o Vento como sofrível.
—Mas eu, ainda assim, gosto de correr atrás do Vento —contou o Fogo. —Por tudo o que me mostrou um dia, por tudo o que carregou de mim. Por tudo o que trouxe para mim, também.
—Bem como eu não posso evitar o Fogo que, um dia, já me acolheu.
—E te queimou?
—A vida machuca —foi a resposta do Vento. —Se eu tenho de me queimar pra me aquecer, tudo bem. Antes isso do que viver num eterno frio.
O Fogo sorriu, feliz. Há tempos não se sentia assim. Vendo tal felicidade, o Vento também sorriu.
Atrás dos bancos, Terra e Água já roncavam.
—Acho que temos que descansar —disse o Fogo. —Foi bom conversar com você, Vento.
—Foi uma boa conversa, por sua culpa.
—Eu só fui a faísca.
—E eu só espalhei o Fogo —riu o Vento. —Não faço nada sozinho. Preciso de uma centelha, de uma fagulha. —Demorou um segundo para concluir suas palavras: —Preciso de você.
O Fogo não soube o que dizer.
—Ou morro de frio —o Vento zombou, e ambos riram. —Agora, vamos descansar. Temos mais um dia cheio de Fogo e de Vento pela frente.
O Fogo assentiu, e ambos se deitaram, cada qual em seu lugar. O Vento, tossindo pela tortura do existir, adormeceu rápido demais, num sono sem sonhos. O Fogo demorou para dormir. Deitado sobre suas mãos, olhava o Vento em sua forma de menino, os olhos fechados, dóceis.
—Obrigado, Vento —murmurou o Fogo para si mesmo. —Sem você, sou incapaz de existir.
E só então adormeceu, sorrindo.

Pela primeira vez desde muito tempo, teve bons sonhos, com pitadas de esperança carregadas por uma brisa suave e harmônica.

Conto - O Legado do Herói das Montanhas

Seguindo nos desafios sugeridos para contos, recebi cinco palavras dispersas para que uma nova história fosse criada. Eram elas: macaco, bruxa, fantasma, abelha e meteoro. Assim, em resposta ao desafio do Sr Alec Silva (sim, novamente ele, haha), cá está o mais novo conto do blog Elhanor, e espero que apreciem sua leitura.

O Legado do Herói das Montanhas

Quando começou, poucas pessoas notaram.
Era só um fenômeno estranho, incomum. Poderia muito bem ser uma espécie de eclipse, ou mesmo o que chamavam de Aurora Boreal em outros reinos. Nasceu no céu, por entre as nuvens, por entre o azul que acolhia o mundo, e se expandiu sem pressa, como uma criança manhosa, recém-nascida, que se espicha em crescimento até atingir a fase adulta. Passaram-se dias, semanas, sem que alguém notasse que aquilo não deveria estar ali. Magos pensaram, refletiram sobre tal processo que nem mesmo a magia era capaz de explicar, não chegaram a conclusão alguma. Clérigos pediram por respostas em preces, cartomantes buscaram explicações em seus vislumbres, paladinos partiram por cruzadas espirituais. Nada. Cada resposta não encontrada trazia consigo outras perguntas, a dúvida se tornava cruel. Restava a aceitação, e ela veio como a vergasta de um chicote, assídua num primeiro instante, leviana no momento seguinte.
Então, ao fim, torturante.
Nas nuvens, crescia um segundo palácio, feito de madeira, palha, cortiça e vime. Lembraria, na distância em que se encontrava, uma fortaleza flutuante, acima das nuvens, acima do mundo. Não era o castelo que aparentava, porém.
Era uma colmeia.
A Colmeia de Nuvens.
Imensa, num céu a que não pertencia, a Colmeia estacou, como se por mágica. Uma mágica peculiar, certamente, uma mágica obscura. O reino, abaixo daquele castelo magnífico e simplório, tornou-se coberto por um manto de dúvidas. Guerreiros valorosos ousaram se aventurar, jamais retornaram. Dias e mais dias se passavam, e tudo o que voltava da Colmeia eram rumores e pedaços de sobreviventes.
Há uma bruxa.
Foi o que alguns disseram, depois de um tempo. Uma líder, uma general. Uma feiticeira no palácio que era a Colmeia, arquitetando algum plano maquiavélico, desastroso e surreal. Depois de tempos, chamaram-na de Abelha Rainha, sem que nem mesmo confirmassem sua existência. Bardos cantavam sobre uma mulher de vestes negras e amarelas, dotada de uma cauda que, ao fim, ressoava num ferrão venenoso. Bêbados contavam sobre sonhos com uma donzela de cabelos dourados, olhos de mel e lábios adocicados, que os acolhia, aconchegava e, por fim, exterminava, envenenando-os. Contadores narravam feitos de heróis épicos que, explorando a Colmeia de Nuvens, se perderam nos encantos de uma malévola feiticeira que dominava um enxame da mais pútrida mágica, convocando hordas em rituais de druidismo e, por mera vingança em nome da natureza, extinguindo a raça à qual não mais declarava fazer parte.
Obviamente, todas essas histórias eram mentiras.
A verdade, talvez, fosse muito pior.
O Rei daquele lugar não mais sabia o quê fazer. Seu povo exigia respostas. Queria saber o que era a Colmeia de Nuvens, como surgira, quando iria embora. A dúvida criava o medo, e o medo do desconhecido é o que faz a fortaleza de um homem desabar por inteiro. Ali, entre a amurada de seu castelo, o Rei via sua fortaleza desabar, sem nada saber. Tinha um povo para cuidar, uma família para honrar, um nome para agraciar. E uma Colmeia de Nuvens misteriosa sobre seu castelo, dizimando todas as outras coisas que jaziam em sua mente.
Quando achou que a situação já estava de todo crítica, viu-se perdido: sua filha, a princesa daquele reino, fora sequestrada e levada à Colmeia.
Sabiam disso por um alerta deixado em seu quarto, encontrado na manhã seguinte por uma governanta que cuidava da limpeza. A cama ajeitada, os pertences em seus devidos lugares, a janela entreaberta, sacudindo ao vento. Nenhum sinal da princesa. Nas paredes, pichadas com o mais meloso dos méis, mensagens. Avisavam sobre o sequestro, provocavam, incitavam guerreiros a subir, mais e mais cavaleiros a se aventurar, mais e mais magos a ousar desafiar aquela fortaleza voadora.
E foi o que o Rei fez. Mandou seus melhores homens, seus paladinos da glória, seus cavaleiros da justiça, seus encantadores da sabedoria, todos eles. Subiram ao vento, penetraram a Colmeia de Nuvens, e nunca mais foram vistos por suas famílias ou por seu reino.
Não havia muitas outras escolhas. Uma semana se passou, sem notícias, sem sinais. A Colmeia ainda estava lá, imponente. Precisavam de alguém que não fosse abatido por quaisquer obstáculos.
Precisavam de um herói.
Não se encontra mais heróis em grandes cidades. Os verdadeiros heróis daquele mundo se perdem nas florestas e nas montanhas, decididos a armazenar seu conhecimento nos tronos que a natureza oferece. Ali, nas proximidades daquele reino, havia uma montanha famosa por suas lendas. Em tal local, os homens floresciam como animais, transformavam-se. Eram homens-fera, uma nova raça, um novo povo, de novos costumes e novos heróis. Aquele povo era regido por um Lorde, e foi a ele que infindáveis cavaleiros buscaram numa jornada surreal.
Encontraram-no no cume da mais alta montanha, meditando. Pediram por sua ajuda, e ele os ouviu, sem nada dizer. Abriu seus olhos, eriçou a pelugem de macaco que protegia o corpo malhado, tirou das rochas o bastão expansível que usava em seus combates e, sem nada dizer, escalou o vento, pisando no que inexistia para alcançar, acima de todas as nuvens, a Colmeia que ameaçava o reino.
O herói das montanhas deparou-se diante de um palácio que cheirava a mel. As portas se abriram, recepcionando-o, e ele entrou, a arma em riste. Havia pouca luz, nenhuma fresta que deixasse o azul do céu entrar. Usou da mágica para irradiar a ponta de seu bastão, prosseguiu. Escadarias, sempre espiraladas, sempre confusas. Respirou fundo, sentiu cheiro de homens e mulheres, de histórias mórbidas, de herdeiros sem vida. Respirou mais, concentrado.
Sentiu o cheiro da princesa.
Seguiu-a, alvejado, como tantos os outros o foram, por espectros. Eram fantasmas de homens e mulheres sem valor, mas fantasmas e, como tais, nada os atingia fisicamente. Mas o meio-macaco tinha a mágica, e ela lhe protegeu. Com a mágica, seu bastão foi capaz de destruir afrontar espíritos, e neles encontrou grande parte do exército que o Rei enviara. Estavam todos lá, aprisionados, emitindo sua aura verdejada, alimentando alguma coisa que ali vivia.
O herói prosseguiu, derrotando hordas de fantasmagoria, até que se deparou com armadilhas. Espinhos venenosos, ferrões, estacas, lanças, dardos, fossos, amarras, correntes dentadas. Evitou todas, pois nascera nas aventuras, nos perigos, no cotidiano de quem vive próximo à morte. Encontrou, ali, os corpos de infindáveis magos, que talvez tivessem sido capazes de superar os fantasmas de outrora, mas jamais transporiam obstáculos como aqueles. Passou por eles, orando aos deuses para que suas almas encontrassem um lugar melhor do que os primeiros cômodos da Colmeia de Nuvens.
Avançou por corredores de elementos, recepcionado pelo fogo e pelo vento, pela água e pelo trovão. A magia predominava, mas sua mágica era mais forte. O meio-macaco respirava encantamentos, e assim, nada o atingiu. Seu bastão girou em suas mãos e em sua cauda, dissipando quaisquer ameaças que ousassem alvejá-lo. Nada o tocou, nada o feriu.
Enfim, a torre mais alta, e lá farejou a princesa, já fraca.
Ela estava presa a correntes, braços e pernas esticados ao limite do corpo humano. Chorava, mas suas lágrimas eram secas. Despida, exibida como um troféu, humilhada como plebeia. O meio-macaco a reverenciou, e alguém gargalhou, achando graça.
Lá estava ela. A Abelha Rainha, como a denominaram. A bruxa malévola que corrompera os céus daquele reino, envenenando-o com seu ferrão e com sua feitiçaria obscura. O monstro que sequestrara a filha de um Rei.
Uma criança.
Em corpo, ao menos. Tomada pela alma de tantas outras bruxas, a garota encontrava-se corrompida. Seus olhos eram negros, sua pele cintilava. Ela urrava por vingança, sua voz eram tantas outras vozes que tornava-se impossível diferenciá-la. A Maga da Noite Gélida, o Vulto Soturno, a Viúva Negra, o Horror dos Esgotos, a Vespa da Floresta Azul, o Herdeiro dos Morcegos, a Erva da Perdição, o Olho de Dragão; todos esses e outros mais. Disputavam um mesmo corpo, um mesmo ódio, um mesmo turbilhão de sentimentos, tantas almas negras, impossibilitadas de transpor a camada alva do céu, rejeitadas pelo véu singelo do inferno. Almas repletas de cicatrizes, aprisionadas no purgatório, fugitivas, capazes de retornar ao mundo somente por tamanho o desprezo que carregavam pela raça humana e, em suma, coincidentemente, por um homem em especial.
O herói das montanhas, antes de meio-macaco, fora somente um homem. Ganhara o direito de honrar tal título, de receber tamanho poder, quando as divindades lhe agraciaram com um troféu por seus feitos. Exterminara tantas ameaças, defendera tantos universos, salvara tantas vidas, que mesmo os deuses tiveram de se curvar em reverência àquele herói cujo nome há muito se perdera. Era ele o odiado, ele o atraído. Todas aquelas almas violadas, todos aqueles seres malignos, viventes no corpo de uma garotinha inocente; todo o ódio era por ele, pelo herói, pelo macaco.
—Abelha Rainha —falaram cem vozes, talvez mais, ao mesmo tempo. Ressoavam. A Colmeia de Nuvens oscilava perante suas palavras. —O nome que recebi dos homens. —Sorria. —Eu o desprezo.
O bastão nas mãos do macaco girou, preparado.
—Já temos as vidas que precisamos —a vilania contou, tirana. —Enganam-se os que enxergam meu lar como uma colmeia. O disfarce foi perfeito. Isto é muito mais que um castelo.
O herói das montanhas avançou, ríspido.
—É um meteoro.
Lutou. Ao mesmo tempo, a Colmeia de Nuvens desabou, quedando na direção do reino. Sob o confronto, homens e mulheres choraram, enxergando um céu que escurecia. A coisa aumentava, cobria o sol e as nuvens: era imensa. A Colmeia despencava, trazendo consigo o prelúdio do fim do mundo, pronta para acabar com a desprezível raça que eram os humanos.
Sobre a amurada de seu lar, o Rei daquele reino choramingou, hesitante.
O macaco afrontou a Abelha Rainha com seu bastão e sua coragem. Ela era infinita, mas ele era mais que isso. Todas aquelas almas, todos aqueles nomes; ele ainda se lembrava. Conhecia todos eles, um a um, todos desabaram perante seu bastão. Não seria diferente dessa vez. Tocado pelos deuses, escolhido pelas divindades, o herói das montanhas lutou bravamente e, mesmo ferido, derrotou a garota que era morada para as mais malévolas existências de um único mundo. Deixou-a caída ao solo, pronta para desabar junto da arma que criara. Libertou a princesa de suas amarras, levou-a ao Rei num só salto, deixou-a nos braços do pai, surpreso. Não teve tempo de ouvir os agradecimentos. N’outro salto, retornou à Colmeia, concentrou-se, pediu para que todo o som se tornasse silêncio, foi atendido.
Meditou.
Sob a catástrofe, a Colmeia desabou. A mágica do vento a arrastou, porém. Levou-a para o oceano, deixou-a despencar num mundo submerso. A mágica da água fez das ondas colossais, e a mágica do gelo fez delas esculturas, pétalas cristalizadas numa belíssima gravura de realidade, a qual se firmou no mundo pela mágica da terra. A Colmeia de Nuvens explodiu, encantada, mas a mágica do fogo dançou no ar, circundando-a num espetáculo de fogos de artifício que o mundo todo foi capaz de presenciar.
Dentro das explosões, os espíritos de infindáveis ameaças se perderam, dizimados pela mágica da vida.
O povo do reino chorou, aplaudiu o herói das montanhas, homenagearam-no. Esperaram que ele retornasse para comemorar, mas ele não retornou. O Rei guardara toda sua fortuna como prêmio, a mão da princesa seria oferecida em casamento, a serventia do povo seria um benefício adicional. Mas o herói das montanhas jamais retornou, e o povo esperou assim, silencioso, sem comemorações, aceitando que, mesmo salvando todo um universo, um meio-macaco era aquilo que sempre fora: um homem.
E, como todos os demais homens, ele também haveria de morrer.
Muito tempo se passou sem ameaças, mas elas viriam, certamente. É o ciclo da vida: onde há luz, há sombra. Outros heróis surgiriam, agraciados por seus feitos. A escultura no meio do mundo contaria sua história por gerações, como uma flor gélida no meio dos mares, aberta de forma a revelar seu botão terroso, circundado por chamas eternas. Aquele era o trunfo do herói das montanhas, que no início tivera diversos nomes, mas hoje não tinha nome algum.
E, no cume da mais alta montanha daquele mundo, um bastão jazia fincado ao solo, silencioso.
Ao seu lado, um homem coberto de pelos tinha os olhos fechados, em eterna meditação.
Aquele era o legado do herói das montanhas. Era dominado pelo fogo, pela água, pelo gelo, pelo vento, pela terra, pela vida, pelo mundo, e também dominava a tudo, numa justa troca oferecida por sua lealdade.

Mas, tocado pelos deuses como o era, jamais seria dominado pela mágica da morte, ainda que a dominasse com primor.

Conto - O Último Soldado de Deus

Certa vez, me foi imposto um desafio: escrever um conto, uma história paralela ou similar, com base em palavras aleatórias, e tais palavras foram as seguintes: Dinossauros, alienígenas, robôs, soldado e demônio. Não era uma escolha de todo complexa, mas também nada simples. O resultado, entretanto, ainda que com suas controversas, me agradou. Hoje trago a vocês o conto 'O Último Soldado de Deus', inspirado pelo desafio do Sr. Alec Silva, autor de Ariane e de A Guerra dos Criativos, e espero sinceramente que apreciem a história que os aguarda.
Sem mais demoras, cá está o texto:

O Último Soldado de Deus

É certo que eu já enfrentei diversas situações exóticas nessa vida. Poderia passar horas aqui, somente para lhes citar algumas, mas farei melhor. Contarei a última, e não só a última das histórias que vivenciei, mas sim a última história que eu quero para o meu livro do destino que, cá entre nós, foi escrito por um autor insano demais para o meu gosto.
Naquele tempo, a Terra já não era mais um lugar seguro.
Demoramos para descobrir, mas ela nunca foi, na verdade. Antes que as ameaças externas surgissem, nós mesmos cuidávamos do caos, das mortes e das desgraças que assolavam os povos. Todos da mesma raça, ainda assim divididos em castas, classes e etnias, o que sempre me enojou, mas não o suficiente para que eu me tornasse um presidente e mudasse o dogma de um planeta tão grande quanto um feijão, no que diz respeito ao caráter evolutivo de seus moradores. Assim, quando o caos de outros universos nos encontrou, nada fizemos além de rezar, morrer e, num último resquício de sorte, fugir.
Eu estava em uma daquelas naves que foram atiradas no espaço. Em uma das que não explodiram logo em seguida, por sinal. Flutuamos no vácuo por tempo demais, e eu gostaria de ter dormido pelas semanas, ou talvez pelos meses, que se seguiram naquela viagem tenebrosa, mas não o fiz. Estava ansioso, e bastante inconformado, um fato. Ninguém aceitaria ver seu lar dominado por outra pessoa. É como o homem da casa assistir ao estupro de sua esposa e à escravização de suas filhas.
Tá, nem tão forte assim, mas vocês podem imaginar como eu me sentia.
Chegamos, mas não havia lugar algum para se chegar, e então em perguntei onde aquela nave espacial estaria se escorando. Não fora muito bem um pouso confortável, muito menos aconchegante, mas ela parou, após um momento infindável de caos desenfreado, e portas se abriram, presenteando-nos com o ar de um novo mundo, de um novo tempo, um ar que poderia nos matar, mas não matou, e aquela era a primeira boa notícia desde que o nosso planeta caminhara para a destruição.
Desci depois de todos os demais, sozinho, sem ser capaz de me empolgar pela sobrevivência que nos aguardava. Estávamos destinados a viver num lugar inóspito, onde, possivelmente, não seríamos bem-vindos. Se aquele ar nos respeitava, respeitaria a outros também. Foi o mesmo pensamento que me tomou quando vi, naquela terra verdejada e sedosa, córregos de água limpa e, acima de tudo, num céu anuviado e bastante escuro, um sol fosco e duas luas partidas ao meio, como é o yin-yang.
Eu não tinha medo de encontrar um alienígena naquele outro mundo: nós éramos os alienígenas. Na visionária proporção que o ser humano se vê, vivendo como umbigo do mundo, sem respeitar norma alguma, temos a concepção de que nunca seremos nós os alienígenas. Aquele não era nosso lar, nem mesmo nosso planeta, então, sim, éramos nós os estranhos.
Mas a primeira coisa que vi me chocou muito mais do que um exército de marcianos seria capaz de me chocar.
Era um dinossauro.
Talvez não fosse, e eu me enganava, mais uma vez, mas a imagem não se confundia em minha mente. Não um tiranossauro, bem menor, na verdade, ainda que maior do que eu, do que qualquer pessoa dentre aquelas que desembarcavam da espaçonave que nos resgatou. De início, a criatura não se importou conosco, impossibilitada de se concentrar no cheiro de carne fresca graças ao desconhecido daquele metal imenso e aerodinâmico que a máquina de travessia de galáxias possuía.
Em um momento inoportuno, o dinossauro nos viu, e o caos se instalou entre todas as pessoas. Fico imaginando, em meu subconsciente doentio, se fosse aquele ser um tiranossauro do tamanho de um trem de carga, mas enfim.
A criatura urrou, faminta, deixando que a saliva escorresse por entre as presas afiadas demais para que a nossa carne se sentisse confortável em servir de oficina de mastigação, e então disparou desenfreado e desembestado, chocando-se contra obstáculos do terreno, vez ou outra, como formações rochosas que eu sequer havia reparado anteriormente. Suas primeiras vítimas foram estraçalhadas, mas o que ele tinha não era fome: era sede de sangue, de morte. O dinossauro matava, mas matava de forma impiedosa, e não parava para devorar nada nem ninguém, apenas avançava, alvejando uma nova vítima, desfazendo-a nas mandíbulas preparadas para findar vidas.
Os gritos em histeria me fizeram acelerar, como antes me acelerava as balas de festa, e eu sentia o sangue ferver, borbulhando dentro de mim, como se eu fosse mais do que um homem, mais do que um simples humano. Talvez eu fosse. Queiramos ou não, naquela terra desconhecida, éramos nós os alienígenas, os invasores e estranhos. Então, isso era o que eu era naquele exato momento: um desconhecido numa terra de que eu não tinha conhecimento. Tudo era confuso demais para assimilar, então deixei as ideias e os conceitos de lado para me focar na única alternativa que me parecia viável no momento: correr, mais do que as minhas pernas me permitiram ao longo da vida de fumante passivo.
Atrás de mim (e também nos lados, pois não era eu, e jamais seria, o melhor corredor dentre tantos aqueles falsos sobreviventes), as pessoas morriam, e só então percebi que havia outros dinossauros. Não bastasse suas velocidades absurdas e suas presas grotescas, algo mais me aterrorizou: mecânica. Se antes eu imaginava como diabos poderiam existir dinossauros naquele lugar, agora eu martelava em minha mente o conceito de criação dos cientistas de um novo mundo, capazes de trabalhar a carne e o organismo de criaturas tão fabulosas lado a lado com peças mecânicas, partes cinzentas de aço e fibras de carbono, e assim moldar seres metade animal extinto há milênios, metade máquinas de matar. Parte dinossauros, parte robôs, e isso me parecia terror o suficiente para um filme de caos trash, daqueles onde os protagonistas são caçados por bizarrices como palhaços assassinos do espaço sideral, ou, agora, dinossauros mecanizados.
Encontrei, num momento que julguei sagrado pelo restante de meus dias de vida, uma entrada subterrânea, uma escadaria, na verdade. Depois de tanto correr por aquela paisagem medonha e devastadas do mundo que não era o meu, uma escadaria me soou bastante irônica, tamanho o contraste de tal criação com o território desértico e árido que servia de palco para o espetáculo de sangue e partes de corpos que os dinossauros ministravam. Lancei-me nos degraus, desesperado, muitos outros me copiaram, alguns rolando pela escadaria com braços e pernas que se quebravam em fraturas expostas, cenas amorosas demais para meus olhos clínicos e detalhistas. Escapei de um grupo que se envolvia em confusão próximo a um dos corrimões, pouco antes de vê-los estripados pelas garras de um dinossauro de manchas brancas e couro verdejado, e então segui em frente, até que a visão me fez parar, com as pernas trêmulas e os olhos arregalados.
Era um metrô.
Lá estava a linha moldada no metal, circundada por plataformas subdividas em setores, com direito a bancos de espera, cabines de vendas de tickets e afins. Até mesmo um carrinho de pipoca ainda estava lá, abandonado, jogado às traças. Naquele primeiro instante, tentei me concentrar na ideia de que aquele planeta, que não era o nosso, obviamente, tinha similaridades assim, quase que bizarras e inacreditáveis, mas foi um cartas, um simples cartas, que me fez mudar de ideia e achar aquela situação toda ainda mais revoltante.
Havia uma imagem de um cartão postal e, nesta, as palavras Conheça Londres de baixo para cima, começando pelas nossas linhas de metrô, que promovem um turismo sem igual no subsolo da cidade.
Foi então que eu engoli as imagens da devastação, dos dinossauros e das mortes, e elas tinham um gosto de vómito de alcóolatra recolhido após duas semanas, batido no liquidificador com boldo e camomila e misturado a uma colher de orgasmo de elefante.
Aquele não era outro planeta.
Aquela era a Terra, a minha Terra, a Terra de todos aqueles que morriam ali, sem saber o que estava acontecendo, como eu também morreria, talvez, sem saber o que aconteceu ao meu lar.
Então, não era eu o alienígena, mas sim todos aqueles monstros que nos perseguiam. Acho que isso poderia ser considerado uma boa notícia, no fim, e o fim estava realmente próximo. O metrô começava a ser povoado por dinossauros, e pessoas morriam a cada novo segundo, jorrando explosões de sangue fresco e órgãos para todas as partes, pintando as paredes com as histórias escarlates que ninguém leria, marcando o solo com lágrimas rubras que secariam e seriam pisoteadas por seres que não eram os verdadeiros donos daquele lugar.
Eu meio que desisti de correr. Talvez não houvesse escapatória, desde o início. A própria espaçonave foi uma lenda, uma mentira sem tamanho, uma falsa esperança de sobreviver. Nunca saímos do lugar, mas sobrevivemos àquilo que fez do nosso mundo a merda fétida que é agora. Mas nada nos garantia a sobrevivência naquele momento. Nada, nem ninguém.
E este sim era o erro.
Os dinossauros pararam de matar. Suas bocas se fecharam, suas presas desapareceram em sorrisos famintos, suas garras foram recolhidas, como fazem os felinos. Eles baixaram as cabeças, diante de poucos sobreviventes que ali existiam, como se mostrassem dignidade e respeito a cada um de nós, mas não o faziam, certamente. Era outra coisa, muito diferente de respeito, muito diferente de dignidade e, principalmente, muito diferente de nós.
Era medo.
Medo daquele ser que surgia do solo, vomitado por um vórtice assustador, por um buraco negro saído da fenda, aberto pelas mãos cadavéricas e pútridas de uma criatura que eu sequer seria capaz de descrever em sã consciência, mas aproveito agora, que minha consciência já não está muito sã, para tentar. Ele se vestia na noite, no escuro, com um manto feito da alma dos mortos, e tais almas ululavam em suas roupas, gritantes e perdidas. Não era um dinossauro, um alienígena, mas era, sim, um invasor, não de outro mundo, talvez, mas de outro plano, de outro lar.
Um demônio oriundo do inferno.
Ele tinha o sorriso dos estupradores, dos assassinos em série, dos homicidas e dos kamikazes, dos sequestradores e dos pedófilos. Ele tinha o sorriso do mal, desenhado em dentes podres e amarelados, acompanhado de olhos fundos, escuros e sem íris, olhos de noite, com suas vestes, olhos congelantes e horrendos. Uma barba grisalha e imensa caía de seu queixo magricela, e o pedaço de céu negro que ele tinha na cabeça, na forma de um chapéu de feiticeiro dos filmes antigos, só lhe garantia ainda mais o semblante de Morte, de caos exacerbado, de pavor com pernas e braços.
E ainda havia aquela foice, terrível, sempre empunhada, sempre preparada para ceifar.
Ele sorriu, gargalhou, e o som matou vários, mortes piores que aquelas encontradas nas mandíbulas dos dinossauros, estourando tímpanos e cérebros, atirando sangue para o ar como brinquedos desperdiçados por crianças mesquinhas. Ele então se virou para mim, sorridente em sua melancolia infernal, e eu ouvi sua voz que, para minha mente conturbada pelo apavorante destino que me cercava, soou como a pior de todas as tempestades.
—Suportas tua sina, anjo?
Anjo. Sim, claro. Como pude me esquecer?
Eu era um anjo.
O último deles.
Perdido entre os homens, escondido, pois decidi me esconder quando os céus não se mostraram mais seguros, camuflado na casca fria dos humanos. Era eu, um anjo sem asas, sem espada, sem virtude alguma: um anjo fujão, amedrontado, covarde. Um anjo sem pai, sem filhos, sem família, amigos ou mesmo companheiros. Um anjo sem passado, sem presente e, agora, sem futuro.
Um par de asas brancas se abriu, imensas asas plumadas, e elas derramaram penas sobre o sangue dos mortais, de jovens e adultos, de crianças e velhos, e as penas brancas se mancharam de vermelho.
Eu tinha nas mãos uma espada dourada, uma vingadora, uma lâmina reflexiva, coberta de pecados e de salvações, e ela era a esperança da humanidade. Aquele diante de mim era apenas um entre tantos os demônios que cercavam aquele local, povoando-o com pesadelos como os dinossauros mecânicos, mas havia muito mais, muitos outros, cuidando da destruição iminente numa empreitada que nem mesmo divindades foram capazes de prever. O inferno se ergueu de uma só vez, gatuno, e mundo algum estava preparado para afrontar tamanha força como aquela que se apresentava na malícia dos planos satânicos. Caíram tantos mundos que eu sequer poderia contar, e agora, mais um estava para cair.
Eu era o último soldado de Deus.
E, como último soldado de Deus, fiz aquilo que nasci para fazer.
—Não —respondi, de olhos baixos e coração congelado.
Então saltei, as asas em impulsão, a espada rasgando o tempo e o espaço, e voei, para longe dali, para longe de tudo. Não queria ser mais um imortal a morrer por uma guerra que já estava perdida. Não queria ser mais um celeste torturado e violentado pela ambição grotesca dos abissais.
O mundo precisava de heróis, e eu não era um herói. Poucos anjos eram, na verdade. Gabriel, Uriel, Castiel, talvez eles tenham sido heróis. Eu não era. Eu nem mesmo tinha um nome ou, se tinha, havia me esquecido há tempos, junto da minha honra e das minhas virtudes. Eu não era um herói, jamais seria, e estava feliz assim, sem viver, mas sobrevivendo.

E, devo admitir, ajoelhado diante do universo: se sou eu, realmente, o último soldado de Deus, aqui termina a guerra, meus caros mortais, e todos vocês estão destinados a morrer, pois o último soldado não fará parte da última batalha.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Conto - A Lendas das Quatro Gargalhadas

Vamos embarcar em um conto de fadas?
(Um grande obrigado à Senhorita Beatriz, que ouviu essa história antes de qualquer outra pessoa, numa madrugada cheia de Whatsapp. Espero que tenha gostado!)



Há muito tempo, quando os nomes sequer eram importantes, existiam dois irmãos inseparáveis.
Eles eram gêmeos, um garoto e uma garotinha, quase nada parecidos. Tinham seus dez anos quando, por ocasião do destino, se perderam dos pais e foram parar numa floresta. Às vezes, se eles prestassem muita atenção, escutavam os gritos dos pais os chamando. Mas, quanto mais eles andavam, mais pareciam distantes das vozes... e próximos de risadas assustadoras.
Não era segredo para ninguém que, no meio daquela floresta, viviam quatro bruxas risonhas. Elas eram malévolas, sombrias e assustadoras! Ficavam ali, isoladas do mundo, arquitetando suas maldades. Algumas pessoas diziam que elas devoravam crianças! Geralmente, elas percorriam as cidades em busca das suas vítimas. Dessa vez foi diferente. Alguém bateu à porta, e as bruxas nunca esperavam por visitas.
“Estamos perdidos”, diziam as crianças, batendo na porta. “Nos ajudem, por favor!”
As vozes não enganavam. Crianças, fresquinhas, saborosas e suculentas! As quatro bruxas gargalharam, e decidiram que pegariam as crianças dentro da casa. Assim, abriram a porta e, quando os irmãos entraram, elas os trancaram para dentro. Era impossível fugir! Os dois eram como  ratinhos no meio de um balaio de gatos famintos.
As quatro bruxas tinham um trato: quem pegasse as crianças primeiro, ficaria com a menina. As meninas são sempre mais limpinhas, e ninguém gosta de comer sujeira.
A casa era muito escura e fria. Os irmãos andavam abraçados. Estavam com fome, com frio e com muito medo.
E foi aí que as bruxas começaram a brincar.
Sempre gargalhando, malignas.
Cada uma das irmãs bruxas tinha um poder diferente. A primeira delas dominava a areia e o sal. Ela então envenenou tudo o que tinha de salgado na casa. Distribuiu tortas e sanduíches por todo o lugar, deixou-os envenenados para as crianças. Famintas, elas devoraram tudo o que encontraram pela frente... mas só o que era doce! Os irmãos adoravam chocolate, e nada de salgado era melhor do que as balas e os bolos. A primeira bruxa se viu, assim, derrotada. Cansada, sentiu fome, e só se lembrou do veneno quando já tinha comido mais da metade de uma torta.
A segunda bruxa era miudinha, e cega. Ela tinha o poder do frio, e fez esfriar ainda mais o lugar. Ouvia o dente das crianças baterem, e ria. Mas os irmãos encontraram um forno, e o fogo os esquentou, aconchegante. Eles fingiram ter frio, e a bruxa esfriou mais, e mais e mais... Até que ela mesma se congelou para sempre!
A terceira bruxa era a mais alta, e muda. Ela tinha o poder da escuridão, e deixava tudo cada vez mais escuro. Os irmãos, carregando um pedacinho da brasa do forno que até então os esquentava, encontraram um poço no meio da casa. Quando viram que a bruxa estava por perto, se esconderam, pois adoravam brincar de esconde-esconde e eram os campeões da brincadeira! Deram um susto na bruxa, e ela, assim, caiu dentro do poço, incapaz de vê-lo por causa da escuridão que ela mesma tinha criado. Muda, não pôde pedir ajuda a nenhuma de suas irmãs...
A última bruxa era a mais perigosa: ela era linda! Diferente das irmãs medonhas, ela era muito bonita mesmo! Seu poder era o de encantar, e ninguém era capaz de resistir ao seu charme. Quando ela surgiu, a garota desejou ser parecida com ela, e o garoto se apaixonou. Ela então jogou toda a sua magia contra os irmãos, mas eles tinham algo que ela não esperava: um espelho. Quando a bruxa viu seu reflexo, ficou apaixonada por si mesmo, e não conseguiu sair da frente do espelho pelo resto de sua vida.
Derrotando as quatro bruxas, os irmãos fugiram. Sem as gargalhadas e a magia negra daquela casa, conseguiram encontrar os pais e voltaram a salvo para casa. As pessoas da cidade agradeceram aos dois por derrotarem as bruxas, coisa que nem mesmo os mais valentes guerreiros tinham conseguido fazer.
Naquele dia, aprenderam uma valiosa lição: quando toda arma falha, só a ingenuidade de uma criança pode vencer qualquer desafio.

Os irmãos cresceram, e cada um viveu sua vida. Eles até mesmo se esqueceram das bruxas malvadas! Mas elas nunca se esqueceram deles. E dizem que, se você passar pela floresta à meia-noite, ainda pode ouvir quatro gargalhadas...

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Conto - Quebra-Cabeça

Quebra-Cabeça

Ali, entre as mesas de madeira e o clima festeiro, ela destonava.
Sombria, quase que submersa em tecidos violáceos, pouco além dos olhos e da madeixa negra à mostra. As mãos franzinas, próximas da tonalidade albina, moviam as cartas de um baralho peculiar; embaralhavam-no. Em cada dedo, um anel diferente, cada qual com sua cor e seu símbolo, talvez de diversos significados, talvez de significado algum. O manto lhe escondia a aparência exótica e, nas sombras, ela sorria.
O corvo em seus ombros suspirava, impaciente.
Quando postou as cartas na mesa da taverna, o homem à sua frente se ajeitou na cadeira, ansioso. Suava frio, em suma nas mãos, que se esfregavam. Aproximou-se, olhando os padrões ilegíveis das cartas, buscando nas figuras um entendimento, um roteiro para sua vida, em vão. Abriu a boca uma ou duas vezes, engoliu as indagações e os comentários, esperou.
—Vejo tua sorte nas cartas —ela falou, e ele ouviu.
Com os dedos magricelas, moveu as cartas de lugar. Os nomes eram incompreensíveis, escritos numa linguagem peculiar. As figuras variavam: de cobras e escorpiões a gárgulas e matilhas de lobos sorridentes. Havia também uma torre, e um castelo, e uma fortaleza feita de palitos de fósforo.
Nada parecia fazer sentido.
—Teu futuro são as cartas —ela disse, e respirou fundo, mais uma vez. Era, possivelmente, a décima vez em que fazia isso. Olhou para suas mãos, que percorriam as gravuras. Parou sobre uma, aleatória. O corvo ajeitou as asas.
—E o que elas dizem?
—Nada.
—Nada?
—Eu digo. Elas apenas me mostram.
O homem satisfez-se com a sabedoria filosófica da cartomante, e esperou.
A concentração fazia com que ambos se esquecessem da farra que ocorria ao redor, na agitada taverna em que se encontravam.
—A Torre sem Janelas —disse-lhe a mulher, postando os indicadores sobre a figura de uma torre que, surpreendentemente, tinha duas janelas miúdas. —É ela a resposta.
—Que resposta?
—Para todas as tuas perguntas.
Ele estranhou.
—Uma torre sem janelas? Isso quer dizer que... eu vou ficar sem saída na vida?
—Há outro motivo para que eu lhe mostre A Torre sem Janelas. As cartas são teu futuro, saiba desde já. A torre é uma boa escolha, pois torres são rígidas.
—Rígidas?
A mulher recolheu o baralho com velocidade.
—E, quanto mais rígida for a torre, menor é a chance de que você se lembre desse futuro amanhã —disse ela, levantando num movimento ríspido e, com A Torre sem Janelas nas mãos, golpeando o rosto do homem, que foi arremessado para trás.
Duas mesas quedaram no processo, virando bebidas e aperitivos de outros grupos. Um casal de elfos enamorados sentiu-se ofendido pela barulheira desnecessária, e o bardo cujo som agitaria poucos enterros deixou de tocar sua melodia para encantar a todos com o som de um conflito. Um anão bêbado há semanas se levantou, o que não mudava muito em sua altura, pedia por brigas.
O corvo guinchou nos ombros da mulher.
—Tava demorando pra você arrumar confusão! —ele falou, com uma voz estridente e incômoda, e a mulher riu, deixando de lado as pesadas vestimentas que a cobriam.
Por sob os mantos, não era de todo feia. Surpreendia, porém, com sua aparência, digamos, exótica. Cabelos finíssimos, ondulados, separados em cores e tons, do azul ao púrpura. Uma tiara prateada, mesma cor dos seis brincos que lhe recobriam as orelhas, uma tatuagem cinzenta sob o olho esquerdo, tribal. Os lábios tinham um aro metálico trespassado, sem perder o vermelho sangue já natural. Uma madeixa negra caía sobre os olhos, parte castanhos, parte verdejados, e as sobrancelhas se misturavam a plumas que variavam entre o azul marinho e o carmesim.
Aquela era Enigma, a mulher dos mistérios.
Antes que o homem caído se levantasse, Enigma mostrou-se disposta a fugir, evitando maiores confusões. Guardava nos bolsos as moedas de ouro do coitado que assaltara, vitoriosa. Precisava apenas de uma rota de fuga para que o almoço de mais um dia estivesse garantido.
—Até quando vai viver desses trambiques? —perguntou o corvo.
—Fica quieto, Jarvis! —Enigma bradou, deixando de lado a tonalidade culta utilizada há pouco.
Tentou escapar pelas portas dos fundos, mas um bando de arruaceiros já se postava à sua frente, impedindo-a. Buscou a entrada, mas o casal de elfos já esperava por elas, inconformados com o encontro amoroso que viram estilhaçar. Correu para os lados, mas o anão bêbado e um grupo de orcs desajeitados lançavam-na olhares nada admirados.
Estava presa.
O homem caído ao chão se levantou, furioso.
—Como ousa enganar Durval, o Grande Conquistador?! —indagou, aos berros. Tinha um nome e um título, mas sua fama não parecia das maiores, pois ninguém naquela taverna se intimidou. —Há de pagar com sua vida, sua larápia! Prepare-se para —
—Sabia que, quando eu ainda frequentava a escola, me chamavam de Quebra-Cabeça? —Enigma perguntou, surpreendendo a todos. A mão direita dentro das vestimentas que até então lhe escondiam. As sobrancelhas sacudiam ao vento cada vez que ela piscava.
Durval respirou fundo, fora de controle. Sua pele morena começava a avermelhar, em frenesi. Caminhou, pé ante pé, na direção de Enigma, que não se moveu.
—Que ótimo, Senhora Quebra-Cabeça —disse ele. —É uma grande brincadeira essa sua, mas eu vou te mostrar uma brincadeira ainda mais divertida. Se chama —
Novamente interrompido.
—Eles diziam que eu era incompreensível. Os garotos tentavam definir meus gostos, mas sempre erravam. Diziam que eu era difícil de entender. Dá pra acreditar?
O Grande Conquistador bufou. Um dos botões de sua calça estourou, não suportando a pressão de suas gorduras desnecessárias.
—E me deixa adivinhar —começou ele. —Esse é o motivo do seu apelido, Quebra-Cabeça?
Enigma sorriu.
—Não —respondeu ela, tirando dos mantos a mão e, nela, portando um martelo de combate utilizado como se nada pesasse, apesar do tamanho desproporcional. —Eu quebro crânios. Por isso o apelido.
O golpe veio avassalador, sem aviso, sem esquiva, e a têmpora de Durval, o Grande Conquistador, deparou-se com a solidez da Parede, a Grande Destruidora de Guerreiros Nada Famosos, e ele só se lembraria do acontecido quando acordasse, uma semana mais tarde.
O martelo de Enigma sacudiu no ar, ameaçando todos os adversários que a circundavam. Ela olhou ao redor, contou. Um, três, onze, vinte e cinco, cento e... Droga, era horrível em matemática!
Achou melhor fugir e, vendo as portas bloqueadas, escapou por uma abertura feita nas paredes com seu martelo quebra-crânios. A primeira parede derrubada a levou até uma casa. Teve de abrir caminho mais uma vez, antes de disparar numa direção errônea, seguida de perto por diversos baderneiros de taverna.
O corvo ainda em seus ombros, singelo.
—Por que você sempre faz isso? —perguntou Jarvis. —Por que não pode simplesmente roubar sem ser percebida e destruir metade das coisas que ficam perto de você?
—Porque assim não seria tão divertido! —sorriu Enigma, desaparecendo num beco. Assim que saiu do esconderijo, seu rosto era outro. As sobrancelhas plumadas desapareceram, o cabelo multicolorido foi deixado de lado para que fios cobreados pudessem nascer. A pele era mais morena, e os olhos, mais verdes, fazendo do castanho uma memória antiga e confusa. Os brincos e o anel metálico dos lábios sumiram, deixando seu rosto limpo, puro e jovial, como uma garotinha ruiva repleta de sardas. Ainda havia a tatuagem sob o olho, mas a imagem era diferente: uma lágrima azulada, miúda e quase imperceptível.
Um dos guerreiros da taverna a abordou. Era o anão alcoolizado.
—Ei, garota, por um acaso tu não viu uma mulher bizarra por aí? —perguntou ele, a voz amolecida, bem como as pernas. —Ela tinha umas sobrancelhas de pavão, sei lá...
—Não a vi —sorriu a garotinha, inocentada, e o anão aceitou a resposta, encantado pelo sorriso admirável daquela menina, indo embora logo a seguir. Estranhou o corvo nos ombros da garota, que lhe era estranhamente familiar, mas nada disse, e logo desapareceu na confusão que se instalava pela cidade.
Quando fora de perigo, Enigma sentou-se em um banco, contando o dinheiro que roubara de Durval.
—Viu, foi muito fácil! —disse para Jarvis, que suspirou, indignado. —Como roubar doce de um filhote!
—Claro, de um filhote de dragão! —corrigiu o corvo. —Eu não gosto de tanta adrenalina assim, se quer saber.
—Não quero —Enigma zombou, guardando a pequena fortuna. —Você me segue por opção, Jarvis. E eu ainda tento te ajudar. Depois de tudo o que tenho feito para quebrar sua maldição, como tem coragem de ser ingrato assim?
—A maldição que VOCÊ colocou, cretina!
Com a delicadeza das mãos de uma ingênua garotinha, Enigma estapeou o bico do corvo em seus ombros.
—Indiferente a isso, ainda estou te ajudando —disse ela. —Se não está feliz com tal situação, queira posicionar seu sofisticado traseiro plumado no ombro de outra vadiazinha, sua pomba negra.
Jarvis contou, dentro de sua mente de corvo, até dez, mas achou que dez era um número pequeno demais para que pudesse se acalmar. Ali, postado nos ombros de Enigma, vivia um dia de cada vez, sem saber quando seriam apanhados, quando se dariam bem, ou mesmo se um dia, num futuro distante, sua maldição seria quebrada. Destinado a acompanhá-la para todo o sempre, ele apenas rezava, em seu interior, para que alguma divindade sóbria despejasse um pingo de sanidade na deturpada mentalidade de Enigma, cujo nome verdadeiro se perdera há anos, e que agora atendia assim, ou como a famigerada Senhora Quebra-Cabeça, cujos rostos jamais se repetiam, cujos roubos se espalhavam como histórias mitológicas e lendas urbanas.

E, enquanto Jarvis pensava em tudo isso, Enigma ajeitava suas cartas, preparando-se para ler o futuro de uma nova vítima em potencial.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Conto - O Eterno Silêncio de Aokigahara

Para quem não conhece, Aokigahara é uma floresta japonesa muito famosa por ser o segundo local mais comum para suicídios no mundo todo. Sem mais demoras, vamos ao conto.


O Eterno Silêncio de Aokigahara

Já não se lembrava o motivo de estar ali.
O silêncio agradava, ao menos. Em meio a tantas árvores, pouco do som exterior trespassava as folhas, tamanha a densidade daquele local. Era uma música única, sem melodia, sem batidas, sem ruído algum. Vez ou outra, um galho se partia sob suas botas, era quase o rufar de um tambor. Depois, silêncio outra vez. Um inseto ressonava, o vento ululava, era tudo, então nada.
Silêncio, sempre.
O verde o circundava. Não eram belas árvores. Tinham formas bizarras, em suma. Galhos retorcidos, membros magricelas e contorcidos, sombras de gente agonizando. No silêncio, por vezes, escutava um grito. Era o fantasma da dor de outro alguém, de alguém que já não mais ali se encontrava. Mas era apenas silêncio. O resto era sua imaginação tentando lhe pregar uma peça, uma brincadeira de mau gosto.
Silêncio, ainda.
Caminhava na incerteza de cada passo. Não se recordava o que fazia ali. Não se lembrava do nome, nem mesmo disso. Apenas andava, acompanhado por nada e ninguém, dançando ao som emudecido de uma floresta assombrada. Histórias bailavam em sua mente: fantasmas, demônios, entidades e baboseiras mais. Não via nada além de sua sombra, não ouvia nada além de seus passos. Pior que qualquer fantasma ou demônio, ele tinha a solidão, apenas ela, e tal mártir é capaz de ferir como monstro algum o seria.
Apoiou-se numa das árvores, tremulou. Fazia frio, não estava agasalhado. As pernas oscilavam, os dedos enrijeciam, já enrugados pela baixa temperatura e pela umidade. Seus cabelos carregavam gotículas, parte por uma chuva que já não se recordava, parte pelo ar congelante do local. Os olhos pareciam insanos. Não focavam, sempre perdidos, visitando lados e direções errôneas, buscando o que não existia, uma finalidade, um fundamento, uma explicação. Diante de seus olhos, a solução iminente, a resposta para todas as perguntas. Atrás de seus olhos, nada além da fosca e sem brilho sensação de perder todas as esperanças.
Voltou a caminhar, era sua única chance de esquentar o corpo num movimento incomum. Apertou o passo, tentando assim chegar mais rápido ao seu destino, se um destino houvesse. Tropeçou em raízes e vinhas, não caiu. Sentia algo pesar nos bolsos, sacudir conforme corria. Sentia algo metálico roçar a virilha, preso ao cinto, gélido como o ar que o acolhia naquele local absurdo. Não se lembrava daquilo, não tinha coragem para olhar. Tinha que seguir em frente. Ainda que não se recordasse, sabia que havia um lugar para chegar.
Tropeçou, dessa vez caiu.
Algo estava ali, inerte.
Alguém.
Deitado, os braços confortáveis sob a cabeça, as roupas jogadas como uma coberta improvisada por um morador de rua. Abaixo das cobertas, nudez. Uma mulher, de poucos dotes, de baixa beleza. Falhara em sua vida, ou a vida falhara com ela, talvez. Ao seu lado, um pote de veneno. Ainda havia uma boa quantidade.
Seguiu, os olhos trêmulos.
Silêncio, incômodo.
Já não era tão agradável quanto de início.
Sentia-se sozinho. Atrás dos olhos, nas memórias, nas lembranças, a voz de uma criança sorridente lhe fazia pensar que não teria de estar sozinho. A voz de uma mulher dizia que lhe amava, pedia pra voltar. A voz de diversas pessoas o cumprimentava, parabenizava por uma conquista que inexistia. Então, sumiam. Todas as vozes, todas as pessoas. Não conseguia se lembrar de seus rostos. Quem eram aquelas pessoas? Aqueles amigos, aquela mulher, aquela garota. Quem eram?
Algo caiu de seus bolsos. Agachou-se, pegou: era uma foto cortada. Uma mulher tinha uma criança nos braços, sorria. O bebê chorava, como costumam chorar os recém-nascidos. Havia alguém ao seu lado, mas fora cortado, dispensado, abandonado.
Vagava.
Deixou a foto para trás, como tudo deixaria. Seguiu.
Silêncio, um tormento. Dava dor de cabeça, pavor.
Uma árvore sorriu para ele. Olhou direito, era uma lacuna, um espaço entre o tronco e os galhos. Ali, uma boneca sorria, não a árvore. O que restara de uma boneca, ao menos: uma cabeça plástica e emborrachada, calva, repleta de cicatrizes feitas a caneta vermelha. Sorria, eterna.
Nos galhos, cordas.
Nas cordas, corpos.
Dúzias.
Seguiu.
A voz o chamava. Uma garota. O que ela dizia?
Três letras, uma lembrança.
Pai?
Tropeçou, outra vez, caiu e rolou por alguns metros. Machucou o tornozelo no processo. A dor era uma agonia, o frio era um agravante. Algo caiu de seus bolsos, o objeto metálico de seu cinto estacou sobre algumas folhas. Dos bolsos, munições, três delas. Da cinta, uma revólver.
Pegou-o.
Lembrou-se de algumas coisas. Tinha pouco dinheiro, muito menor era sua vontade. Comprou aquela arma ilegalmente, o primeiro crime de sua vida. Tinha de ser uma solução, ou seria outro problema, e problemas não mais lhe cabiam. Estava prestes a explodir. Que o fizesse direito, então. O divórcio era o caos. A mulher que tanto amou, a quem tanto dedicou sua vida, não mais o desejava. Tinha outro, outro alguém, outra vida. Ele tinha problemas. Não estava numa boa fase. Não estava em bons momentos. Acharam melhor que ela ficasse com sua filha, com sua casa, com seu dinheiro. Deixaram-no sem nada. Perdera o emprego, afastou-se dos amigos. Não mais sorria. Tinha pouco dinheiro, mas tinha uma arma.
Ela era a solução.
Lembrou-se. O silêncio lhe dizia o que fazer.
O silêncio era um tormento.
Precisava acabar com ele.
Pegou a arma, municiou, três cartuchos. Atirou para o alto, um estopim, um estrondo. Riu, sozinho. Algo a se escutar, enfim. Depois, silêncio, angústia. Agonizava. Preparou um novo disparo, mirou uma árvore qualquer, atirou. Som, agudo, perverso. Então, silêncio. Carregou, uma terceira vez, sua última. Teria som, então nada. Era sua última chance. Precisava de coragem, de valentia, mais do que sempre tivera na vida.
Encostou o cano da arma nos lábios. Era gélido.
Silêncio, maldito.
Precisava de som, de algo para escutar.
Ao longe, uma criança chamava por seu pai. Era só um fantasma, uma memória. Não existia.
Existia o silêncio, um inferno calado.
Disparou.
Estrondo, uma última vez. A solução de todos os seus problemas, o desfecho para todos os seus medos. A linha de chegada, ou de partida. O fim do conto, da história, do romance. O fim de tudo.
Ele já não estava lá, mas quando os ecos se extinguiram, o silêncio retornou.

Em Aokigahara, era eterno.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Conto - A Filha do Rei

A Filha do Rei

Debaixo do elmo, os olhos tragavam lembranças charmosas.
Não eram de todo boas, porém. Tinham seu charme, seu perfume atraente, mas também a inescrupulosa trilha das algemas que prendem alguém a um destino indesejado. Assim, enquanto os olhos cintilavam junto de memórias conturbadas, Rowena pouco respirava.
Ela era a filha do rei.
Dietrich III governava aquela terra há tempos, mas nada em seu reinado fora motivo de tanto orgulho quanto o nascimento de sua filha. O nome, cuja releitura seria Lança da Justiça, fora escolhido por sua esposa, a rainha Virna. Abençoado por uma princesa repleta de saúde e por um governo coberto de paz, Dietrich poderia esperar apenas que os anos se passassem e que, na medida do possível, Rowena se espalhasse na beleza da mãe, para que, futuramente, fosse a rainha mais bela que o mundo já vira.
A garota, no entanto, tinha planos distintos.
Criada no auxílio de uma governanta, cuja lealdade já fora posta em prova diversas vezes, Rowena se adaptou aos costumes e às tradições do castelo. Nos braços da sabedoria de Zelinda, sua segunda mãe, a princesa aprendeu a se vestir, a ter bons modos, a falar em público e a comer adequadamente: isso tudo antes dos sete anos. Em seu décimo primeiro inverno, quando indagada sobre um possível presente de aniversário, Rowena não apresentou dúvida alguma na escolha.
—Quero uma espada —disse ela a Zelinda, que se surpreendeu.
—Espadas não se curvam a princesas, milady —a velha amiga murmurou, cuidando para que os nobres não a escutassem. —Tu deves se postar sobre o cetro, arrastar a cauda bordeada de um manto e sapatear em delicados saltos brilhantes.
Mas Rowena queria uma espada, e nada tirava de sua mente um desejo. Demorou algum tempo até que Zelinda conseguisse tal presente. Tivera de roubar de um cavaleiro distraído, e tal soldado quase perde seu posto por uma aventura incerta. A espada curta e polida era pesada para as mãos da princesa, e as encheria de calos, não fossem as ataduras preparadas previamente pela governanta. A garota tentou manusear a arma branca por algum tempo, escondida dos pais e do mundo, mas foi um inverno mais tarde que se dirigiu novamente a Zelinda:
—Ensina-me a lutar —disse a princesa.
—Mas nada sei sobre o combate!
—Vive há anos em meio a cavaleiros, Zelinda! Acha mesmo que acreditarei em tal feito?
Rowena era esperta, mas Zelinda não mentia. Não sabia lutar. Sabia das regras, no entanto. Sabia ensinar, ao menos a teoria, e assim o fez. Entre as aulas de porte e de caminhar, contava sobre os movimentos de lâminas e suas estratégias. Entre as lições de etiqueta e de matemática, narrava conflitos épicos resolvidos por táticas de cavaleiros bem treinados. Rowena escutava tudo, atenta. Quando não escutava, vivia no silêncio, e o silêncio zunia em sua espada, num treinamento que não tinha fim.
Questionando o pai sobre um possível aprendizado da arte da guerra, encontrava sempre a mesma resposta.
—És uma princesa, não um plebeu esfomeado ou um cavaleiro da guarda! —Dietrich parecia inconformado. —Lâmina alguma há de se aproximar da suavidade de tuas mãos, minha filha. A guerra não alcançará meu povo, e mesmo se o fizer, tu jamais a verás.
A ideia da guerra soava assustadora aos olhos de Rowena, mas ela não se intimidava. As batalhas estavam aí, na espreita de quaisquer que fossem as civilizações. Se o estopim lhe alcançasse, ela gostaria de saber lutar, de poder se defender.
Gostaria de ser uma princesa guerreira.
Por isso, quando teve a oportunidade, fugiu. Deixou para trás seus pais, e também Zelinda, forjou um sequestro planejado. O reino de paz estilhaçou, Dietrich pensava numa sabotagem, uma guerra forjada por ameaças. Preparou seus melhores cavaleiros, cercou as amuradas, lacrou a cidadela que circundava seu castelo, esperando encontrar a herdeira de suas virtudes, em vão.
Meses adiante, sem que perdesse as esperanças, postou-se num altar de mármore e declarou:
—Ao povo de meu reino, uma súplica: encontrem minha filha —eram suas palavras. —Tu que a encontraste, serás declarado o mais nobre dentre meus leais servos, digno da fidelidade eterna do rei que vos fala. Terás o direito de escolher dentre quaisquer recompensas, aquela que mais lhe agraciar será tua. Hei de desfalecer sem minha bela Rowena.
Virna choramingava todos os dias, pois Rowena era tua única prole. Desde a cria da princesa sequestrada, a rainha fora incapaz de procriar novamente. Fora abençoada com uma única semente, e então suas raízes definharam, adoecidas. Perdera a oportunidade de povoar um novo reino; não poderia perder, também, a única herdeira que trouxera ao mundo.
Nas ruas, Rowena aprendeu a arte dos ladrões, dos soldados, dos aventureiros. Escutou histórias, esquivou-se em becos, roubou e foi roubada. Quando atacada, defendeu-se, sua arte da espada era boa. Numa briga de taverna, saiu-se melhor, afugentou oponentes que sequer viram seu rosto. Sempre camuflada por vestimentas pesadas, a princesa viveu uma vida distante de teu conforto, e assim cresceu, por dentro, como a vida forçava crianças a crescer a todo o momento.
Nas andanças, deparara-se com um velho cavaleiro cujo nome era Caron. Em sua calvície de histórias de guerra, o velho a ensinou tudo o que sabia sobre o manejo das lâminas, e também mais. Mostrou a ela o caminho das divindades, das preces, das nuvens. Fez dela uma paladina, trajada no metal mais puro, portadora de uma espada encantada, um presente de um general de aventuras indizíveis que, Caron lhe contou, carregava o nome de Dagny.
—Dagny é o Novo Dia —ele falou, fumegando o cachimbo que tinha nas mãos trêmulas. As cicatrizes em seus braços contariam histórias por si só. —E, neste novo dia que nasce, vejo tua liberdade, princesa. Volte para Zelinda, para o rei Dietrich e para a rainha Virna. Volte para teu lar, estrela brilhosa.
—Não hei de voltar às correntes que me prendiam —retrucou Rowena. —Mas, se Dagny é o Novo Dia, será ela a me acompanhar nesta nova vida.
E toda a cidade se reuniu quando um misterioso cavaleiro de armadura alva gritou, a plenos pulmões, ser conhecedor do destino da filha do rei.
Dietrich não demorou a se mostrar, desajeitado, oscilante, velho de preocupação. Ao seu lado, Virna, tomada por olheiras e por temores. Zelinda os seguia, bem como tantos guardas quanto os dedos de dez mãos seriam capazes de contar.
O homem de elmo ajoelhou-se diante do rei.
—Erga-se, servo leal —disse Dietrich. —Rumores me alcançaram em sua voz. Diz saber sobre minha filha.
—E o sei —confirmou, forçando a voz.
—Então diga-me, onde está Rowena?
O silêncio perdurou, fez com que soldados transpirassem sob o metal de suas proteções. Escudos tremularam quando o cavaleiro alvo se ergueu, imponente. Havia ao seu redor uma aura que poucos guerreiros seriam capazes de afrontar.
—Antes, o importante: a recompensa. Entregando-a, terei direito a qualquer que seja minha vontade?
—É este meu trato —o rei disparou, ansioso. —Se sabes sobre minha filha, diga logo! Terás todo o ouro que desejar, ou mesmo o posto mais alto dentre as funções que me cercam! O que estiver ao meu alcance será teu, paladino.
—Pois bem —o cavaleiro suspirou, postando as mãos ao redor do elmo. Seus olhos rutilavam junto do sol. —Sabe o que mais desejo, rei?
O elmo foi retirado.
—Liberdade —Rowena falou, mostrando seu rosto, sua virtude e sua vontade.
O rei Dietrich choramingou, bem como Virna e Zelinda. Nos olhos da governanta, orgulho, disfarçado como repreensão, certamente. No meio do povo, um sorriso torto nasceu, antes de Caron aplaudir e, junto dele, todo o povo daquele reino.
Naquele dia, naquele novo dia, morria uma princesa, mas nascia uma general de guerra. Ambas carregavam, na honra que somente tal herança mística pode levar a um homem, a mesma ufania e o mesmo título.

A Filha do Rei.