quarta-feira, 22 de maio de 2013

Só lhe Resta Mudar


"A chuva é uma reflexão.Ela te dá um banho natural, te limpa a alma e a mente, te faz refletir em tudo o que você já fez e, às vezes, você percebe que algumas coisas deveriam ter sido feitas, mas não foram, e pode parecer tarde demais. Então você pensa se é realmente tarde e vê que pode não ser, pode ser cedo. O tempo engana, a vida segue, o mundo gira.A chuva molha.E quando você vê, quando encontra suas respostas, vê que, muitas vezes, vale a pena abrir os braços e deixar a chuva cair."


De certo, quando nos deparamos com altos muros, é a Senhora Vida ousando nos ensinar a saltá-los.
Trágica, porém, é a incerteza. Se muros altos são, pois bem, escalá-los é a única opção; se há portas, que sejam abertas, que janelas se escancarem, que paredes se derrubem. A incerteza, por sua vez, nos aprisiona. É o muro alto ou baixo? Há portas ou janelas? Há receio ou valentia?
Sem a trilha certa a ser seguida, trilha alguma há de se mostrar.
Trágica, porém, é a incerteza. Ela aprisiona, acorrenta. Ela te prende frente ao espelho, ao teu reflexo, teu imperfeito e doentio reflexo, mostra tuas espinhas, teus defeitos, teus problemas e, assim, mostra teus medos. Ali, no espelho, verás teus erros, e eles castigar-te-ão como chagas. Vergastando teu corpo como uma tortura de guerra, teus erros lá estarão, estampados, retornando como espíritos que abandonam suas tumbas, como monstros nascidos dos maiores temores dos homens. Teus erros serão teus, somente teus, e terás de afrontá-los sozinho.
Verás, por vezes, que tudo poderia ser diferente. A vida, as escolhas, os caminhos. Uma palavra, um obrigado, um desviar, uma simples respiração mudaria um dia, um simples dia mudaria o destino. Verás, por vezes, que o mundo poderia ser outro, se outro fosse você, no momento em que não o era. Se quando foi o que foi, outro fosse, nada seria como hoje é. Cada erros custou-te tanto  quanto você não tinha para pagar, mas, no momento de errar, nada lhe foi cobrado. Hoje, a dívida é maior do que tua mente, maior do que tua alma. Trabalho algum poderá pagá-la. Remédio algum fará esquecê-la. Se elas forem, voltarão, logo, para recordá-lo do que fez, do que foi, do que hoje é por isso.
Entenderás, acredito, que o mundo joga contra você, e ninguém vence o mundo. Nascemos como perdedores, como derrotados, fracassados e desleixados. Entenderás tudo isso em teus erros, os erros que o espelho jogará em tua face, os erros que a vida lhe fará degustar.
E então, o que lhe resta?
Mude.
Não se mude, pois quem se altera, se perde. Mude seu mundo. Mude sua vida, seus dias, sua mente. Tudo é maleável, se adapta ao que pensas. Mude tudo, mas não perca nada. Tire tudo do lugar, volte-os quando a paisagem for outra. É tua chance de se reerguer, de se recriar. É tua oportunidade de ser outro você, sem deixar de ser você mesmo. A essência é tua, sempre será, uma essência que prova tua existência, tua vivência, tuas crenças.
Então, oras, mude!
Redesenhe, reformule, reinvente!
Refaça, recrie...
Reaja.
Ressurja das cinzas, como pássaro.
Reerga-se das tumbas, como eterno.
Retrate-se na vitória, como herói.
Assim, quando a incerteza te aprisionar diante do espelho, sorria! Quando o espelho lhe mostrar teus erros, cante acertos! Quando o medo lhe disser pra desistir, reviva! E, quando pensar que tudo foi em vão, feche os olhos, não se renda...
Mude, sem se perder, pra se encontrar.

Conto - Uma História pra Contar


Uma História pra Contar

Ali, sentado, esperava para ouvir uma história, como sempre esperou.
Mas, sabia: naquele dia, como em todos os demais, nenhuma história seria contada. Não havia um contador. Não havia um ancião pra lhe guiar, pra lhe deixar admirado com tamanha sabedoria.
Estava sozinho.
Mirel se sentava numa pedra musgada, tomado pelo frio noturno, pelo banho de estrelas e por um baque de memórias errôneas. Nos vislumbres em sua mente, ele sorria. Não Mirel, pois Mirel não mais tinha motivos para sorrir. Quem sorria era Jotur, O Sóbrio, que de sóbrio pouco tinha. Temido como insano, visto como depravado, afastado de uma sociedade que jamais foi capaz de enxergar além de seus olhos embriagados pela verdade que a mágica lhe mostrara. Ao seu lado, Mirel foi feliz, como um filho seria feliz ao lado de um pai presente, da família que o jovem druida jamais chegou a conhecer.
Agora, estava sozinho.
Sentou-se sob o manto de estrelas e esperou que alguém lhe contasse sobre os cavalos do vento. Ouviria, também, sobre dragões de aço, sobre celestes e abissais, sobre as infindáveis guerras que as regiões mantinham em segredo. Escutaria sorridente sobre as fadas dos Montes Alvos, ou mesmo sobre labradores plumados e felinos uivantes, mas ouvia somente o silêncio. Noite após noite, até então, ouvira a voz de Jotur, O Sóbrio, e aprendera, com ele, tudo o que sabia sobre o mundo além dos limites da floresta que jamais deixara. Agora, restava somente o silêncio. Nada de Jotur, nada de histórias.
No silêncio frígido da noite, ouviu sua própria canção emudecida, e ela cantava sobre a fatalidade.
Ainda na floresta, pois Mirel não tinha história alguma vivenciada por depois das árvores. Aquela era sua casa, seu lar, a morada de suas lembranças, de sua criação entre lobos e macacos e Jotur. Desde seu primeiro recorde, o velho estava lá, de olhos atentos, com o cajado enraizado que privava um moleque inocente dos erros que floresta alguma perdoaria. Crescera na paz da cadeia alimentar, carnívoros atrás da carne dos mais fracos, herbívoros saciando-se com o verde que os circundava, frutívoros se deleitando no sulco da diversidade colorida que ali nascia. Ele, por sua vez, era um aprendiz. A coordenação motora ainda o impedia de acelerar quando ouviu do velho seu primeiro ensinamento:
—Para aqueles que crescem entre árvores, nada há o que buscar além delas —disse O Sóbrio. —Em castelos e casarões, nada lhe ensinarão, garoto. —Fungou em sua pele, pensativo. —Cheiras como mel, e gosto de rimas. Mirel. Serás este teu nome, a partir de então.
As folhas tinham significado, cada árvore tinha um nome. A floresta era muito mais que simplesmente verde jogado às traças. Era um lar muito mais agradável do que muitas das feras acreditavam. Para Mirel, era o único lar, a única escolha. Escalou árvores, aprendeu quais frutos eram comestíveis, quais eram venenosos. Aprendeu o que beber, o que usar como arma. Aprendeu a compreender a linguagem dos homens, mas também a dos animais, principalmente esta. Uivar, miar, latir, rugir, tantas outras formas de comunicar-se que, de acordo com Jotur, muito mais importante o eram. Palavras formulavam filosofias; sons, por sua vez, eram a vida propriamente dita.
Gostava da palavra paz, pois ela o cercava como os córregos. Sentado entre arbustos, dormia, despreocupado com as feras que por ele buscariam se indefeso. A floresta o protegia. Se ameaçado, despertava, buscava as armas, matava pra poder comer, pedindo perdão aos deuses pela vida que tirara. De resto, dormia e sonhava, tomado por tranquilidade, pelo vento da natureza, pela carícia que os homens dos vales de concreto desconheciam.
Todas as noites, Jotur contava uma de suas histórias.
—Os homens são maus —disse ele, alguma vez. —Além de seus interesses, nada existe. Ganância os move, ambição os impregna, o cheiro fétido e carmesim de um sangue que nada vale é como uma névoa híbrida de receio e violência. Dentro de armaduras viscosas e polidas, são heróis; fora delas, moleques chorosos e incrédulos. Armados, das lâminas à pólvora, são cavaleiros, mas portando apenas palavras, são pouco mais que animais falantes.
Mirel aprendia que a humanidade não era exemplar. Os animais matavam pra sobreviver. Homens matavam sem necessidade. Por inveja, por desejos, por pecados. Eram imperfeitos. Mirel também o era, mas redimir-se-ia caso tornasse-se um homem ali, entre os perfeitos seres da selva, e assim o fez.
A contagem dos anos se perdeu, seus cabelos cresceram à altura dos ombros, sua barba, raramente ajeitada, mostrava-o envelhecido. As vestimentas eram naturais, pregas de madeira em tecidos de plantas e véus criados pelo encantamento natural de Jotur, o qual Mirel buscava incessantemente aprender. Acima da cabeça, a pele de um lobo, suas presas lhe cobrindo as tranças como um elmo de pelugem. Cheirava como a floresta e, de acordo com Jotur, era parte dela.
Por vezes, perguntava ao velho o motivo de seu exílio, e a resposta era sempre a mesma:
—Diferente dos demais, sou consciente. Saibas que a diversidade não é respeitada por fronteiras cujo verde não alcança, jovem Mirel. Por trás das amuradas de uma fortaleza, soldados matam por pedaços de carne, assassinam pedintes e bardos de música tola. Eu não era um deles. Um dia, me foi cobrado a integração, a união aos costumes que tanto desprezo. Neste dia, exaltei-me, e o erro me custou a liberdade nas terras que hoje não me fazem falta.
Mirel ensaiava todos os dias, mas nunca criava coragem para perguntar a Jotur sobre seu erro. Sentava-se entre as árvores, pensava, escrevia cenários em sua mente, tudo em vão. No silêncio da floresta, na temperatura amena de sob as árvores densas, restava o calor da dúvida do jovem druida.
Então, chamas.
Parcialmente, o mundo queimava. Mirel despertou com seu lar tomado por inferno. Acelerou, salvou os animais que lhe cabia, protegeu seus pertences, não por materialismo, mas por talvez precisar deles para proteger o que tinha de mais valioso. Procurou por Jotur, seguindo seu cheiro, seus rastros, e a imagem que seus olhos encontraram fez com que seu coração estilhaçasse.
O Sóbrio, tão sábio, tão valente, enforcado numa das mais altas árvores de sua própria morada, incendiando na fogueira dos falsos santos, nas chamas de profetas de pura blasfêmia. Em seus olhos restava pouco do brilho do professor que sempre fora, brilho este que, com um sorriso, se esvaeceu, cintilando pelos ares até encontrar-se à pele de Mirel, marcando-o como uma tatuagem do fogo fátuo que Jotur sempre admirara.
Abaixo do corpo sem vida de seu mestre, demônios.
Homens.
De armaduras e espadas, achavam-se heróis. Mirel sabia da verdade. Compreendia a realidade daquela situação. Em lágrimas, queimando como a chama que agora marcava seu corpo, Mirel matou, pela primeira vez, criaturas que não se tornariam alimentos. Os soldados urravam, sangue esguichando pelos ferimentos que a fera de braços e pernas lhes causava, mas seus dizeres nada valiam. Responsáveis pela morte de Jotur, eram prisioneiros, criminosos, pecadores e, como tal, tinham de encontrar o fim pelo abismo das divindades.
Mirel implorou perdão aos seus deuses naquela noite. Ajoelhando sobre o sangue de seu mestre, desculpou-se por falhar em protegê-lo, como sempre foi protegido. Desculpou-se, também, por sujar suas mãos na imundice dos homens.
Agora, na noite anterior, não havia história para escutar.
O fogo fátuo ainda o marcava, e para sempre marcaria, talvez carregando um significado que ele desconhecia. O sangue de Jotur ainda riscava seus joelhos, as lágrimas marejavam seus olhos de lince.
Diante do silêncio da floresta que nunca deixara, Mirel acreditava escutar a voz de Jotur:
—Sente-se agora, cá estou eu em desavença com os dizeres celestiais! Diferindo do que as constelações me asseguraram, pequeno Mirel, contar-lhe-ei nesta noite outro conto, outro dos tantos que ainda não escutou, para que se previna, ressurja e reaja, quando assim for necessário.
Esperou, mas a história não veio.
Então ajeitou suas coisas. Fez suas preces, pediu perdão e conselhos a seus deuses, incendiou a chama em seu corpo e em seu coração e, incerto de que aquela seria sua melhor opção, deixou a floresta para trás.
Jotur não mais estava ali para contar-lhe história alguma.
Era sua vez de procurar uma história pra contar.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Diário de Escritor - Ousadia

Acabo de concluir uma novela.
Isso não é novidade. Eu sempre trabalho em algum tipo de texto diferente, por vezes contos ou noveletas, e também algumas novelas. Mas 'Dias Tempestivos' foi diferente. Quem acompanha a minha página no facebook, Véu da Esfinge, pôde ver alguns trechos da tal história. Dias Tempestivos não tem a base tradicionalista das minhas proles: ela é algo mais. Por vezes, quando me pegava escrevendo alguns trechos, via muito da minha própria realidade naquela história. Ela não era uma história de fantasia. Não era uma ficção absurda, não tinha magia ou coisas sobrenaturais. Ali, só existia a vida comum e mundana, os erros dos homens, o caos da loucura do dia-a-dia, o medo de uma rotina que se perde.
E daí?
Para alguém que nunca escreve sobre a realidade, esse não é um desafio comum. É uma ousadia sem igual, arrisco dizer. Eu me senti fora de casa, como um time de futebol que joga no estádio do adversário (o que, certamente, foi um péssimo exemplo, mas enfim). Quando você sai da zona de conforto, deixa pra trás tudo o que sabe e o que cultivou por tanto tempo para se lançar no desconhecido, no aprendizado, na evolução. Como assim?, você me pergunta, e é muito fácil responder: todo mundo tem medo de ousar, em todos os aspectos da vida. Mas, única e exclusivamente falando de textos, a ousadia é uma excelente característica. Você não somente trabalha o que não sabe, como também aprende muito fazendo isso. O crescimento profissional e pessoal é sem igual, podem ter certeza. É fato que seu trabalho não será o mesmo; há falhas, defeitos de inexperiência, tropeços e deslizes de quem não está acostumado àquele tipo de ideia. Mas tenha em mente uma coisa: um dia, quando as folhas em branco ainda lhe eram obstáculos intransponíveis, você ousou. Ousou pegar uma caneta, ousou abrir um documento digital, ousou digitar e formular uma história. Ousou ir além do branco da sulfite ou do arquivo novo do Word, fez mais do que inventar um conto em sua mente: você o transcreveu. Escreveu, deu vida a personagens, criou mundos e universos, uma nova cidade, ou mesmo a sua versão de um local já existente. Você mudou o mundo, mesmo que somente o seu mundo, por pura ousadia. Se é assim, qual é o medo de ousar agora? Você, que sempre escreveu terror, quando é que vai se lançar no mundo dos dramas e das tragédias? Você, fascinado por histórias policiais, quando vai arriscar um romance ou uma aventura épica e medieval? E você, cujo medievalismo dos cavaleiros e das princesas tanto agrada, quando vai se livrar das armaduras que lhe bloqueiam para ganhar as cidades obscuras da fantasia urbana, ou mesmo a não-fantasia dos cenários comuns, que retratam o cotidiano e suas diversas facetas?
Ousar, no mundo dos escritores, é algo fascinante.
É a ousadia que lhe permite descobrir novos horizontes, quando os antigos já não mais lhe saciam. É a ousadia que lhe permite transpor limites, deixar para trás fronteiras inimagináveis, enfrentar monstros marinhos no céu e navegar navios piratas nas areias de um deserto escaldante. Sem medo de ousar, vemos elfos se tornarem bárbaros, anões abusarem da magia. Sem o receio de criar o novo, vemos jovens imersos numa realidade de divórcios e superficialidades recuperarem sua confiança com base na prática de um esporte e de um amor correspondido, vemos o drama de um caso de terror mal resolvido se tornar uma complexa teia de acontecimentos. Muitos dos autores que conhecemos não ousaram se afastar de seus temas, seus gêneros e suas casas, e isso só nos mostra o quanto de potencial foi desperdiçado por simples medo. Rowling, a autora de Harry Potter, é um excelente exemplo de ousadia: após concluir a saga do bruxo mais famoso do mundo, em seus sete livros, a escritora inglesa deu a luz a uma obra de suspense policia, Morte Súbita, por pura e constante ousadia. Se é bom? Quem sabe? Mas uma coisa todos tempos de admitir: é ousado.
E, cá entre nós, ousar é a maior das fantasias na realidade de qualquer escritor que se preze.

domingo, 19 de maio de 2013

Texto - Saudade do que Nunca Existiu


Estão todos ali, menos ele.
Ele já não tem um nome. Não deixou saudades, pois nunca existiu. Ele simplesmente falta. Ele não o conhece, nunca o viu, nunca o sentiu por perto. Em raras ocasiões, achou tê-lo visto ao seu redor, abraçado a suas falsas causas. Errara. Nunca esteve por perto. Ou, talvez, tenha estado por perto algum dia, mas ele não foi capaz de tocá-lo. Passou ao seu lado como um perfume despercebido, uma fragrância chamativa, atraente, mas nada além de uma brisa passageira. Aquele perfume que te toca, e que o vento leva a seguir, num só sopro, deixando somente o cheiro da solidão.
Houve, um dia, um nome, mas ele não se lembra. Hoje, diante de tantas pessoas, sente-se sozinho. Não há saudade, não há arrependimentos. Há a falta. Falta alguma coisa que ele nunca teve. Falta alguém que ele nunca conheceu. Falta algo que se constrói na areia da praia, algo que desaba com o mais singelo dos tremores. Assim, diante de tantas pessoas, ele se sente sozinho, já que ele não está ali. Sua mente divaga, voa longe, para nuvens e universos onde ele não existe. Mas ele ainda está ali, com todas as pessoas, com todos os amigos, mas sem aquele que não tem mais nome, sem aquilo que já não se recorda, se é que um dia soube nomear. Como se chamava mesmo?
Dorme, descansa, mas seu cansaço não é físico, e sono algum é capaz de curá-lo. Acorda, desperta para mais um dia, um dia como todos os outros, um dia sem aquilo que lhe faz falta. Tenta sentir saudades de alguém que já passou por sua vida, tenta procurar em suas memórias por alguma coisa que lhe mostre seus erros, não encontra. O erro não é o passado, mas o acerto é o futuro. Um futuro que pode estar próximo, ou pode estar muito distante. Ou pode sequer existir. E ele pode esperar, esperar por muito tempo, sem que haja a possibilidade de encontrar aquilo que mais precisa, aquela pessoa que mudará tudo, aquele toque que lhe aconchegará no meio de tantos falsos sorrisos que lhe cercam. E assim, só assim, estará livre da solidão que sente no meio de tantas pessoas, da saudade que sente de alguém que nunca existir, da vontade que tem de sentir aquilo que tanta gente sente, ou mente que sente.
Como se chamava mesmo?
Às vezes, ele se lembra do nome, mas só. O nome não é o suficiente. Ele faz falta, fascina. Ele faz falta, alucina. Sem ele, pouca gente sobrevive. Pouca gente é capaz de superar a frieza da rotina, o gélido cotidiano que nos estapeia o rosto. Sem ele, resta somente o vazio, a solidão, o vento frio e soturno de uma noite sem fim, de um dia escuro, de horas e mais horas de um breu sem resquícios de sol. Abrem-se os olhos, não há luz. Repouso sem sono, feridas sem dor, animal sem dono, verão sem calor; tudo assim, tão errôneo, pela falta dele.
Estão todos ali, menos ele.
Às vezes, ele se lembra do nome, mas de que isso adianta? Não há saudades, não há lembranças, não há verdades ou fragrâncias. Há o vazio, um vazio que assusta, que apavora. Um vazio que, sem amor, não irá embora.
E onde está o amor quando mais se precisa dele?

Filmes - Reino Escondido


Na última sexta-feira, dia 17 de maio, o cinema recebeu mais um longa metragem animado: trata-se de Reino Escondido, um filme que trata de criaturinhas miúdas lutando pela vida da floresta, enfrentando, assim, os monstrengos responsáveis pela podridão do equilíbrio natural. Reino Escondido, ou Epic, para aqueles que assim preferirem, tem tudo aquilo que uma animação precisa: cores, aventuras e criatividade a mil. E digo mais: Epic também não tem medo de ousar. Apesar de ser uma animação, basicamente voltada para o público infantil, ele conta com cenas fortes e um roteiro que por si só já se mostra um pouco mais adulto do que de costume. A protagonista está numa empreitada para visitar o pai, enlouquecido por uma pesquisa que somente ele acredita ser real, estudo esse o responsável pelo fim do casamento e da carreira do tal homem como cientista. Vemos um cenário de uma família tipicamente problemática, situação que só piora graças à recente morte da mãe, que ainda deixa lacunas no coração dos personagens. Mas a cena toda se inverte quando, durante uma despedida forçada e ríspida, vemos Maria Catarina se envolver com toda a situação dos Homens-Folha, os tais guerreiros da floresta, após se deparar com a Rainha e o Botão que pode salvar a floresta, ou dar um fim a todo o verde de Ronin e seus cavaleiros, iniciando assim o reinado dos Boggans.


Mas o que Reino Escondido tem de tão especial? Como já disse anteriormente, ele já conta com as três características que mais chamam atenção numa animação. Cores graças ao cenário, já que o mundo que se esconde na floresta é imensamente povoado por criaturas magníficas, e aí mesmo podemos constatar a criatividade, das armaduras dos Homens-Folha às roupagens dos Boggans, passando ainda por lesmas falantes, mulheres-flores, botões que desabrocham na escolha de uma nova Rainha e o toque da podridão dos malévolos destruidores da floresta, sem esquecer das engenhocas projetadas pelo Professor Bomba. É tudo fascinante, bem desenhado e animado de uma forma que nos deixa admirados! Fora a simpatia dos personagens, altamente envolventes e carismáticos (apesar do nome da tal Maria Catarina que, pelo amor né, traduções brasileiras que nos envergonham...). É claro que podemos apontar algumas falhas, como a rápida aceitação da MC (Maria Catarina) com sua nova situação de diminuta, a uma figurante que passou rápido demais pelas cenas tomando uma posição importante no desfecho, entre outros, mas nada que estrague a produção. Citando a aventura que comentei acima, as sequências de ação e a movimentação dos personagens é excelente, sem contar as estratégias de combate utilizadas por ambos os lados dos conflitos, com cenas dignas das guerras medievais de O Senhor dos Anéis e similares (sem exagero!).


Enfim, Reino Escondido surgiu tímido no ano de 2013, mas ganhou espaço após alguns trailers liberados mais próximos de seu lançamento. É, sim, uma animação que vale a pena assistir no cinema, se tiver oportunidade, tenho certeza de que não irá se arrepender. Difícil não dar nota 10 para uma animação de tal nível, mas em se tratando de uma caracterização técnica, acho que um 9 não seria exagero, ainda mais com a trilha sonora agradável (e, às vezes, surpreendente, haha) e pela dublagem (a original, claro, porque a brasileira cuidou de destruir algumas tendências). Fica a dica para os amantes das animações e da natureza!

domingo, 12 de maio de 2013

Conto - Aqui



Aqui

Em todos os cantos do mundo, há pessoas cuja mente foi distorcida por uma realidade suja.
Há homens que matam por diversão. Pessoas que se deleitam no som do sofrimento de seus torturados, que admiram o sangue que jorra dos ferimentos que eles próprios criam, que não se regozijam com alimento algum que não seja a carne de tua própria espécie. Há homens cujas fantasias sexuais se resumem à infância e à inocência ainda não perdida, dotados de um espírito atormentado, de pensamentos macabros e sombrios, de uma sede que somente a nudez de gente que sequer teve a chance de crescer e se defender é capaz de saciar. Há pessoas que adquirem bonecas feitas de garotinhas, que buscam o prazer na carne de crianças mutiladas, incapazes de gritar por socorro e por suas vidas, incapazes de se recobrar do trauma que cada instante daquela tortura infinita é capaz de proporcionar à suas memórias estilhaçadas por uma realidade emporcalhada de tal forma que, ainda que séculos se passem, elas estarão ali, como fantasmas, espectros de ocorridos que nem mesmo os mais intensos livros são capazes de retratar.
É assim que se entende que o mundo não é um lugar legal. Entre paisagens lindas, vive um povo grotesco. Entre sorrisos charmosos, governam prantos doentios, cachoeiras de lágrimas e choro infantil, tormentoso, um eco que fere os corações mais ingênuos como agulhas e espadas. O homem, insatisfeito com o paraíso que lhe foi dado para viver, deseja sempre mais para sua diversão, seu lazer, a nojeira que chama de vida. Procura no sofrimento do outro seu sorriso, na morte do próximo a sua virtude, sua vitória. Guerra, sangue, vida e mais vida atirada ao leito de um rio vermelho, deixada para correr livre até a queda d’água, pronta para despencar de um abismo de onde jamais poderá retornar.
Por isso Eles vêm, nas sombras.
Sim, Eles. Não eles, como deve estar pensando.
Eles.
Quem são Eles, me pergunta? Eles são tudo, são nada. São caos, são ordem, luz e sombra, direito e esquerdo, certo e errado. São defeituosos, mas são, também, a mais completa perfeição. São eternos, ainda que perdurem um só instante. São Eles, e é isso o que Eles são.
Eles.
Rastejando nos confins dos subúrbios, aguardando num repouso turbulento sob túmulos, dispersos atrás de cada espelho, de cada armário, sob cada colchão. Eles estão em todo lugar, estão sempre por aí, observando. Escutam, estudam, compreendem. Eles sabem que os homens não valem nada. Sabem que o paraíso, hoje, é mais próximo do inferno do que o próprio lar dos abissais. Sabem que, no tempo em que o homem fez o mundo ruir, tudo o que era bom se perdeu. Sabem que não há mais salvação, que não há mais escolhas, que não há mais oportunidades ou chances para se redimir depois de tantos erros.
Por isso Eles vêm surgem, saídos de seus esconderijos, das sombras, dos cantos, das salas escuras. Por isso sorriem nos espelhos, em reflexos assustados, rangem armários e assoalhos, suspiram nos porões e nos sótãos, tossem nos cemitérios e nas casas abandonadas. Por isso sopram nas janelas, respiram na brisa noturna, desenham o breu sobre as estrelas douradas e a lua brilhosa, assombram um mundo com a completa escuridão de um eclipse. Eles estão por aí, esperando pelo momento certo e, pouco a pouco, fazem o que têm de fazer, aquilo que nasceram para fazer.
Salvação, você diz?
Não.
Extermínio.
Cada um Deles, infinitos como são, cuida de livrar o paraíso envenenado da praga que o assolou: os homens. Rugem nas sombras e os levam, um a um. Corrompem suas consciências, fazem deles fantoches, abusam da vontade fraca e da mente dispersa que somente os homens conseguem ter; lançam-nos uns contra os outros, diferenciando valores e ideais, crenças e opiniões, fazendo com o que não importa se torne tão importante a ponto de um homem matar por isso. Fazem do material um desejo carnal, fazem dos cérebros brinquedos sem uso. Eles não têm forma, mas têm força; não têm medo, mas têm fome.
E a fome nunca acaba.
Talvez haja um Deles por aí, à sua espreita. Você pode estar correto, mas eles são corretos e errôneos: não vão esperar pra ter certeza. Você pode ser um exemplo, mas eles não buscam exemplos, não buscam bons homens: buscam o fim da praga, a liberdade de uma terra que nasceu pra ser livre, mas foi escravizada pelo bel prazer dos abusivos monstros chamados humanos.
Talvez haja olhos sobre você, no canto do cômodo, no teto, na janela, na fresta da porta, na fechadura. Ele está te observando, em silêncio. Está te esperando dentro do guarda-roupa, debaixo da cama, sob os lençóis. Está aguardando por seu sono, silencioso para o momento em que seus olhos se fecharem, faminto. Talvez Ele esteja atrás da porta de seu banheiro, ou mesmo no espelho, fingindo ser o seu reflexo.
Sabe esse estalo, na porta, no teto?
Ele está te observando.
Os passos, o vento batendo nas janelas, o ruído depois do corredor.
Ele está se aproximando.
A brisa fora de casa, o silêncio sob as luzes acesas, o som que você não sabe identificar.
Ele está cada vez mais perto.
Você vai olhar pra trás, mas ele não estará ali. Está perto, mas não ao seu lado. Vai olhar para cima, mas ele não estará no teto. Seus olhos não são rápidos o bastante. Ele está muito perto, quase respirando em sua pele; você não pode notar. Vai olhar para a janela, para a porta, para todos os lugares, não será capaz de vê-lo, mas ele está ali, na luz, na sombra.
Desista de vê-lo.
Escute.
Consegue escutar?
Esse som, essa música, esse medo.
O silêncio.
É Ele.
Atrás de você, embaixo, acima, aos lados.
Nada.
Você olha para os lados, nada.
Então se volta ao texto.
Irônico, não é?
Você pode senti-lo, mas não pode vê-lo.
Que pena...
Ele está aqui.

sábado, 11 de maio de 2013

Conto - Eclipse


Eclipse

Havia um guerreiro mascarado a afrontar infindáveis cavaleiros e, assim, exército diante de exército, guerreavam.
Ele era um soberano. Trajado no mais negro dos metais, portador da lâmina cuja extensão media-se de acordo com a escuridão da noite, ele ostentava um poder que poucos homens têm a capacidade de sonhar. Brilhava em seus olhos, sob o metal do elmo cerrado, a vermelhidão do sangue despejado no campo de batalha, um tom rubro doloroso de se admirar, e cada gota reprimia um grito de angústia e sofrimento que, por vezes, nunca fora capaz de abandonar a garganta previamente decepada. Brilhava, também, o mais soturno lampejo do aço negro que lhe protegia o corpo, inerte num passo vagaroso, tomado por lamúria, com o qual o tirano trespassava o campo de batalha a despejar caos e desordem com cortes e mortes.
Sob o elmo escuro como a noite, havia tudo, exceto piedade. A mente que reinava aquele corpo de físico insuperável não mais se contentava com o mundano, o comum, sequer se felicitaria com o natural que os homens poderiam oferecer. Os pensamentos eram caóticos, obscurecidos por degraus de uma infelicidade constante, a mesma infelicidade depressiva e assombrosa que corrompe o mais puro dos cavaleiros divinos, que faz quedar o mais límpido dos paladinos, que faz de um deus de luzes e preces a criatura mais hedionda que um plano há de conhecer. Ali, não havia um cavaleiro, um paladino ou um deus; não havia sequer um homem.
Havia um guerreiro mascarado, e ele matava sem pensar, sem hesitar, sem ter medo da morte ou da vida.
—Senhor, ele é forte demais! —urrava um dos cavaleiros, trêmulo pelo temor criado na aura da presença daquela entidade na forma de um guerreiro de espada negra.
—Todos nós somos fortes demais —bradou um general, e seu grito era ordem, valentia e domínio. —Todos nós somos mais do que apenas um ser!
O mesmo general tombou num só golpe, um golpe impossível de se avistar ou imaginar ou descrever, mas um golpe que existiu, cerrou carne e ossos e fez ceder a fortaleza de músculos que era Hadril, o líder dos Nobres do Sul, como um punhal faz ceder a folha verde de uma árvore simplória.
—Nós não podemos enfrentar algo assim! —oscilavam as vozes mais distantes.
—Por favor, não nos mate —imploravam, e morriam por implorar a vida, da mesma forma que morreriam por aceitar a derrota.
—Salvem-se, ele é forte demais! —gritavam as vozes restantes, longínquas das ordens dos comandantes mais insanos, ansiosos por um combate sem vitória a ser almejada, vozes de homens que pensavam apenas em retornar para suas casas, para suas famílias, carregando não a conquista, mas sim somente a sobrevivência.
O Guerreiro do Escuro cerrou o dia, e a noite caiu como um trovão, à sua vontade. O mundo girava à sua vontade. O ar era respirado à sua vontade. A espada nas mãos era Eclipse, a forma lapidada de uma deusa antiga e cadavérica, a única capaz de garantir a um homem a realização de todos os seus desejos.
E ali estava um homem com todos os seus desejos realizados: destruído pelo interior, sem nada além da morte nas mãos e nos olhos, sem nada além do sangue na arma e na armadura. Sem nada além do ódio na mente e no coração.
Eclipse uivou, como uma matilha de lobos atrozes não seria capaz de uivar, e matou como os maiores desastres naturais seriam incapazes de matar.
Acima de todas as coisas, o Guerreiro do Escuro respirava com prazer. Ele gostava daquilo. Ele amava aquela sensação. Por dentro do aço negro, por trás dos olhos escarlates, um homem que não mais era homem sorria, ansioso pelos gritos e pelos fins de ciclo que sua lâmina mágica traria, disposto a destruir o que sequer fora criado para satisfazer o vazio que jazi na imensidão de seus macabros pensamentos. Caminhando sem pressa, desfrutando da agonia de ingênuos cavaleiros que ousavam afrontar os poderes de uma entidade impiedosa e descontrolada, o Cavaleiro da Sombra cortava, ceifava e dava fim a vidas e mais vidas, escutando cada grito como uma história. Havia o conto do pai de família, o conto do filho mais novo que não retornaria, o conto do amante que morria ao lado do amigo que traíra, o conto do ferreiro que produzira armas para todos durante a vida toda sem saber que um dia teria de utilizá-las, e outros contos e afins. Contos de mortes. Contos sussurrados no vento gélido que ululava na morte de cada homem, de cada cavaleiro, de cada pessoa. Contos que faziam o Senhor do Caos vibrar no anseio de ser quem era, de ser o quê era.
De dar fim ao que, um dia, teve um começo.
Ceifando, aquele monstro de armadura obscura via espectros de famílias que chorariam em enterros cujos corpos não existiam para se homenagear; via mães e esposas carentes da companhia dos amados, via filhas agarradas às pernas de mulheres frágeis na esperança de que a ruína que suas vidas se tornariam não lhes fizesse ceder a vontade de prosseguir, de continuar, de dar um passo atrás do outro na subida fervorosa da escada da vida.
Diferente de todos aqueles homens que morriam, o Cavaleiro da Sombra não tinha uma história. Ele não tinha um nome, não tinha um passado, não tinha um presente ou um futuro. Ele tinha Eclipse, e só. Todos os desejos teriam de ser realizados, mas talvez tudo não fosse nada. Assim sendo, ele não tinha nada, nada além do vazio de nada ser, de nada ter e nada saber.
Mas não fora sempre assim.

Cavalgando a três dias com poucas paradas, Rasthar começava a alucinar sobre o couro escudado de Sunai, o corcel mais ágil das Terras do Leste.
O céu postava-se num azulão interminável, coberto pelo algodão singelo de nuvens carregadas. Mais tarde, antes do anoitecer, talvez, choveria. Uma tempestade, Rasthar pensava. Uma tempestade que lavaria sua alma e levaria para longe de si as dúvidas, os medos e as incertezas, mas não o ódio e a sede de vingança.
Naquela noite, e não além da madrugada daquele dia hediondo, um homem morreria nas mãos de Rasthar.
Não um homem qualquer, no entanto. Tratava-se do Senhor do Escuro, o Tirano do Caos, o Cavaleiro da Sombra. Entre títulos honrosos de obscuridade serena, aquele era um guerreiro caótico, oriundo das profundezas do inferno, responsável pela queda de exércitos e impérios. Possuía, nas mãos, a arma mais poderosa de todo o Reino dos Renascentes, e os magos mais antigos do Protetorado ousavam apontá-la como a mágica mais poderosa do mundo. Eclipse, seu nome, fazia tremular os joelhos firmes de cavaleiros épicos, e mesmo os mais experientes e destemidos viam falhar a bravura diante da pronúncia daquela palavra que, outrora, carregava um significado comum, do belíssimo espetáculo de um abraço entre lua e sol.
Como a tantas outras fortalezas e castelos, Rasthar viu seu lar, a Morada dos Valentes, quedar, e viu, junto dos muros defensivos do castelo, um mundo ruir. Sua vida, sua história, sua família, tudo aquilo ficava para trás conforme as casas incendiavam no caos e na morte que se arrastavam na lâmina negra de Eclipse, e ele assistia àquilo incapaz, com as pernas sob os destroços de uma das barricadas, aguardando pela morte que, naquele momento, parecia tão convidativa. Aprisionado na própria tolice, Rasthar viu sua esposa ceder ao corte laminado daquela mágica impura, e o grito se perdeu no silêncio da maior das dores. Viu, em seguida, o mesmo corte livrar o mundo da vida de suas filhas, as lindas gêmeas Anabela e Elisa, e elas tombaram como um terremoto na paisagem cinzenta e inacabada daquela pintura sofrida. Preso como estava, era apenas mais um e, como mais um, era nada diante daquele homem. Daquele ser, pois homem algum haveria de ter tamanho poder. Mortal algum haveria de carregar a força de uma deusa nas mãos, como o Lorde das Trevas carregava.
Alguém tinha de dar um fim ao reinado da escuridão.
Rasthar sentou-se ao lado de Sunai, e as memórias pareciam vívidas em sua mente. Via sua recuperação: a dor maior não era nos membros feridos, mas sim na mente em ruínas. Via sua melhora, seu crescimento físico e espiritual, via o ódio que crescia dentro de si. Os outros também viam, e poucos aprovavam os sentimentos que corroíam o sangue daquele cavaleiro que, um dia, fora um herói para o povo. Agora, Rasthar era a sombra de um grande homem, a simples sombra negra de alguém que nasceu para reinar, para governar e proteger o povo, mas que fora destinado a uma desgraça capaz de puir a linha dos destinos mais perfeitos e transformá-los em vidas pacatas e sem cor.
—Nós estamos perto, Sunai —disse ele. A voz lhe pareceu estranha. Há meses não conversava com ninguém além do espelho que refletia sua angústia. Há semanas não ouvia nem mesmo o espelho. E há dias não abria a própria boca, a menos que fosse para saciar a fome ou a sede que lhe aturdiam. —Posso sentir. Estamos perto.
O ar tornou-se úmido, e os galhos das árvores começaram a se remexer. As planícies ganhavam um vento soprado em carícia, nada além de uma brisa agradável do prelúdio de uma chuva forte. Qualquer cavaleiro sabia que, em horas como aquela, deveriam levantar acampamento e parar, perder a noite, repousar enquanto a natureza fazia seu trabalho. Rasthar também sabia disso, mas tinha algo a fazer, e não tinha tempo para descansar.
—Vamos —levantou-se, puxando as rédeas do cavalo que mal se aguentava em pé. —Podemos comer enquanto andamos. Beba sua água. Você vai precisar.
Sunai bebericou um vasilhame de água, e galopou mastigando, pois assim mandava seu rei.
A primeira gotícula de chuva alcançou Rasthar junto de uma imagem que lhe garantiu sentimentos obscuros: um castelo negro, de muros escuros e torres altíssimas, mostrou-se nas proximidades do horizonte. Estavam perto, muito perto, tão perto que ele podia ver o que ninguém mais via. Lá estava Tártaro, a última das Fortalezas Sombrias do Reino dos Renascentes, a morada do Senhor das Trevas, do Cavaleiro da Sombra. Do maldito que dera um fim à vida, à história e aos sonhos de Rasthar.
—Eu vou vingá-las —ele repetia, não para Sunai. Falava consigo mesmo. Falava com suas filhas e com sua esposa, com sua família. Falava com os fantasmas de seu passado glorioso, com o espectro de sua honra, com as sombras de suas virtudes. —Eu vou vingar todas vocês.
A chuva chegou, e era mesmo tempestuosa.
Sunai teve dificuldade de cavalgar conforme a terra se tornava barro, e seus passos diminuíram, perderam velocidade, tornaram-se pesados e lamacentos. Rasthar insistiu ao seu limite, mas o cavalo arfava, exausto, alcançando o limite que um animal haveria de ter. Rasthar era incansável, insaciável em sua busca pelo extermínio, pela vingança; Sunai era apenas uma montaria sem destino, sem sonhos ou motivações.
—Você me acompanhou durante toda uma vida, amigo —disse o cavaleiro, desmontando seu animal, que quedou de joelhos, ofegante. —Sou muito grato a você. Ao fim de tanto tempo, de tantos anos, ofereço-lhe aquilo que nenhuma montaria dos Renascentes recebeu nos últimos séculos: a liberdade.
O cavalo não deveria entender tais palavras, mas algo em seus olhos mudou. Havia um brilho incerto, um fosco hesitante, um desejo impossível. A liberdade garantida aos animais era bela, singela e agradável, um ato admirável de um cavaleiro, raro e quase que inexistente. Mas não era uma honra. Um cavalo livre poderia ser uma boa montaria, mas ainda era uma montaria abandonada por seu amo. Ele não servira mais. Não poderia levá-lo, ou levar quaisquer outros cavaleiros, a lugar algum. Galoparia pelo resto de seus dias sem destino, sem rumo ou rota de fuga, sem nada.
Sunai não desejava aquilo.
—Obrigado, Sunai. Você foi mais que um cavalo: foi um cavaleiro, como eu. Os títulos que alcancei se originam em suas costas rígidas, companheiro. A glória que um dia obtive se marca no relincho da montaria que os exércitos temiam. Agradeço pela vida que me ofereceu, e hoje lhe ofereço uma vida muito melhor.
Não era aquelas as palavras esperadas pelo corcel.
—Vá embora, amigo. Vá, seja livre. Corra para onde o vento te mandar.
Um coração de animal doía, mesmo sem entender o porquê.
—Eu não preciso mais de você.
Rasthar não chorou na despedida. Tempos atrás, talvez, choraria, mas não naquele dia. Não havia mais lágrimas naquele homem. Não havia dor maior do que já sentira, não havia pavor maior do que aqueles que lhe aturdiram até então. Ele não chorou, sequer acenou para o cavalo que deixou para trás. Apenas virou-se com as mãos na espada que jazia embainhada em sua cintura, e caminhou com passos lentos, depois rápidos, sumindo na linha do horizonte que a visão de Sunai alcançava.
O cavalo não galopou para longe, livre. Sentia-se preso, mais do que nunca. Deitou-se para descansar, e nunca mais reergueria os olhos ou os desejos.
Além do companheiro abandonado, Rasthar seguia na tempestade.
O metal que lhe protegia arrastava-se nos campos barrosos que circundavam aquela construção onipotente. Da prata, pouco se via; restava o marrom natural do mundo, o verde lamacento do musgo, o cobre da ferrugem que o tempo lhe trouxera. Da prata, restava somente o coração de Rasthar, que parecia inerte, impossibilitado de bater após tamanho sofrimento. A espada nas mãos cantarolava no silêncio, e sua voz metálica parecia miar um som dos bardos, uma canção de valentia, de drama e tragédia.
E quando tombarem os montes, e quando restarem colinas
Postar-me-ei diante desta vida cristalina
E quando ceder a vontade, e quando acabar a esperança
Postar-me-ei fortalecido por sorrisos de criança
Rasthar deixou escapar um sorriso tristonho e desesperado.
—Não existem mais crianças para sorrir —murmurou, pensando alto. —Não existem mais motivos para sorrir.
Só existia a morte.
Os muros escuros pareciam altos demais.
Entre duas torres sinistras, erguia-se um portão de aço negro, o metal fosco que ilustrava a armadura daquele que pusera fim ao legado de um futuro rei. Rasthar apenas aguardou, e o portão se abriu, permitindo sua entrada. Para o caos, era sempre divertido ver o bem ousar afrontá-lo. Era sempre motivo de risos quando um único homem chegava até ali, diante do ser que derrubara exércitos e impérios, na esperança de que uma arma comum, sem nome ou mágica, pudesse enfrentar Eclipse, a Espada das Espadas, a Lâmina da Noite, o Vulto do Luar. No fundo, Rasthar sabia que espada alguma faria frente àquela monstruosidade negra. Sabia que mortal algum seria forte o suficiente para enfrentar o Filho do Aço Negro, o Caos Abroquelado, o Servo dos Nove Infernos. Ele não era diferente.
Por isso buscara forças no que vinha além da compreensão.
Subindo as escadas daquela fortaleza, Rasthar lembrava-se dos anos que lhe custaram caro demais. Ele precisava de força, precisava de uma força que seu mundo não tinha. Seu motivo era a vingança, seu sentimento era o ódio. Assim sendo, quando requisitou aos anjos, o céu o renegou. Uma vez antes, fora escutado pelos seres além das nuvens, mas não mais. Ele não era mais aquele homem de virtudes e pureza. Não era mais aquele jovem determinado a mudar o universo com um sorriso. Era uma sombra, o que restara de um príncipe e, como tal, fora rejeitado pelo céu. Nenhuma ajuda viria dos anjos naquele dia, e nenhum agradecimento nasceria dos lábios de Rasthar.
Restaram somente suas palavras, tomadas por rancor.
—Eu não preciso do céu. O que tem de quedar na terra, tem de ser enfrentado pela terra.
Ou pelo que existe sob os domínios do mundo.
Sem escolhas ou esperanças, Rasthar desceu até o inferno em busca de poder. O inferno não tinha sol ou lua; só havia dor, gritos e desespero, lamúrias e prantos doentios. Havia peste, fome, guerra e morte, como pregam os cavaleiros do apocalipse. Havia pragas e árvores de crianças mortas, fortalezas de ossos e órgãos, assentos de dentes e unhas, torturas intermináveis, castigos hediondos. Havia o inferno, e além do inferno Rasthar se atirou, gritando para quem lhe escutasse que ele precisava de ajuda, que precisava de poder, que precisava de uma luz que afrontasse Eclipse.
Ou de uma sombra ainda maior.
—Eu posso lhe ajudar —disse uma voz no escuro.
—Quem é você?
—Não direi que sou amigo, pois amigos inexistem nestas terras. Sou o quê você procura, nada mais. Sou a sombra além das sombras, o escuro além do breu, a morte além da morte.
—E o que você quer de mim?
O que todos os monstros e demônios sempre querem: a alma.
Rasthar subia as escadas da fortaleza, recordando-se que vendera sua alma para alcançar aquele lugar esperançoso, poderoso o suficiente para derrubar o indestrutível.
No terraço daquele local, no escuro de um trono de aço negro, lá estava ele. Sentado em sua imponência, como um governante de todos os reinos, como um lorde de todos os mundos, o Cavaleiro da Sombra aguardava, sem um sorriso ou um temor. Havia somente um elmo metálico e obscuro, sem expressão. Por trás do aço, cintilavam olhos escarlates, rutilava uma mente sem histórias ou virtudes. Por trás do aço, erguia-se um gigante imortal, um deus que tinha uma deusa nas mãos.
Eclipse estava lá, onipotente e esplendorosa. Recebera este nome pois, à frente do brilho nos olhos de um mortal, ela era como a lua sobre o sol: tudo se tornavam sombras. Toda esperança se cegaria num simples desejo de Eclipse.
Rasthar não hesitou.
Ele já não tinha brilho nos olhos.
Ele já não tinha esperança alguma.
Na tempestade, sua voz ecoou, como a de um rei:
—As cicatrizes desta noite farão do mundo um lugar diferente, Soberano da Malevolência. Nada restara do Exército de um Homem Só. Nada restara do Domínio do Aço Negro. Nada restara de você ou de seus planos, maldito. Nada restara do infeliz que acabou com a minha vida.
Eclipse parecia respirar nas mãos do cavaleiro de aço negro, mas não ele. Ele era como uma estátua, inerte e inexpressiva. Assistia, ouvia, vivia, e só.
—Levante-se e morra com a honra dos cavaleiros —dizia Rasthar, que pouco entendia de honra ou de cavaleiros naquele instante. Sua mente palpitava nas memórias de sua esposa e de suas filhas. Ele escutava os gritos, as dores, e chorava por dentro, mas nunca mais choraria por fora. Os olhos eram ódio e fúria, nada mais. —Ou morrerá sem glória alguma, digerido pelos pecados que lhe abraçam, tirano.
O Senhor das Trevas não se levantou.
Rasthar tirou sua espada da bainha, e o fogo que o consumiu era intenso. Deu-lhe asas, deu-lhe brilho, deu-lhe o vigor de uma fênix. Sua arma não era mágica: ele era. Ele era o fogo, a força, a luz.
Ele era o próprio inferno.
Seus olhos queimavam nas chamas que acolhiam toda sua glória. A espada se ergueu, girou no ar, riscou o mundo com um fogo escarlate e brilhoso. A lâmina era tomada por cicatrizes, fraquejando diante de tamanho poder, da magia que era incompreensível. O cabo se incinerava no simples toque de Rasthar, mas ele não sentia dor ou medo. Ele era o inferno, queimava como todo o fogo dos mundos não queimaria. Queimava por coragem, por bravura, por poder. Queimava por vingança.
Seus passos fizeram a fortaleza oscilar, trêmula, fizeram o Lorde do Escuro se postar em pé, tomar Eclipse nas mãos.
O fogo engoliu a ambos num só golpe, e queimou. Queimou sonhos e pesadelos, queimou lembranças e desejos, queimou vontades e determinações. O fogo abraçou Eclipse como uma velha conhecida, sorriram juntos, e as chamas tornaram-se negras, enclausuradas nas sombras da Lâmina da Noite. Rasthar gritou, flamejante num anseio que sequer se lembrava, cortou a noite, as nuvens, a chuva e o mundo com sua espada de ferro simples, e ela se partiu, mas as chamas não se dispersaram. Ele tinha uma espada de puro fogo, uma espada de inferno, e ela gritava como almas castigadas, chorava como crianças torturadas, urrava como almas destinadas ao sofrimento eterno. Eclipse sorriu, poderosa, mas o fogo a engoliu também, e então se engolfou na noite chuvosa e, por fim, desapareceu.
Um cavaleiro sem nome caiu de joelhos ao chão, sem forças.
Nada restara do Lorde do Escuro. O fogo o levou para sempre, assim como levou todo o resto.
Restara um homem que nascera para ser rei, para ser bom, mas que se enganara nas escolhas. Restara um homem sem nome, sem glória, sem honra, passado ou virtudes. Restara um homem sem nada, mas com uma espada.
Uma espada negra como a noite.
Ele se levantou, escorado na amurada da fortaleza. Tomou Eclipse do chão, admirou-a, umedecida pela chuva fria. Era uma bela espada aquela. Uma espada capaz de realizar quaisquer desejos. Uma espada capaz de fazer de um homem comum um deus.
—Diga-me o que desejas, mortal —a voz ecoava na mente do cavaleiro sem nome. Vinha da espada, mas vinha de além. Vinha de sobre as nuvens, de sob o mundo. Vinha de todos os lugares.
Pensou.
Em sua mente, nada havia. Não se lembrava de nada. Não desejava nada.
Assim, deixou que a própria espada o tomasse, e seu desejo foi o mesmo de tantos outros que, antes dele, tocaram a Lâmina da Noite.
—Caos —sussurrou, e aquela seria sua última palavra por toda uma vida.

Havia um guerreiro mascarado a afrontar infindáveis cavaleiros e, assim, exército diante de exército, guerreavam.
Ele tivera um nome, um dia. Tivera uma história, um passado. Amou e foi amado. Sofreu, como aqueles ao seu redor sofriam. Mas teve seu desejo realizado e, agora, tinha o caos ao seu domínio.
Hadril se reergueu. Morrera, sim, mas a morte não lhe era um obstáculo. Nada lhe seria um obstáculo naquela noite de guerra. Ele se ergueu como uma fênix, e o metal de seu corpo e de sua arma cintilou, coberto de fogo. Ganhou asas, ganhou força, ganhou mágica. Nada em si era encantado: ele o era. O fogo que o acolhia não era um fogo qualquer; era mais. Era um fogo acima do fogo de todos os mundos.
Era o próprio inferno.
Hadril sofrera nas mãos do Cavaleiro da Sombra. Perdera sua família, sua honra, seus sonhos. Perdera tudo. Desejava vingança, acima de qualquer coisa. Desejava ser forte para tirar a vida de quem lhe tirou o desejo de viver. Desejou poder, um poder que o céu não lhe ofereceu.
Um poder que encontrou somente no submundo.
—Eu posso lhe ajudar —disse uma voz no escuro de suas lembranças.
—Quem é você?
—Não direi que sou amigo, pois amigos inexistem nestas terras. Sou o quê você procura, nada mais. Sou a sombra além das sombras, o escuro além do breu, a morte além da morte.
—E o que você quer de mim?
O que todos os monstros e demônios sempre querem: a alma.
Hadril aceitou, e agora era o inferno encarnado. Tinha o fogo que consumia o mundo, e o Lorde do Escuro se viu quedar. Eclipse tocou o solo, fortalecida. Ela sempre se fortalecia. Os Mestres do Aço Negro sempre quedavam, mas ela sempre estava ali, poderosa. Ela sempre os enganava no Plano Inferior. Ela sempre os dominava em seus próprios mundos.
Ela sempre extinguia a luz com uma escuridão assombrosa.
Como um eclipse.

domingo, 5 de maio de 2013

Maio, o meu mês de escritor!

Hoje é um domingo para relembrar o quanto eu amo escrever! Posso não ficar milionário, posso não ficar famoso, posso não vender milhares de livros, mas eu sei, e sempre vou saber, que fiz o meu melhor com as palavras, e pra mim isso é muito mais que o suficiente. Não há sensação melhor do que jogar a sua vida, as suas ideias e os seus pensamentos numa folha em branco e vê-los ganhar forma, criar vida, cintilar como se tivessem alma própria. Talvez hoje não seja o dia certo, que infelizmente não me recordo com exatidão, mas em algum dia de maio de 2006 eu abri um caderno e rabisquei a minha primeira história de verdade, que talvez não fosse bem uma história de verdade, mas marca o início da realização de um sonho, e o sonho sim, mais que certamente, era verdadeiro. 7 anos atrás eu decidia que queria aquilo para a minha vida, e podem se passar mais 5, mais 10, mais 50 anos: tal decisão nunca vai mudar. Talvez eu não tenha nascido para escrever, como talvez poucas pessoas realmente tenham nascido para fazer o que, hoje, fazem, mas é essa a maior virtude da vida: ela nos surpreende. E, se eu não nasci para escrever, que eu, ao menos, escreva até o último de meus dias, por birra, por vontade, por sonho ou mesmo sem motivo nenhum.
Agora, que tal escrevermos um pouco?

Light Novel - Tarot Café - A Caçada Selvagem


Tarot Café, para quem desconhece, é uma série de sete volumes oriunda da Coréia, que nos apresenta Pamela, a dona do Tarot Café, um lugar aparentemente comum, mas que, após a meia-noite, recebe convidados como lobisomens, fadas e similares. A NewPop, editora brasileira responsável por diversos lançamentos de mangás e afins, trouxe, além dos 7 volumes quadrinizados, a Light Novel 'A Caçada Selvagem', do mesmo universo, e é sobre ela que falarei agora.
Na Light Novel, acompanhamos a história de Bryn e Jack, um casal particularmente comum, com seus problemas e suas desavenças, que acaba por se envolver numa dificuldade muito maior do que brigas e intrigas. Quando Jack desaparece misteriosamente, Bryn se mostra sensitiva a sonhos de significados peculiares e sentimentos intensos e, na busca de reencontrar sua alma gêmea, procura por Pamela e suas leituras de tarô, para que assim possa descobrir o que realmente aconteceu com seu amado. Isso tudo acontece em equivalência a crises existenciais, divergências nos trabalhos e oportunidades únicas para Bryn, que é uma atriz não tão conhecida, o que nos faz encontrar uma humanidade sem igual nos personagens. Mesmo Pamela, imortal após um acidente de percurso que envolveu o amor de sua vida, se mostra razoavelmente tocada pela história do casal que, entre flashes e memórias, nos é apresentada numa narrativa impecável, digna dos grandes romances ingleses.
A história se desenvolve sem pressa, o que, às vezes, pode tirar um pouco daquela animação, mas o desenvolvimento, ainda que lento, é meticuloso e frígido. As coisas acontecem porque têm de acontecer, e você, mero leitor, nada pode fazer para mudá-las. Às vezes, somos surpreendidos por uma sequência de cenas que nos faz pensar que aquilo poderia estar acontecendo a qualquer pessoa, pois a fantasia do cenário mal é citada nas situações do cotidiano, e estas, por sua vez, são o ponto forte da narrativa. Quando mais próxima do desfecho, vemos a história circundar verdadeiramente as terras fantasiosas e surreais, mas é fato afirmar que a característica mais fascinante da Light Novel é o modo como a autora trata das situações rotineiras, das brigas, dos sorrisos mascarados, do orgulho que nos faz agir impulsivamente por vezes, da dificuldade em se admitir um erro que sabemos que é nossa culpa, entre outros casos.
Tarot Café - A Caçada Selvagem tem suas 204 páginas, ou seja, é uma novela curta, de leitura rápida, ainda que exija uma atenção delicada. Ao fim, encontramos ainda um quadrinho especialmente produzido para a Novel, intitulado Constance, e tenho que admitir que é um conto que muito me agradou, tanto pelo roteiro quanto pela arte gótica e impecável da desenhista. Pelo preço baixo oferecido pela editora NewPop, deixo aqui a recomendação para quem puder adquirir a novela: é certo que não vai se arrepender. E eu ainda fiquei na curiosidade de encontrar os sete volumes do mangá, pra saber se o roteiro segue a mesma linha da novela ou se se envolve com temas muito diferentes.
Quem sabe um dia eu também faça uma leitura, não é?

Filme - Homem de Ferro 3


E nosso aclamado Tony Stark chegou ao seu terceiro filme neste mês de abril, deixando aquele eterno gosto dos filmes de heróis Marvel. Mas o que podemos falar sobre o terceiro longa metragem do Homem de Ferro? Inovações, surpresas, cenas fabulosas ou somente mais do mesmo?
A primeira coisa que me sinto no dever de comentar sobre é, como vi em infindáveis críticas por aí, a maior caracterização humana de Stark. Em Homem de Ferro 3, que se passa cronologicamente após Os Vingadores, nosso playboy filantropo está humano demais. Não é de todo ruim, claro, mas o homem da armadura de ferro não é assim, tão de ferro, sem ela. Tony sofre ataques de ansiedade em diversas cenas do filme, apresentando um caso de insônia após o envolvimento na batalha com alienígenas e o conhecimento de deuses de outro mundo, provas de que a Terra que ele tanto admira (por lhe render dinheiro, claro) é tão frágil quanto uma boneca de porcelana no asfalto de uma rodovia. Talvez, por isso, tenhamos o filme com maior tempo de Stark sem armadura. Muita gente viu isso como um problema: afinal de contas, sem a proteção tecnológica que ele desenvolveu, não existem grandes cenas de ação e efeitos especiais, não é? Levando em conta o roteiro, por outro lado, é de grande apreciação o desenvolvimento do personagem, agora mais próximo da realidade e dos problemas que o mundo causa a heróis e mortais.
Mas e as cenas de ação? Elas estão lá, certamente que estão, e não decepcionam! Em menor quantidade, realmente, mas cada cena de ação é de brilhar os olhos, abusando de efeitos especiais incríveis e de cenografias abusivas e encantadoras! Fora que, diferente dos filmes anteriores, vemos uma caracterização das armaduras impressionante, já que nessa terceira parte feita pela Marvel existem mais de dez armaduras diferentes! Encontramos até mesmo o Igor, uma versão glorificada da Hulk Buster dos quadrinhos, e aos fãs do personagem desde a época das revistas, isso é um prêmio e tanto!
Defeitos? É simples apontar. Dentre as opções que citei no início da resenha, tenho de aceitar e apontar que o terceiro filme é apenas mais do mesmo. Um vilão de baixa motivação, um roteiro mediano (porém, dessa vez, com a humanização de um personagem que antes não tinha tal característica tão valorizada, o que, por sua vez, rende pontos a tal área), efeitos incríveis, ação de se aplaudir em pé e um Tony Stark com bravatas de se gargalhar. Aproveitamos a valorização da humanidade no filme para nos depararmos com um garoto, encontrado por Stark por acaso, cuja família lhe rendeu grandes problemas. É um coadjuvante temporário, que passa pelo filme como um relâmpago, mas mostra que, no trato do roteiro desta sequência, o cuidado com a mentalidade foi muito maior.
Ao fim, temos o tradicional desfecho de trilogias da Marvel, que adora nos deixar imaginando que aquele herói se aposentou, uma cena pós-créditos bastante cômica, envolvendo nosso querido psicólogo sem temperamento, o Hulk, e aquela famigerada dúvida: haverá uma sequência? Um Homem de Ferro 4 ou um reboot, como é o caso de X-Men - Primeira Classe e O Espetacular Homem-Aranha? A Marvel pode nos enganar nessas partes, mas a frase 'O Homem de Ferro voltará' nos deixa instigados a imaginar o que pode vir pela frente.
Da mesma forma que ver o mundo quase ser destruído e nenhum dos Vingadores aparecer para ajudar o pobre Stark nos deixa instigados a compreender o que os roteiristas fumaram antes de escrever tal história...
Nota: 8 de 10.