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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Fic Harry Potter - Entre o Mundo e o Medo - Cap 2

II
Rajada e Lampejo


Despertei naquela manhã com uma carta sobre as cobertas.
Era um convite. Tudo bem, não um convite propriamente dito, mas sim uma intimação, talvez. Dizia assim:
O topo da Torre do Relógio, do quinto andar, é um excelente lugar para se ver o tempo passar. Às vezes, tudo é tão parado e vazio que, por nós mesmos, temos de mover os ponteiros. O quê acha de uma visita quando o sol terminar de ceder?
Seria interessante vir acompanhada de Chifre de Bicórnio e Raiz de Mandrágora.
Chad Dominic
Eu corei ao terminar de ler, mas não sabia quais eram suas intenções. Seria um encontro? Mas é claro que não! Eu tinha de ser muito ingênua para imaginar algo do tipo mas, por ora, era a melhor hipótese a que conseguia chegar.
Após uma rotina de aulas que eu conhecia perfeitamente, fiz meu relato diário ao senhor Bremmer, e ele me pareceu satisfeito com as novas informações. Preparei meu conteúdo para a atividade de poções do dia seguinte e, enquanto organizava a Raiz de Asfódelo junto com algumas Urtigas Secas. Aproveitei-me para guardar um pouco da Raiz de Mandrágora nos bolsos, mas seria incapaz de encontrar Chifre de Bicórnio.
Fui surpreendida pelo toque pesado de duas mãos sobre meus ombros.
—Como vai a senhorita?
Virei-me assustada, apenas para deparar-me com a imagem tênue de Haley Shunpike. Ele era um homem alto e frio, de pele morena e cicatrizes no rosto e nos braços, marcas da guerra que enfrentara durante sua vida. Vestia-se em robes elegantes, trajando por sobre o lado esquerdo do corpo peças leves de uma armadura de aço, ou talvez fosse apenas um adorno de alumínio.
—Você me assustou, Haley! —falei, respirando aliviada.
—Esperava por alguém?
—Não, não, de maneira alguma! E justamente por ninguém esperar é que me espantei com sua presença, se quer saber. Como está?
—Bem, em termos —foi a sua resposta, e eu teria de me contentar com ela. Haley não estava bem. Nunca mais estaria. —E Chad?
—Vou encontrá-lo hoje. A busca continua, sabe como é. Ainda acho meio cedo para indicar algo. Talvez as suspeitas sejam tolices, não é de todo mal esperar por isso.
Ele pensou, coçando o queixo onde havia barba por fazer.
—Eu realmente gostaria que você estivesse certa.
E então se foi, deixando-me sozinha com os ingredientes das poções, levando dali aquela aura pesada de quem sofreu mais do que um coração sozinho pode suportar.
Já anoitecia quando eu chegava ao quinto andar, um pouco ofegante pelas escadarias que me retardaram o movimento. Havia pouca gente naquela área, e o horário era peculiar para um chamado. Tinha nos bolsos a Raiz de Mandrágora que me fora pedida, sem ao menos saber qual seria sua utilidade.
Encontrei-me com as engrenagens dos relógios e a maquinaria pesada que os mantinha funcionando, e as badaladas dos sinos indicaram a chegada das dezoito horas. Aguardei até que os estrondos terminassem para entrar no topo da torre, e ali estava ele, Chad, uma silhueta nas sombras, pois luz alguma existia naquele local. Ele tinha o corpo apoiado nos joelhos, e algo à sua frente fumegava, o que —com uma inspeção cuidadosa —constatei ser uma caldeirão de cobre.
—Boa noite, senhorita Lane —ele sorriu, voltando seu rosto para mim por um só instante. —Trouxe o que lhe pedi?
—Somente as Raízes de Mandrágora —respondi, pouco incomodada com a situação. —Não fui capaz de encontrar o Chifre de Bicórnio.
—Eu trouxe alguns reservas. Imaginei que isso aconteceria.
Ele estendeu a mão para mim, recolhendo as raízes e as atirando junto do restante dos ingredientes, mexendo a mistura do caldeirão com uma colher de metal.
—Chifre de Bicórnio, Raiz de Mandrágora e um caldeirão de bronze —ele falou em voz alta, parte para o ar, parte para mim. —Acredito que, como uma aluna de sétimo ano, você conheça os resultados dessa mistura, estou certo?
E eu conhecia, realmente, mas só agora me dava conta da junção dos ingredientes pedidos por ele.
—Uma poção estimulante —respondi, —de certo. Um energético para bruxos, se bem me lembro. Por que está preparando algo assim?
Ele deu de ombros enquanto despejava a poção num recipiente de vidro. A mistura adquiriu uma coloração de verde brilhosa, bem próxima do xênon.
—Requisitei sua presença para que me fosse possível vencer —ele contou, já em pé, escondendo o caldeirão atrás de alguns apetrechos mecânicos. —Gosto de público, Lane. Gosto de aplausos.
Antes que eu entendesse suas palavras, a porta da torre se abriu outra vez, e por ela passaram três pessoas. Um deles era conhecido, tão famoso quanto Chad na escola: Malcolm Roderick, o Grifinória mais famoso dos anos atuais, um aluno de sexto ano responsável pela vitória da Taça das Casas por três anos consecutivos. Ele era exemplar, um bruxo exímio, ainda que seus feitos não alcançassem o renome adquirido por Chad. Ao seu lado, duas bruxas cujo nome eu não me recordava o acompanhavam, ambas alunas de quinto ano.
—É ele, Malcolm! —apontou uma delas. —Ele é o garoto que tem falado mal de você!
—Um sonserino, obviamente —riu Malcolm. —Chad Dominic, o famoso responsável por tantas façanhas de nossa escola. Precisa mesmo de uma aluna de sétimo ano para nos enfrentar?
Eu me encolhi no lugar. Não estava ali para participar daquilo tudo.
—É certo que não, meu caro —Chad provocou, tirando a varinha para fora das vestes. —Na verdade, pouco preciso para derrubar um trio de perdedores.
—Não me lembro de ver seu rosto estampado na Taça das Casas, vencedor.
—E nunca o verá. Não é com essa vitória que me importo.
Malcolm se enraiveceu. Ele tirou das vestes uma varinha de salgueiro com corda de coração de dragão, medindo cerca de vinte e nove centímetros, apontando-a para os olhos de Chad.
—É um duelo o que você quer, serpente?
Chad sorriu.
—Eu não honro as serpentes, pequenino —zombou, com ironia ácida em cada palavra. —Honro aos morcegos, os sorrateiros filhos das sombras. Serpentes não podem voar.
E o sino badalou novamente, dessa vez pelo estrondo de uma rajada avermelhada.
As duas garotas da Grifinória se afastaram, e eu também me afastei, deixando-os em linha, nas normas rígidas dos duelos bruxos. Uma das garotas, cujos cabelos eram trançados e castanhos, encantou a porta da torre, trancando-a magicamente. Não era um encantamento simples, e poucos alunos abaixo do sétimo ano seriam capazes de quebrá-lo. Achei, de certo modo, uma boa escolha.
Chad e Malcolm se postaram frente a frente, as varinhas em frente ao rosto, e então se curvaram em cumprimento, baixando as armas mágicas na altura da cintura. Malcolm parecia nervoso, mas Chad tinha apenas um sorriso malicioso no rosto. Eles se viraram, caminharam cinco passos para que se afastassem, aguardaram-se os três segundos impostos pelas regras.
Depulso! —exclamou Malcolm, e sua varinha jorrou vento, empurrando Chad para trás num impulso súbito, deixando-o se chocar contra uma das paredes da torre. Sem esperar que ele se recobrasse, o Grifinória continuou sua série de ataques: —Estupefaça!
Impedimenta! —O feitiço de Malcolm pairou ao longe, enquanto ele escorregou no lugar, arrastado por uma força maior. —Lacarnum Inflammare! —E houve fogo, fogo intenso e real, chamas que incendiaram o local onde há pouco estava Malcolm, que se esquivou mais por sorte do que por habilidade, os olhos surpresos ao se deparar com o nível da mágica de Chad. Aproveitando-se da distração, o Sonserina deslizou sua varinha. —Avis!
Surgiram pássaros. Pássaros miúdos, brancos e azulados, jorrando da varinha de Chad como uma torrente de asas e bicos e penas, e eles se aninharam no corpo de Malcolm, bicaram e o atacaram, e o Grifinória se defendiam como podia e, na confusão, sequer escutou quando um novo feitiço foi lançado.
Avifors!
Um sino se fez pássaros, e a nuvem de aves cobreadas pairou sobre Malcolm, oscilante.
Immobilus! —gritou Malcolm, e todas as aves ao seu redor congelaram de imediato, voejando como se decorações amarradas ao teto.
Finite Incantatem! —era Chad, cancelando seu próprio feitiço, o que fez com que o sino transformado em aves voltasse a seu tamanho original, quedando sobre Malcolm com um estrondo que ecoou por longos segundos, aprisionando-o atrás de seus muros metálicos. —Este é o lugar para os adversários incapazes de me enfrentar, Grifinória!
A voz de Malcolm soou grave, abafada pelo baque metálico daquilo que o circundava:
Diffindo! —O sino se rasgou ao meio, e ambas as partes estrondaram contra o solo, distraindo Chad por um só instante, momento que Malcolm não desperdiçou: —Talvez não seja o meu lugar, então. Everte Statum!
Carpe Retractum!
Chad girou no ar, mas a corda luminosa que conjurara fez com que Malcolm girasse junto dele, e ambos quedaram numa parede distante, bem próximos. Enquanto se levantaram, percebi que Malcolm tinha um dos braços quebrados.
Eu queria interferir. Poderia pará-los, poderia evitar que as coisas piorassem, mas algo me impedia. Eu os olhava com receio, temendo pelo pior, mas assistia-os com impressionismo nos olhos, como se aquele duelo não fosse algo a ser perdido. Queria ver os resultados, precisava ver. Cada vez mais, mais e mais a cada instante, eu admirava o garoto de nome Chad Dominic, e ele era maior, mais poderoso e mais incrível graças a isso.
Alarte Ascendare!
Eu não soube dizer de quem era a voz dona do feitiço, mas vi o corpo de Malcolm subir para o teto e tombar, sem interrupções, contra o solo rígido da torre do relógio. Ele murmurou algo, mas sua voz era fraca graças à dor, o braço ferido piorando pelo impacto. Chad não se abalou.
Bombarda!
O Grifinória atacou ainda do solo, fazendo explodir uma parede próxima a Chad, um feitiço errôneo. Ele tentou mais uma vez, mas um Protego fez com que sua mágica defletida o atacasse, jogando seu corpo para trás numa pequena explosão, deixando-o inerte no solo, os olhos fechados, a respiração pesada demais. Chad pisou em sua mão, empurrando a varinha de salgueiro para longe, e se agachou ao seu lado.
—Eu gosto de quem luta até o final —disse ele. —Gosto de quem enfrenta sem ter medo, mesmo quando sabe que não pode vencer. Essas são as melhores vitórias, se quer saber.
Ele apontou a sua varinha para o rosto de Malcolm. Involuntariamente, minhas mãos alcançaram a minha varinha, mas eu não teria tempo de impedir os seus planos. As garotas ao meu lado gritaram.
Episkey —disse ele, e o braço de Malcolm voltou ao lugar, os ossos se reconstruindo e retomando suas posições originais. —Não me entenda mal, Grifinória. Eu gosto de vitórias, mas acima de tudo, gosto de boatos. Sei que vocês farão valer a pena esse duelo.
Malcolm se levantou, pegou sua varinha e, de maneira humilhante, se retirou, seguido de perto por suas duas companheiras.
Chad girou a varinha acima de sua cabeça.
Reparo! —exclamou, e todos os danos ocorridos na torre do relógio foram reparados.
Eu estava boquiaberta, impressionada demais, mesmo que com a varinha em mãos.
Chad se virou para mim, sorridente.
—Parece que eu venci —falou, acenando.
Eu não soube o que pensar, muito menos o que dizer, portanto fiquei em silêncio, assistindo-o enquanto ele recolhia seus pertences e caminhava em minha direção.
—Obrigado pela presença, senhorita Lane —disse ele, com aquele mesmo sorriso cativante de costume. —Eu queria fazer algo para lhe agradecer, mas não me acho digno para isso. —Então, bem próximo ao meu ouvido, sussurrou: —Quem sabe um dia, não é?
E partiu, deixando-me  sozinha com as melódicas batidas dos relógios.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Fic Harry Potter - Entre o Mundo e o Medo - Cap 1


I
Os Fantasmas se Divertem

Hogwarts era uma escola frequentada por alunos dos 11 aos 17 anos, cursando 7 anos de aprendizado que fornecem aos bruxos tudo aquilo o que eles necessitam para viver, desde o Estudo dos Trouxas, os não-bruxos, até os Feitiços propriamente ditos, passando pela Transfiguração, o Trato das Criaturas Mágicas, a coleta de ingredientes na Herbologia e o preparo de Poções.
Eu conhecia bem aquele lugar. Não fora ali a minha escola, mas eu a estudei por livros e reportagens, por documentários e trabalhos de campo. Eu estudei o local onde deveria trabalhar, pois somente assim estaria familiarizada à infinidade de salas e escadarias, mantendo assim um disfarce perfeito.
Pensava nisso durante uma aula de Defesa Contra as Artes das Trevas, ministrada pelo senhor Bremmer, um velho de bigodes curvilíneos cujo sotaque francês era carregado o suficiente para tirar a calmaria de quaisquer alunos.
Ele explicava algo que eu já aprendera anteriormente quando eu abri o espelho circular que tinha em mãos, encontrando no reflexo um olho que não era meu.
Atrás daquela íris cor-de-mel, pude ver as paredes do Ministério da Magia.
—Como andam as coisas?
O responsável por minha caçada, o antiguíssimo senhor Fiennes, falava através daquele artefato mundano, mas somente eu podia escutá-lo, bem como somente ele poderia escutar a minha voz. As facilidades da magia eram perfeitas, ainda melhores do que a tecnologia dos trouxas, e cresciam em proporções similares, permitindo-nos estar sempre um passo a frente dos não-bruxos.
—Bem, em termos —sussurrei. Para os demais, ainda estava riscando meu caderno, aprendendo mais e mais sobre algo que já vira anos atrás. —Ele ainda me parece um aluno qualquer. Não encontrei nada do que as suspeitas indicavam.
—Ele não é um aluno qualquer, Lane, pode ter certeza disso —rebateu Bremmer, tão rígido quanto um homem de sua idade conseguiria ser. —Não deixe que as aparências te enganem, ok? Você é uma das melhores que eu tenho por perto. Não se perca, e acima de tudo, não o perca. Pode ser nossa única chance.
—Sim, senhor.
Desde a queda de Lord Voldemort —miseravelmente conhecido como Aquele-que-não-deve-ser-nomeado, o clima do mundo mágico mudou sensivelmente. Tudo era motivo de receio, tudo era perigoso e estranho. Qualquer feiticeiro de maior talento poderia almejar o posto abandonado por Tom Riddle, o que o Ministério tentava impedir de qualquer modo. Comensais ainda estava nas ruas, vagando como cães sem dono; nenhum deles desejava liderar. Eles caçam nas sombras, buscando um único nome, um único bruxo que postaria sua varinha em riste, fazendo um nome negro ecoar outra vez perante as nuvens, para que a caveira e a serpente pudessem representar outra vez a linhagem mais pura da feitiçaria, fazendo dos mestiços e dos fracos de sangue escravos, lugar este que eles jamais deveriam ter deixado para trás.
Sem um líder, eles não eram nada além de arruaceiros dispersos, desorganizados e malévolos, mas tolos. Nosso objetivo era caçá-los, mandá-los para Azkaban, fazê-los se arrepender de todas as suas maldades diante da sombria aura dos dementadores.
Quando digo nosso objetivo, me refiro aos outros como eu, os servos do Ministério, a milícia do mundo bruxo.
Os aurores.
—Haley estará aí, em breve —continuou meu superior, e eu assenti, indicando entendimento. —Conte com ele para suas observações.
Haley Shunpike era um auror, como eu, porém sua experiência era terrivelmente maior. Ele tinha sérios problemas de personalidade, mas era um bom homem, sempre disposto a oferecer ajuda e se sacrificar pelo bem maior, o que o mantinha assim, sozinho, como um bruxo desolado em sua missão de paz. Anos antes, Haley teve de escolher entre sua vida pessoal, sua amada e sua caçada, e a solidão ensandecida que o assola nos dias de hoje é o resultado de tal escolha.
—É mesmo necessário?
Não gostava de parecer a rebelde, mas eu estava observando um aluno de quinto ano, nada além disso. O que ele poderia fazer, virar Hogwarts de cabeça para baixo e conjurar dragões para atacar a todos?
—Não podemos arriscar, Lane. Espero que entenda.
Fiz que sim, ainda confusa.
—Nos falamos novamente mais tarde —ele concluiu, e o espelho novamente revelou a minha imagem, os olhos claros, a madeixa dourada me caindo à testa.
Ao término da aula, eu deixei a sala acompanhada de Mirela, uma ruiva inteligente e valente, valente a ponto de afrontar o preconceito dos sonserinos para com a sua família mestiça. Ela era uma boa amiga, sempre discutindo coisas interessantes do mundo bruxa e trouxa, assuntos que o pai dela, um homem que muito se surpreendeu ao descobrir a magia dentro de sua própria casa, comentava durante suas raras folgas do trabalho. Sua inteligência às vezes me deixava com certo receio: um passo em falso e ela poderia descobrir meu disfarce, e então tudo estaria em ruínas.
Alguns degraus abaixo, enquanto eu escutava sobre a dissimilação do novo Ministro diante da sociedade mágica contemporânea, me deparei com Chad. Ele admirava os quadros do quarto andar, carregando diversos livros, possivelmente retirados da biblioteca daquele mesmo nível. Despedi-me de Mirela com um aceno e saltei os últimos degraus, desviando meu percurso para atravessar o corredor onde ele se encontrava.
O plano era me emparelhar a Chad por alguns instantes, antes de me esgueirar pela porta da biblioteca, mas tudo deu errado quando eu ouvi a sua voz:
—Olha, se não é a senhorita Lane, apaixonada por quedas de vários metros.
Sua ironia me fez corar, mas eu era uma veterana, e tinha de agir como tal.
Ri com certo sarcasmo, virando-me sem a necessidade de apresentar a educação costumeira.
—Pois é, é ela mesma —ironizei, fugindo da brincadeira. —Como vai, Dominic?
Ele se fingiu de surpreso, zombando da formalidade que optei por usar.
—Melhor agora ao encontrar uma professora de normas cultas —e riu, aquele sorriso curvo e bonito. Me senti ruborizar mais e mais, disfarcei. —Está indo para a biblioteca?
—Não, na verdade é, bom, é que eu, sim, sim, estou.
Parecia uma novata abobalhada na sua presença.
Ele ria com gosto do meu modo de agir.
—Timidez é uma coisa bastante rara nos dias de hoje —começou, o timbre soando com a superioridade que inexistia. Eu era a mais velha ali. Eu deveria saber como ser superior. —Receio, esse sim existe. Receio de se meter com aqueles que não merecem nossa atenção. Eu espero que não seja esse o seu caso, senhorita Lane.
—Ah, imagina. Eu por um acaso deveria ter medo de você?
Chad deu de ombros.
—Alguns têm. A escolha é sua.
—Relaxa —falei, acenando despreocupada. —Eu sei me cuidar bem.
—Acredito que sim. Aliás, acredito também que vai saber cuidar bem de algo que tenho para lhe oferecer. —Ele caçou em suas vestes um pequeno objeto prateado, uma espécie de pingente circular com runas que, unidas, formavam a figura de um pequeno morcego de asas abertas. Estendeu o braço em minha direção, deixando o pingente escorrer por entre seus dedos. —Vamos, pegue.
—O que é isso?
—Um presente.
—Presente?
Estranhei.
—Sim. Um presente. Não posso presentear uma amiga de casa?
Aquilo era prata de verdade. Chegava a pesar em minha mão.
Como sempre, sonserinos mimados por pais ricos. Certas coisas nunca mudariam.
—Pode, claro. Só não pense que vai me conquistar com isso. Eu valho mais do que uma corrente de prata.
—Tenho certeza disso. —Ele sorriu outra vez, e então pôs-se a andar, deixando me para trás, perto dos quadros. —Espero que nos encontremos mais vezes assim, Lane. Sua companhia é sempre interessante. Quem sabe um dia você não me ensina algumas coisas do sétimo ano, não é?
Eu queria responder, queria mesmo, mas a minha voz parecia ter sido roubada por fantasmas, e eu só fiquei ali, inerte, assistindo enquanto ele desaparecia nas escadarias.
Foi quando ouvi alguém gargalhar.
—As garotas da Sonserina também têm coração, acreditam?
—Não, sério? Pensei que elas fossem tão geladas quanto as estátuas dos corredores!
—Imagina, elas adoram corações! No almoço!
Risos e mais risos, e mesmo antes de olhar eu já sabia quem eram os donos daquelas vozes.
Anos antes, houve em Hogwarts um poltergeist conhecido como Pirraça. Como todo bom poltergeist, Pirraça era mestre na desordem e no caos, um espectro caótico e insano, diferente dos mundanos fantasmas das casas. Quando a escola foi reconstruída, no entanto, Pirraça não estava mais lá. Alguns dos fantasmas antigos mantiveram-se presentes, mas vários outros desapareceram, partindo para um lugar melhor, e novos tomaram seus lugares.
Pirraça cedeu seu posto a três poltergeist, todos iguais, senão piores do que ele próprio.
Seus nomes eram Birra, Desfeita e Teimoso, e eles habitavam um mesmo corpo, o corpo de um garoto de baixa estatura, cujo pescoço se dividia em três cabeças miúdas e bizarras, cada qual com suas peculiaridades, seja um olho fora do lugar, lábios inchados ou narinas avantajadas.
—Engraçadinhos vocês, não? —bufei, e me virei para ir embora.
—Olhem para ela, que coisa mais meiga, apaixonada por um garoto mais novo!
—O que você viu nele, pequenina? O sonho de sua vida era trocar fraldas?
—Ou será que você gosta de rebeldes descontrolados?
Eles falavam muito rápido, quase ao mesmo tempo, e eu nunca sabia apontar qual dos três era responsável pelas frases que escutava.
—Fiquem com suas teorias, eu tenho mais o que fazer —disse quando já estava no primeiro degrau da escada que me levaria aos andares inferiores da academia.
—Talvez sejam mais do que simples teorias.
—Está escrito nos seus olhos, garotinha.
—Você gosta do estranhinho que faz coisas feias!
Eu estava de sangue quente, ainda que um pouco corada, mas aquela última frase me chamou a atenção. Parei no lugar, voltando meus olhos para o monstrinho de três cabeças que me zombava e, ignorando todas as suas provocações, falei:
—Coisas erradas?
—Ó, ela não sabe!
—E não seremos nós a contar.
—Não mesmo, nunca contaríamos.
Os três cobriram as bocas com suas mãos translúcidas.
—Do que vocês sabem, insolentes? —brami, em certo tom de hostilidade, tentando fazer soar como uma ordem de alguém superior, mas talvez não tenha funcionado como desejado. Eles se uniram numa ciranda de somente dois braços e giraram, giraram sem parar, enquanto cantarolavam.
Ela está apaixonada por um menininho
Tá gostando, tá gamada naquele estranhinho
Ela é uma Sonserina cheia de peçonha
Quero vê-la declarar-se toda sem vergonha
E eles cantaram e dançaram por mais um tempo, e então desapareceram, deixando-me para trás com os olhos incrédulos e os lábios semiabertos.
Fiquei curiosa para saber sobre o que aqueles idiotas falavam mas, acima de tudo, fiquei receosa de que suas preocupações tivessem algum fundamento válido.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Fic Harry Potter - Entre o Mundo e o Medo - Prólogo

Dias atrás, fui a um encontro de um grupo de fãs de Harry Potter, o Potter Vale, organizado aqui mesmo na minha cidade. Reavivar o gosto pela série foi uma experiência muito boa, ao mesmo tempo em que conhecer outras pessoas que também admiravam a franquia da nossa querida J.K. Rowling me fez sentir falta do tempo das fanfics, quando eu ainda utilizava o Nyah para postar histórias. Desde algum tempo atrás, mais precisamente com o surgimento dos primeiros trailers e imagens de Auror's Tale, a web série feita por fãs no cenário de Harry Potter, com uma abordagem mais adulta e uma premissa bastante interessante, comecei a elaborar uma história em minha mente, algo que, num primeiro plano, deveria se tornar um RPG de mesa, mas enfim, acabou que não rendeu nada e ela ficou por ali, em hiato. Após o Potter Vale, as ideias voltaram a fluir, e então surgiu Entre o Mundo e o Medo, uma história que não será muito curta, mas é completamente original, ambientada alguns anos após a queda de Voldemort, quando Hogwarts já estava restabelecida e os bruxos da Inglaterra tinham de volta sua academia de magia.
Sem mais demoras, confiram o prólogo dessa história. Espero que gostem!


Prólogo
Ao Cair Feito Pluma

Tudo começou com uma queda.
Eu o observava, tenho de admitir. Segui-lo durante tanto tempo me fez conhecer cada um de seus hábitos, admirar seus feitos, me impressionar com suas façanhas, e assim eu o conheci, mais do que me foi dito, mais do que os demais aluno conseguiam enxergar. Como sua veterana, ainda que recém-transferida, eu o olhava como superior, mas ele era incrivelmente talentoso. Mesmo no quinto ano de Hogwarts, aquele garoto demonstrava um exímio domínio na magia e suas propriedades, bailando com os braços livres, a varinha em riste, 31cm de mogno com pena de fênix.
Muitos o invejavam.
Ele invejava a todos.
Escorada na amurada de um andar superior, eu mantinha os olhos fixos em seus movimentos. Ambos éramos da Sonserina, representando o grotesco legado de Salazar, vestidos no verde e prata costumeiros. Os anos se passaram, mas o tradicionalismo da Escola de Magia e Bruxaria da Inglaterra se manteve, e ali estava ele, treinando para uma nova apresentação do clube de duelos, preparado para afrontar os mais incrédulos Grifinória, derrubando-os um a um, como sempre fazia.
Agora, no entanto, ele era um dançarino numa melodia silenciosa. Aperfeiçoava seus movimentos, rodopiando a varinha entre os dedos pálidos para encantar as árvores do campo aberto, fazendo com que as folhas voejassem, soprando-as numa brisa involuntária, desenhando no solo terroso imagens de sua mente perturbada.
Chad Dominic era um nome conhecido para a época. Um garoto renomado, de aparência agradável e cinzenta, esquecido não fosse suas chamativas performances em sala de aula. Tinha seus cabelos trançados, fios próximos dos ombros, castanhos e alinhados em simetria. Os olhos eram escuros, tão escuros quanto a noite, mas nada foscos; carregavam um brilho sem igual, uma centelha de vontade e temperança.
No quinto ano, Chad já vencera alunos de sexto e sétimo ano em seus duelos, o que deixava-o confiante a ponto de não baixar os olhos quando afrontava a desaprovação na mente de cada um de seus veteranos.
Isso me incluía, obviamente.
Eu era intangível entre os demais. Lane Maxwell era um nome que chegava a escapar soprado na chamada dos professores, tamanha a inexistência que me cercava, e eu achava isso ótimo. Ali, nas sombras dos mais populares, sentia-me em meu lugar, fazendo o que tinha de ser feito da maneira que tinha de ser feito, nada mais.
Ali, apoiada nas lacunas da amurada do terceiro andar, assistia a Chad em sua prática, e ele me encantava.
Não soube explicar o que sentia. Talvez não fosse nada. Talvez eu sentisse pena, isso. Piedade. A mesma piedade que muitos sentiam ao conhecer parte da triste história carregada por aquele garoto. Não, não era isso. Admiração, talvez. Ele tinha seus quinze anos e era muito melhor do que grande parte dos maioritários parecia ser. Respeito? Impossível. Ele era mais novo, e eu só lhe devia educação. Então o quê era?
Reducto!
Quando os arbustos mais próximos implodiram diante de seu feitiço, eu me desequilibrei. Até então, tinha o disfarce perfeito, a posição perfeita, seguia-o sem ser notada. Agora, desajeitada como sempre fui, fazia de meu segredo um livro aberto, mostrava-me ali, gritante, numa queda de infindáveis metros repentina a ponto de impedir que eu brandisse a varinha de salgueiro em minha cinta.
Aresto Momentum!
Eu pairei.
A queda veloz foi retardada até o belo ato de planar e, como um pássaro de asas entreabertas, cedi ao vento meu peso, e ele me carregou, sem pressa, até o gramado estofado dos jardins. Eu quase adormeci, tamanha a serenidade daquele instante; postei-me em pé rapidamente, e ele já estava ali, à minha frente, os olhos abertos pela surpresa, os lábios como cela, aprisionando um sorriso de cinismo sem igual.
—Você está bem? —ele me perguntou, sua voz soando como um canto.
Engoli em seco.
Aquele diálogo não deveria acontecer, não mesmo!
—Estou, estou sim! Obrigada! Eu me desconcentrei, acabei caindo.
—Tome mais cuidado da próxima vez, erm —
—Lane! —exclamei, ainda afobada. —Lane Maxwell, do sétimo ano.
—Sétimo ano?
Ele parecia surpreso.
Como boa aluna do último ano de Hogwarts, o mínimo que eu deveria saber era como me salvar de uma queda iminente como aquela.
—Sim, sétimo. Somos da mesma casa.
Ele me olhou de cima a baixo, estudando cada detalhe das vestes de cores idênticas às dele.
—Imaginei. É um prazer, Lane. Meu nome é Chad Dominic, mas talvez você já saiba disso. Os boatos correm livremente pelos corredores, não acha?
—Que boatos?
Ele riu em ironia, e então me deu as costas.
—Se me dá licença, Lane, eu tenho de retornar aos meus alojamentos. —Suas palavras eram sempre carregadas de formalidade e compostura, uma raridade sem tamanho na atualidade. —Espero que nos encontremos outras vezes.
—Ah, sim, claro, isso certamente vai acontecer! Não, me desculpa, não foi isso o quê eu quis dizer, mas é que somos da mesma casa, então possivelmente vamos nos cruzar durante o intervalo das aulas, então vamos nos ver, vamos sim, com certeza!
—Até breve.
Eu escutei sua risada uma última vez, e ele então se retirou com um aceno.
Eu fiquei ali por mais um tempo, esperando que o mundo voltasse a girar.
O meu mundo, ao menos.
Quem era aquele garoto?