sábado, 15 de dezembro de 2012

Conto - Tarag Barba Púrpura


Na casa de um Rei Anão, poucas coisas andam em ordem.
Aquele era um dia atípico para Bethorn Coroa-de-Espinhos. Sentado sobre o Trono Celeste de Algazhor, o mais duradouro dos Reis Anões aguardava o resultado do conflito subterrâneo que decidiria aquele dentre seus três filhos que o sucederia no trono. Parte do nervosismo de Bethorn, no entanto, não se devia aos perigos afrontados pelas proles. Ele sabia que qualquer um dentre os três guerreiros nascidos do ventre de Gaphin Trança-Rubra era suficientemente capaz de superar quaisquer desafios.
O problema era outro.
Bethorn não esperava por um campeão entre seus filhos.
Esperava por Tarag, o mais velho deles, com a coroa em mãos. Ele tinha de vencer. Ele tinha de governar Algazhor.
O maior problema naquela situação, porém, era o próprio Tarag.
Carregando uma arma maior do que seus braços, Tarag era imponente. O subterrâneo faiscava junto das lâminas afiadas daquela machado de combate, e as cores do estandarte de Tarag ofuscavam mesmo no escuro. O violeta, marco do corvo estampado em sua bandeira, riscava sua armadura de placas e todo o metal que adornava suas proteções, bem como as pregas que moldavam os laços de sua barba, o que lhe rendera, anos antes, o título de Barba Púrpura. Com a arma em mãos, Tarag bufava, oscilante para com aquela ideia fantasiosa de seu pai.
Governar um reino de anões, que bobagem! Tarag queria liberdade, queria conhecer o mundo de fora, viajar pelo céu e pelo mar. Gostava das pedras e das runas, mas não as amava como tinha de amar por ser um anão.
—Você me lembraria de um elfo caso tivesse orelhas pontudas e um metro a mais de altura —dizia Udun, seu irmão caçula, outro dos participantes daquela competição pelo trono de Algazhor.
—Não me compare a raça alguma, Udun —defendia-se Tarag. —Não quero alcançar povo algum. Quero ser livre, e somente a liberdade pode saciar a sede que tenho pelo saber.
Ouvindo aquelas palavras, Bagoth gargalhava, chegando bem próximo da ânsia pelo riso em frenesi.
—Sede pelo saber! —zombava o outro irmão, o do meio. —Você não sabe nada, Tarag! Mal sabe que as rochas são o nosso lar, a nossa herança e o nosso destino. Não há liberdade para quem é livre na prisão que lhe acolhe.
—Então que eu me prenda em nuvens e ondas, Bagoth. Pouco me importa.
Naquele instante, entretanto, Bagoth sangrava, Udun arfava na exaustão de diversos combates consecutivos e, na medida do possível, Tarag lutava.
A Barba Púrpura ainda estava de pé, potencializada pelos gritos e cânticos de guerra dos xamãs dentre os anões, o que realisticamente falando não alterava em nada as capacidades de combate do trio de irmãos. Com a arma branca revoltosa em mãos, Tarag afrontava na solidão do fracasso fraterno a criatura vil e hedionda que seu pai escolhera para o teste final do trono de Algazhor: um dragão.
Catoblepas era seu nome, ou assim cantavam os bardos, e também o Rei Anão. Aprisionada pelo próprio Rei Bethorn no auge de seu domínio militar das tropas de Algazhor, Catoblepas manteve-se inquieto e teimoso durante todo o tempo de recolhimento, e agora deleitava-se na oportunidade de incinerar os filhos do herói que lhe privou da liberdade. O couro rubro cintilava junto de infindáveis peças de ouro e bronze, riquezas armazenadas pela criatura durante escavações precipitadas, ou adquiridas como espólios encontrados nos corpos dos valentes guerreiros que ousaram afrontar tamanha atrocidade. Soprando uma baforada de inércia duvidosa, Catoblepas rabiscava o ar com suas chamas escarlates, deixando-as afrouxarem a existência de três Príncipes Anões, os quais enxergavam, muito além dos perigos oferecidos pela monstruosidade daquele dragão, a coroa de rosas que somente um dos três filhos ostentaria quando Catoblepas quedasse por definitivo.
Mas Tarag não desejava coroa alguma.
—Este maldito é resistente demais! —urrava Bagoth, postando-se outra vez sobre as pernas curtas, a alabarda lhe escorando o corpo.
—Então temos de ser mais fortes ainda —gritou Udun, e as espadas de lâminas curvas faiscaram em suas mãos. —Não vou deixar de ser Rei por desistir de lutar contra um único ser! Se esta é a determinação que tal monstro nos mostra, serei eu a lhe mostrar algo ainda mais poderoso!
E, sem que ninguém perguntasse o que era tal façanha, Udun deixou as palavras escaparem de seus lábios inchados:
—Vou mostrar a ele como luta um novo Rei.
A lança e as espadas deixaram para trás a precaução do machado de Tarag, e o irmão mais velho apenas observou quando o sangue de seu sangue tentava, na medida do possível, defender-se do inferno que jorrava no sopro de Catoblepas, sentindo a pele dos braços queimar por sob os escudos e armaduras.
Ele tinha de fazer alguma coisa.
—Recuem!
Aquela era a ordem de um comandante.
—Quem é você para nos dar ordens, Tarag?! —Bagoth não recuava. —Eu serei o novo Rei!
—Você pode ser o Rei se quiser, irmão, eu não me importo com o trono ou a coroa. Mas nada haverá para governar caso tombe no combate com este monstro, e como irmão mais velho que sou, cabe a mim a responsabilidade de —
—Cabe a você calar a boca enquanto lutamos, seu idiota!
As armas encontraram o couro do dragão, arranhando-o sem que causassem grandes feridas. Catoblepas girou no lugar, e sua cauda de espinhos rasgou a carne de Udun e Bagoth, arremessando-os para trás.
—Maldito seja! —urrava Udun, entre dor e ódio.
—Ele não vai cair assim —Tarag pensava alto, examinando o dragão como um todo. —Deve haver um ponto crucial onde ele possa ser atingido e... Já sei!
Ali, no calor da batalha, o Barba Púrpura encontrou uma falha no couro daquele imenso dragão: sobre o pescoço avantajado, pouco antes do elmo de couro e escamas, uma única brecha deixava a carne rosada à mostra, a pele desprotegida e intacta de um dragão ancestral.
Aquela era a melhor oportunidade de Tarag, ainda que, para um anão, onze metros de altura não fosse uma escalada admirável.
O machado afastou as chamas, Tarag corria. Avançava entre os tesouros de Catoblepas conforme acelerava na direção do dragão, e a lâmina lhe impulsionou para cima ao evitar a pancada desferida com as garras da criatura. Ele subiu, num salto improvável para os irmãos desleixados, grudou a manopla pontiaguda na carne e nas escamas, escalou na agilidade de um elfo.
Aquela era a vida escolhida por Tarag, a vida de liberdade, a vida de ser o que anão algum ousaria ser.
Escalou, e dez metros mais tarde encontrava o pescoço de Catoblepas, apresentando certa dificuldade em se manter agarrado ao dragão que se debatia como uma criança em choro birrento. O fogo escapava por todos os poros, subia e descia no subterrâneo de Algazhor, mas Tarag não o soltou. Encontrou a falha que buscava, deixou que uma das mãos suportasse todo o peso de seu corpo e, com a outra, sustentou o machado de guerra que lhe fizera companhia por tantas outras batalhas.
Um golpe, um único corte carregado por um desejo antigo e poderoso, e a lâmina fez com que a vida de um monstro colossal findasse num piscar de olhos.
Catoblepas caíra. Tarag também quedara.
Mas somente um Rei vivia.
—Está decidido —disse Bethorn, sorrindo por dentro e por fora pelo resultado daquele embate, quando todos os filhos retornaram.
—Sim, pai —Tarag manifestou-se. —Está decidido. Udun deverá governar Algazhor.
Udun deixou a boca ferida se abrir, surpreso.
—Do que está falando, irmão? Você foi o vencedor naquele conflito!
—Não venci para me tornar Rei. Venci para me tornar livre. Se tiver de caçar a cabeça de cem dragões para que possa deixar o subterrâneo para trás, eu o farei. Se tiver de arrancar o coração de inúmeras ameaças para que desbrave os ares e os mares de nosso mundo, eu o farei. Vocês não podem me obrigar a apodrecer aqui, como farão. Não podem me obrigar a viver uma vida que eu não desejo.
Bethorn suspirou, decepcionado, e se virou, dando as costas a seus filhos.
—Que seja —disse ele. —Udun será o novo Rei Anão, em breve. Bagoth o auxiliária como General de Guerra. E Tarag... Adeus.
Seco, frio, sem um sorriso ou um cumprimento. Aquele não era um simples adeus. Aquele era o fim de uma linhagem.
Tarag não se importou.
—Governem com justiça e honra, meus irmãos —disse o Barba Púrpura. —E nunca se esqueçam de que, um dia, houve um terceiro anão aqui, ao lado de vocês. Bethorn vai esquecer. Eu não sou mais um filho para ele.
—Mas, para nós, será sempre um irmão —disse Bagoth, e o trio se despediu num sorriso.
Tarag partiu no mesmo dia. Deixou para trás a vida de mordomias para ganhar um novo mundo, e o mundo o acolheu como acolheria qualquer pessoa: sem piedade alguma. No exterior, Tarag ganhou cicatrizes, lutou bravamente, conheceu o mar e o vento, voejou e velejou. Viveu o que gostaria de viver.
E, abaixo da vida de Tarag, Udun e Bagoth governaram, e Algazhor cresceu na medida do possível. Bethorn era um Conselheiro, um antigo Rei que sabia das decisões. Ele nunca mais falou o nome de Tarag, e seus filhos, seus dois únicos filhos, também nunca citaram mais o nome do irmão. Sentiam sua falta, sim, mas não traziam tais lembranças para o pai que tanto sofria.
No fundo, Bethorn preocupava-se com as histórias de fora, com as lendas que se espalhavam de uma maneira tão intensa que ousavam afrontar as barreiras do reino subterrâneo dos anões. As lendas diziam sobre um guerreiro de pernas curtas e vontade interminável, de um fabuloso guerreiro capaz de derrotar quaisquer ameaças.
As lendas contavam sobre Barba Púrpura e, ouvindo-as dos bardos e dos contadores de histórias, Bethorn não podia deixar de sorrir, admirado e esperançoso, tomado por um orgulho gigantesco do filho que recusou a realeza para se aventurar pelo mundo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Conto - Insuficiente


Insuficiente

Ali, sentado na cadeira de balanço, o velho pensava em sua vida.
A aliança de seu casamento ainda estava no dedo anelar esquerdo, ainda que não mais houvesse o que simbolizar. Tantos anos se passaram desde aquele fatídico dia em que sua esposa falecera, deixando para trás um vazio que refeição alguma há de preencher. Ela pensara nela durante alguns dias, mas logo resolveu aceitar. Já estava velho demais para ficar pensando, de qualquer modo.
Agora, no entanto, sentia um medo peculiar, uma sensação que era incapaz de explicar.
Lembrava-se da juventude, de quando ainda podia correr e saltar, e correra e saltara para chamar a atenção daquela garota de olhos verdes e pele macia, ao menos na época. Ela sorrira amigavelmente, mas era apenas isso: uma amiga. Simpática, linda, apaixonante, mas somente uma amiga, e o tempo custaria a retirar o temor da aproximação.
De ambos, claro. Ela também pensava nele, também achava seu sorriso bonito, também sentia um calor exótico ao se aproximar. Obviamente, como todas as garotas têm de ser, ela nada disse, mantendo-se no canto, e ele, de lentidão exemplar para esse tipo de assunto, sequer percebeu que ela também se apaixonava.
Na cadeira de balanço, escorado sobre os braços frágeis e as pernas enrugadas, ele pensava que as coisas poderiam ter sido diferentes.
Olhando para o verde que cercava sua casa de campo, local que escolhera para terminar seus dias, para aceitar a morte que logo lhe acolheria, ele se lembrava daquela linda mulher pela qual se apaixonara. Ela sempre fora agitada, ainda que tímida; fazia tudo pelos outros e nada por si mesma. Ele tentava impressioná-la agindo assim, e logo se deu conta de que era bom agir pelos outros, mas que o egoísmo de se preocupar com o próprio nariz também tinha sua importância. Ao lado daquela mulher, no entanto, ele perdeu todo o egocentrismo. Esqueceu-se de si mesmo, ao fim, deixou-se largado. Ela cuidava dele, é claro, mas ele não. Ele só tinha olhos para ela, todos os seus pensamentos eram voltados a ela, todas as suas atitudes eram focadas naquela garota, naquela mulher.
Às vezes ela sorria, e ele se sentia o melhor homem do mundo.
Às vezes ela chorava, e ele baixava os olhos, respirava fundo e tentava, tentava mesmo, mas não conseguia conter as lágrimas que lhe feriam os olhos.
Fora o culpado por aquelas lágrimas algumas das vezes, sim, tinha de admitir. Não gostava dessa ideia. Achava-se o pior homem do mundo, achava-se o carrasco da guilhotina. Ela tinha tantos problemas, tinha tantos afazeres, preocupações e assuntos delicadíssimos para lidar; fora isso, ele lhe fazia chorar dia ou outro, e aquela visão era uma tortura sem igual. Ele sempre se desculpava, sempre assumia seus erros, mas palavras não eram o suficiente. Ele se desculpava com atitudes, confortava com abraços e beijos, mas talvez aquilo também não fosse o suficiente.
Talvez ele próprio não fosse o suficiente.
Ela o fazia feliz, e ele também fazia o mesmo por ela. Diversas das lembranças lhe corriam a mente, mostravam-na gargalhando em praças públicas, brincando em lojas de cosméticos, sorrindo em shoppings e parques de diversões. Memórias das tardes em que se divertiram sozinhos, dos passeios e das viagens, da vida de sorrisos que tiveram lado a lado, havia muito para assistir naquela mente velha e cansada. Coisas boas, é, coisas ótimas na verdade. Ele sorria por lembrar, mas e então?
Eram memórias, nada mais.
Memórias que ficaram para trás, junto dos sorrisos e das alegrias.
Agora, ao fim de tudo, ele estava sozinho, e sentia-se mal. Sentia-se mal por tê-la feito feliz, mas não tão feliz quanto ela merecia. Quanto ele achava que ela merecia, ao menos. Talvez ele tenha sido um bom homem e estivesse se preocupando a toa, ao invés de se preocupar com o singelo balanço daquele assento de madeira, ao invés de admirar aquela paisagem tradicional das fazendas mais afastadas da civilização. Talvez ele tenha sido uma boa pessoa, mas isso não bastava.
Ele queria ser a melhor pessoa, a pessoa perfeita.
Esquecia-se do fato de que a perfeição inexiste.
Os erros estão presentes em todos os acertos. Não era diferente com ele. Não seria diferente com ninguém. Assim, lembrava-se de palavras errôneas, de respostas que não deveria proferir, de intrigas que causara sem necessidade. Erros, todos erros, todos seus. Ela também errava, como todo mundo há de errar um dia, mas ele não se incomodava. Chateava-se às vezes, sim, ninguém é de ferro, mas estava sempre sorridente, e um simples minuto ao lado dela era o suficiente para curar qualquer ferida.
Ele crescera nos números, mas não na mente, e ainda resolvia as coisas como uma criança, deixando para trás problemas de um instante anterior em troca de cócegas e brincadeiras. Era infantil, mas nada faria para mudar tal personalidade, afinal, isso era ele. Ela também brincava, mas ela estava ferida. Tivera histórias ruins, histórias péssimas, exemplos negativos demais. Por fora era uma mulher de postura, de personalidade forte e marcante, de olhos firmes e decididos; por dentro, uma boneca de porcelana, frágil e delicada como elas têm de ser, sem que suportasse uma única queda.
Então, quando ela errava, ele mal percebia. Chorava sim, e ai daquele que ousar incitar o machismo de que homens não choram. Ele chorava por seus erros, chorava junto dela. Muitas vezes a acompanhou na lamúria, ouviu seu pranto e compartilhou. Muitas vezes, porém, ouviu-a chorar sozinha, por seus erros ou por erros dela mesma, e isso era uma faca em seu coração, uma dor tão aguda que parecia capaz de levá-lo dali, de tirá-lo da vida. Ele ouvia aquele pranto como quem ouve uma marcha fúnebre, e jurava para si mesmo que faria diferente, que a impediria de chorar outra vez, que seria melhor, que seria o melhor, mas não era. Não por falta de tentativa, mas pela impossibilidade de ser melhor do que os homens são. Ele era um pouco diferente, mas ainda tinha dois braços, duas pernas, dois olhos e dois lados.
Ali, sentado na cadeira de balanço, um velho chorou por erros antigos.
Ele escutava a voz da mulher que amou, daquela princesa que o acompanhou até a mais alta torre, daquela rainha que o mostrou um novo caminho. Junto do ranger da madeira surrada, ele ouvia o canto dela, mas ela não estava ali. Ao seu lado, apenas uma cadeira vazia, velha e maltrapilha; sobre esta, ninguém. Não naquele momento, não mais em momento algum. Estava sozinho, estaria assim para sempre.
Sentia falta daquele sorriso, daqueles beijos e abraços.
Sentia falta de ser mais.
Talvez ele não tenha sido o melhor que podia ser. Tentara, na medida do possível. Fizera o seu melhor para ser o melhor. Quem era ele para julgar, no entanto? Ela não estava mais ali para respondê-lo. Ela não estava mais junto dele. Partira em seus braços, com um sorriso no rosto.
Esperava por ele, quando o fim tivesse de chegar.
Ali, sentado na cadeira de balanço, o velho enxugou suas lágrimas e assistiu ao pôr-do-sol. Fizera muito disso ao lado dela; agora, sozinho. Era uma linda vista, mas não o suficiente. O ar perfumado da natureza era admirável, mas não o suficiente. A companhia das flores, dos pássaros e da vida era dotada de um amor incomensurável, mas ainda assim, não era o suficiente.
Ele também tivera um amor incomensurável, um dia. O tinha até aquele instante, na verdade, e para sempre o teria. Sabia que errara, que ambos erraram, mas ambos erraram se amando até o fim. E, por mais que o medo da insuficiência lhe torturasse a alma, junto àquela pôr-do-sol, uma única certeza o aturdia: a vida que tivera fora perfeita, perfeitamente bela, perfeitamente suficiente, e nada extinguiria de seus pensamentos todos os momentos de felicidade que lhe foram proporcionados.
Afinal, não tem de ser suficiente ou insuficiente, mas tem de ser, e fim.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Conto - Vislumbre


Vislumbre

Diante daquela paisagem deslumbrante e natural, tudo o que eu via eram seus olhos, seus lábios, e tudo o que sentia era o seu perfume.
—Eu tenho medo —ela me disse, tristonha. —Medo que nos descubram. Medo que nos impeçam.
O verde nos cercava, o azul era um abraço acolhedor. Toda aquela natureza animalesca fazia com que o mundo soasse como um lugar perfeito, mas nem toda perfeição deixa de ter seus erros. Ali, no entanto, não havia erro algum. Havia eu e ela, e só. De resto, nada me importava, nada importava ao mundo, o mundo não importava a ninguém.
Eu e ela, e só.
—Perdemos por ter medo de perder —lhe assegurei, —então não tenha medo. Eu estarei aqui. Eu sempre estarei aqui.
—Sempre? Você pode ver o futuro?
Ela não duvidava de mim. Não tinha incerteza na segurança que eu desejava passar. Ela tinha incerteza para com o fluxo do destino, com as mudanças que o tempo causa, com o ciclo da dança das nuvens. Ela tinha medo do amanhã, medo do que viria a seguir.
Então eu a beijei.
Poderia ser um beijo como qualquer outro, mas nenhum beijo em seus lábios era como um beijo qualquer. Aquele perfume dos seus cabelos me maravilhava, aquele frescor dos seus lábios era uma tentação. Eu me perdia num baile de sensações, assistia a um espetáculo de luzes e cores e formas, revigorado por um musical de sonoridade nula, uma valsa de silêncio incomensurável, um jazz animado e energético soprado pela branda respiração de uma princesa de tênis e jeans.
Naquele beijo que não era um beijo qualquer, eu enxerguei além do que os olhos abertos poderiam me mostrar, mesmo sem abri-los.
Eu vi, numa esquina do jogo da vida, uma criança correndo.
Ela se parecia comigo, talvez. Se parecia um pouco com ela, também. Tinha traços de ambos, mas eu não via muito bem o seu rosto. Os sonhos não são tão detalhados assim, infelizmente. Mas eu sabia o quê aquilo significava. Sabia que aquela garotinha arteira representava uma herança, uma semente oriunda da união de um amor inabalável, e ela corria, agitada e empolgada, como o pai, e sorria, admirável e teatral, como a mãe, ainda que o pai e a mãe caminhassem de mãos dadas, já sem todo aquele fôlego, mas ainda com todo aquele carinho.
Vi mais, vi além, vi também um garoto, e o casal de filhos tinha idades similares, brincando juntos num parque gramado e de brinquedos de alumínio. Escorregaram por um brinquedo colorido, caíram de encontro aos meus braços, e eu os levantava até o céu, onde eles gargalhavam contentes e vívidos, e eu também sorria, incapaz de resistir às carícias daquele momento, à vida perfeita que eu tinha nas mãos, fruto de um elo inquebrável, de um laço como nenhum outro.
E num piscar de olhos de um instante sem piscadela alguma, vi-nos numa outra casa, num lugar desconhecido, e lá ela acordava manhosa, despertando de um sonho bom ou ruim, mas de um sonho que chegara ao fim quando meus lábios a tocaram, e ela não se importou por isso, apenas sorriu, sempre bela, sempre marcante. Ainda na cama, mantivemos o amor aceso enquanto trocávamos carícias e brincadeiras, e eu a fiz sorrir nas cócegas, e a inocência daquele momento fez com que o sonho se tornasse tão real a ponto de eu sentir a sua pele, seus cabelos, seu perfume.
Aquilo não era um filme.
Aquilo era o futuro.
Eu vi muito mais, mas muito do que vi era indescritível, turvo e enuviado, o que não tirava sua beleza e impressionismo. Ele estava lá, mesmo que sombreado pela incerteza; estava lá, presente à frente dos meus dias, marcante diante da posterioridade de nossos atos, e aquela não era só a minha vida, era a nossa. A nossa família, os nossos filhos, a nossa casa. A nossa vida.
O nosso amor.
O beijo chegou ao fim, e junto dele todo aquele sonho perfeito ruiu, mas não por quedar em destruição.
Era a nossa chance de realizá-lo.
—Sim —disse eu, respirando fundo para me recobrar daquele beijo saboroso e insaciável. —Sempre. E eu não sei se vejo um futuro para nós, meu amor, não sei mesmo. Mas eu o quero. Eu o desejo mais do que tudo. E há um único segredo para a felicidade.
—Um segredo? —repetiu ela, confusa.
Sorri.
—Não podemos passar vontade —respondi, alegre. —É o que eu mais quero, meu anjo. E é assim que vai ser.
Ela se felicitou, radiante na beleza que me fez sonhar acordado com aquele sorriso e aquele olhar, e me abraçou numa alegria infantil, que de tão infantil soava mais bonita do que adulto algum seria capaz de demonstrar.
—Eu te amo, sabia?
Eu sabia, sim, mas não há mal algum em escutar aquilo que nos faz bem, não é?
—Eu amo você.
No fundo, por trás daquele novo beijo, eu vislumbrei todas aquelas cenas outra vez, e me maravilhei com cada instante, com cada sensação que antes desconhecia, com cada magnificência exemplificada na forma de um riso de criança, de uma casa de privacidade e paz e de passeios cada vez mais marcantes.
Cá entre nós, eu nunca soube se aquele era o futuro que chegaria a ocorrer, mas que diferença isso faz? Aquele era o futuro que eu queria. Era o meu sonho, o meu desejo. A minha vontade.
E eu não passo vontade.

Conto - Chuva e Lágrimas


Chuva e Lágrimas

—Ela está morta.
Sim. Eu sabia. Eu estava no velório dela, em frente ao seu caixão selado. Era óbvio que ela estava morta. Eu ainda a amava. Eu ainda era apaixonado por ela. Ainda sentia o gosto dos seus beijos na boca.
—Eu sei —foi o que consegui responder, e a pessoa se afastou. Até hoje não sei quem era.
—Papai.
A última voz que eu desejava ouvir naquele momento.
—Sim, minha filha.
Minhas lágrimas eram como cachoeira. Aquela voz, ao crescer, tornar-se-ia idêntica à dela. Eu me recordaria das músicas que ela cantava para nossa filha dormir. Eu me recordaria dos poemas que ela entoava para que eu dormisse.
—A mamãe vai voltar?
Como mentir para as crianças? Ela me focava num olhar sincero, esperançoso, ingênuo e infantil. Focava-me num olhar de filha para pai, de criança para adulto. E o que eu fiz?, você se pergunta. Eu fiz o que todos adultos fazem.
Eu menti.
—Talvez ela volte. Ainda há tempo.
—Tempo para quê?
—Tempo para passar. O relógio sempre gira.
Mas o tempo ia correr, sem parar, e ela não voltaria. Eu sabia. Todos sabiam, menos a minha filha, e isso me deixou feliz por algum tempo.
Ela me encarou, minutos se tornaram horas. Depois me abraçou, ronronando uma carícia na altura de minhas pernas, alcançando num esforço o meu torso elevado. Era dócil, amigável, amável e linda com seus cachos robustos. Era um anjo, como antes sua mãe fora.
Era uma herdeira de sua beleza, e uma herança de sua bondade.
E eu era um tolo apaixonado por um cadáver.
—Vai ficar tudo bem, papai. Você aguenta a saudade.
Por quanto tempo?
Eu quase perguntei isso.
Minha filha se afastou, foi brincar com outras crianças, sorrindo num clima hostil de quem vela um corpo. Eu fiquei ali, inerte, sem forças para respirar, sem vontade de tragar qualquer resquício de oxigênio. Eu queria me deitar ao lado dela, pedir para que selassem o caixão sobre nossos corpos unidos, sentir mais uma vez aquele calor do seu corpo, mas sabia que, naquele momento, calor algum jazia na pele mórbida de minha esposa.
—Dizem que precisamos chorar, às vezes.
A voz não me assustou. Nada mais me assustaria, pensei. Voltei-me para minha mãe, cujos olhos estavam inchados pela tristeza, e baixei a faceta numa mesura desanimada.
—Chorar não resolve nada.
—Mas limpa a alma.
—E que alma há para se limpar aqui? Isso não é sujeira, mãe. Isso é dor.
Ela franziu o cenho.
—Você tem de superar, meu filho.
—Eu sou um quarentão de emprego incerto, cabelos grisalhos e uma filha para cuidar. Solteiro. Viúvo, na verdade. Superação não é o meu forte.
Ela se calou por algum tempo.
Um pingo de chuva caiu em minha testa.
—Vamos. Vai começar a chover. Vamos esperar pelo enterro em algum lugar coberto e —
—Eu não vou sair daqui, mãe.
Aquelas palavras a pegaram de surpresa.
—Como assim?
—É a minha última homenagem. Eu a amei por tanto tempo. Alguns minutos na chuva não vão me matar. Infelizmente.
Minha mãe assentiu, mas não concordava. Afastou-se, agarrou o braço de minha e a levou embora, e assim todos o fizeram.
Menos eu.
Eu fiquei ali. Queria ficar para sempre, na verdade. O caixão estava selado, e eu não mais podia ver seu rosto. Nunca mais poderia, e sabia disso. Meus olhos doíam, minha cabeça doía.
A chuva começava a cair, preguiçosa.
—O tempo passa mesmo, não é?
Percebi que falava sozinho, mas não me importei.
—O tempo passou de vez. E ele não vai voltar. Eu sei que não.
Água, de cima para baixo, do céu para a terra.
A chuva piorava, mas não me assustei.
—Você se lembra de quando eu te pedi em casamento?
Ela se lembraria, sim, caso estivesse viva.
Mas não estava.
A garoa tornou-se uma tempestade, com ventos e relâmpagos e um sofrimento estampado nos meus olhos.
—Eu me lembro bem, como se fosse ontem.
Mas não era ontem. Não era hoje, não seria amanhã.
Era passado.
—Eu amo você. Eu amei... eu vou amar para sempre... eu vou...
Os olhos marejaram, mas eu insisti em me assegurar de que era somente a chuva encharcando meu rosto, lavando meu corpo e minha mente, estuporando meus pensamentos com sua temperatura gélida e assombrosa.
Eu tentei falar mais alguma coisa por vezes, mas a voz falhou. Então não disse nada. Fiquei ali, em silêncio, fingindo chorar, fingindo estar calmo. Lágrimas desabaram, mas para mim, eram apenas chuva, uma chuva fina e congelante.
Foi quando eu a vi.
Perto das árvores, escorada num tronco, ela me olhava como sempre me olhou, com os mesmos olhos claros que me deixaram loucamente apaixonado na primeira vez que a vi. Ela estava ali, mas não estava, e eu sabia. Ela estava morta. Estava em outro lugar, distante, perto do descanso merecido. Mas eu a via e, para minha surpresa, enquanto eu chorava, ela sorria.
Pisquei, e só então ela desapareceu.
Foi então que eu percebi a verdade, e desabei num choro compulsivo.
Eu precisava chorar. Precisava aliviar, deixar tudo aquilo sair, correr livre pelos meus olhos, escapar da minha cabeça que estava prestes a explodir. Eu chorei, gritei, ajoelhei-me diante da imagem que a representava e supliquei, mesmo sabendo que súplica alguma resolveria alguma coisa, mas tinha de ser feito, então o fiz. Gritei, chorei, e a chuva não mais deslizava em meu rosto, pois não havia espaço para nada além do choro, para nada além das lágrimas, e ali fiquei por tempos, por horas, até que meu peito parasse de doer, até que meu ar voltasse a circular.
O velório terminou, então o enterro, e logo os dias voltaram à rotina. Uma rotina diferente, claro. Uma rotina sem ela.
Eu aprendi a levar. Aprendi a cuidar da minha filha, a amá-la como amei sua mãe, ainda mais. Aprendi a conviver com a solidão, a chorar no escuro quando tinha vontade. Aprendi que chorar não é coisa de mulheres, também, que homens também choram, que chorar revigora o espírito, coloca as coisas no lugar.
Acima de tudo isso, aprendi que a chuva disfarça as lágrimas, mas não faz a tristeza passar.

Resenha - A Comédia Trágica ou a Tragédia Cômica de Mr. Punch

Loucura total.
Esse é o melhor modo de expressar a arte desenvolvida por Neil Gaiman e Dave McKean em A Comédia Trágica ou a Tragédia Cômica de Mr. Punch. É uma doideira só, sem pé nem cabeça, mas tem sua beleza. Sim, você pode estar confuso quanto aos comentários, mas o quadrinho é exatamente isso: confuso. Confuso demais, inclusive. Você vai começar a ler, vai continuar a ler e vai terminar de ler sem saber exatamente o que o autor quis dizer com aquela história insana. Mas, ao fim das últimas páginas de Mr. Punch, você vai ter certeza de uma única coisa: você também gostaria de assistir à peça de Punch. Ou não. Talvez você não tenha certeza de nada.


A grande questão é exatamente essa: a confusão abordada nas páginas dessa graphic novel é envolvente, admirável e, acima de tudo, tocante. Seguindo na trilha de memórias utilizadas por Gaiman para dar ênfase às suas histórias, vemos um garoto redescobrir a sua família de uma maneira diferente, e todas as revelações são ligadas a uma peça de teatro estrelada pelos fantoches de Punch e Judy, uma peça trágica e cômica, como o título da obra mesmo diz. Voltada para as crianças, o espetáculo de Mr. Punch não tem nada de infantil, mas elas ainda insistem em assisti-lo. Cá entre nós, eu garanto que, após uma exibição de tal roteiro, mesmo um adulto ficaria levemente perturbado.



O grande segredo deste quadrinho é confundir, mas mostrar que as histórias confusas também têm sua beleza. Obviamente, tendo em vista que Mr. Punch é uma história conhecida pelos ingleses, e não por nós, ficamos um tanto que voados na narrativa, mas isso não tira o brilho do enredo. Sem contar que a maior das características de Gaiman está fortemente presente: falo de sua capacidade abusiva de descrever situações cotidianas de maneira realística e fantasiosa, capaz de chocar, impressionar, fantasiar, enojar e causar uma série de outras sensações exóticas no leitor, tudo ao mesmo tempo, tudo em tempo nenhum. Quer provar? Procure pela Comédia Trágica ou a Tragédia Cômida de Mr. Punche nas livrarias. Você não vai se arrepender.
Ou talvez se arrependa. Quem sou eu para dizer que não é possível?

Momentus ~ Novembro


Momentus
Recortes do Facebook

NOVEMBRO

Faça por si mesmo, faça por todos os outros.



Sentimentos mascarados por máscaras sem emoção.



Forte é aquele que não nega a água por saber o que é ter sede, que não nega o alimento por saber o que é a fome, e que não nega a ajuda por saber o que é companheirismo.



Todo mundo tem alguém que admira tanto, mas tanto, que seu maior desejo não é ser igual àquela pessoa, mas ser pelo menos metade do que ela foi.



Finados é o dia de lembrar daquelas pessoas que, mesmo após partirem para o merecido descanso, deixaram saudades que não mais serão curadas. Cicatrizes que não se restauram, mas, se bons foram os momentos que ficaram para trás, são estes os que devem ser lembrados. Não se apegue à imagem do fim, mas sim à do início, ao meio, às risadas e às felicidades. Lembre-se do que foi bom, pois somente isso importa. E, permeando entre as vontades reprimidas, é fato afirmar que todos nós temos abraços reservados para cada uma dessas pessoas, carinhos guardados nos cantos do coração que, um dia, quem sabe, poderão ser oferecidos para aqueles que, mesmo que pouco, contribuíram para o que somos atualmente.



Deixe-se sonhar, e que sonho algum morra no caminho.



Livre-se do véu com as mãos nuas e, além de tal barreira, encontrará tudo aquilo que procura.



O velho hábito que não se perde, escrever foi sempre um vício. É como um sustento de viver, de existir; como uma necessidade, quando ideias se geram num turbilhão de pensamentos e ali permanecem, estrondando nas portas da mente e implorando por uma fresta para que possam escapar e conhecer o mundo.



Às vezes eu paro e penso.
E, quando eu penso, eu vejo problemas. Vejo dificuldades, vejo angústias, medos e lamentações. Vejo tristezas, vejo discórdia, vejo a podridão que assola o mundo. Ao ver tudo isso, não há quem suporte o ardor de viver, não há quem prossiga caminhando sem temor.
Então eu pisco, respiro e, ao fim da calmaria, eu faço.
Faço sem pensar, faço pra arriscar, por ousar, por não hesitar. E, sem pensar, não há medo que me segure, não há obstáculo que me impeça, não há angústia que me derrube.
Às vezes eu paro e penso.
E, por pensar, chego à conclusão que desde sempre deveria saber: nós temos de fazer tudo o que temos vontade, estuporar os limites, deixar pra trás os pavores; temos que amar e ser amados, temos que caminhar lado a lado, temos que passear de mãos dadas.
Temos que viver a vida no impulso, sem medo, sem passo em falso.




Não há porta fechada para quem tem a mente aberta.



Os maiores obstáculos não são aqueles que surgem no caminho, mas sim aqueles que nós mesmos colocamos. É fácil saltar um bloqueio alheio, mas quase impossível desbravar a incerteza, a insegurança, o receio de ousar, de tentar, de fazer acontecer. Temos que ter em mente os planos, mas também, às vezes, deixar de planejar. Não passar vontade, mas também não se afobar, saber parar e respirar quando necessário. Temos que almejar o futuro, e até mesmo recordar o passado, seja em boas coisas como sorrisos ou más lembranças como exemplos, mas nunca esquecer que vivemos o presente, e é somente ele que importa, o presente que fará valer a pena seu passado, o presente que te levará a um futuro melhor.
Temos que deixar de colocar obstáculos em nosso próprio trajeto. Todos nós temos o direito de ser, de estar, de correr, de pular, de curtir e de brincar e, acima de tudo, de amar. Mas todos nós temos o dever de respeitar os outros, sejam bons ou ruins, e a nós mesmos, especialmente a nós mesmos, não por egoísmo ou egocentrismo, mas por saber que, apenas nos respeitando assim, poderemos respeitar o ar que respiramos, a água que nos banha e a vida que nos cerca.
Às vezes você se perde da linha que traçava mas, a todo instante, uma piscadela pode lhe fazer voltar até o rumo correto. Neste momento, e acima de tudo neste momento, concentre-se no que deseja, em quem deseja ter ao seu lado, no que deseja ter para sua vida, e não mais se permita piscar.
Sem seguir em linha reta, pois todas as belezas do mundo têm suas curvas e seus caminhos incertos; sem se deixar levar pelos ventos, tanto os perfumados quanto as fortes tempestades; sem esquecer de quem ama, do que ama e do que vale a pena amar.



As piores algemas são aquelas que utilizamos por hesitar.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Vida e Sonhos


Sonha-se muito, vive-se pouco; vive-se muito, sonha-se pouco.
E o meio termo perdeu-se nas caóticas estradas da vida, a qual, em suma, mais parece um picadeiro.
Hoje o sonhar é tolice, hoje o viver é surreal. Preocupa-se muito com o que se teve e com o que há de se ter, mas pouco, ou nada, com o que tem em mãos no momento, e é o momento que se vive, e assim pouco há pra se viver. Se sonhar é tolice, maior tolice é almejar a grandeza no passo posterior, tendo em mente que passo anterior inexiste na complexa fração de hesitar ante o degrau, de temer o que há de ser visto além das cortinas. Se viver é surreal, a realidade une-se à fantasia e, de mãos unidas, porém atadas, caminham livremente, cegas pelo pavor da miúda enormidade de cada ato, bailando num campo minado sem compreender que a trilha é diferente, que o rumo é desigual.
Sem compreender que a vida é para ser vivida, não descartada.
Não se corta o fluxo da natureza, não se impede o que ocorre na imperceptível linha sequencial do destino, aquela que mesmo os céticos hão de admirar um dia; uma palma entreabertas entre a cachoeira não a impede de cair, um sol artificial sobre as flores não as impede de florescer, manhosas e coloridas. Para que a planta deixe de desabrochar, necessária é somente a morte, pois na vida, no rumo do viver, do existir, ela há de se mostrar ao mundo, há de se abrir, de perfumar, de embelezar, de florir.
Tal segredo é tão mundano que, ao gabar-se por tal conhecimento, um homem faria com que tantos outros, senão todos os outros homens, admirassem-se por saber o que todos sabem, mas a que todos falta.
E o segredo é claro, simplório e fatídico: não altere a balança, não se perca por hesitar, não se mova por desconhecer.
Sonhe muito, viva muito.
Faça valer cada dia, cada instante.
Faça valer toda a vida.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Conto - Falsas Algemas


Falsas Algemas

—Bom dia, cara.
O cumprimento era para si mesmo. Para o seu rosto no espelho, na verdade. Aquele mesmo rosto de sempre, feio, sem chances, sem oportunidades.
Deixando o banheiro para trás, abraçou a rotina, comeu, saiu, trabalhou, voltou. Um dia como todos os outros. E, nos dias como todos os outros, ela estava lá. Trabalhava ao seu lado, perfumada como uma criança de oito anos que não sabe usar seu desodorante. Cabelos escovados fora da normalidade (os quais, sabia ele, só eram vistos diferente dessa imagem em períodos específicos, quando a progressiva atrasava por motivos distintos), maquiagem pesada, olhos estreitos pela descendência oriental.
—Olá, pseudo-amor da minha vida.
Aquelas palavras deixaram sua boca num tom mais baixo do que um sussurro, mas jamais deixariam a bancada utilizada para seu trabalho no escritório. E então ela passava, acenava um cumprimento apressado, sorria. Um sorriso não era uma oportunidade, era?
—Deixa de ser bobo, cara.
A solidão fez com que falar sozinho se tornasse um hábito.
Fim do dia, os cartões encontraram as máquinas de ponto, registraram minutos de hora extra que não lhe serviriam de nada, mas isso também era costumeiro. Despediu-se dela (beijando-a calorosamente em sua mente, mas pouco sorrindo na realidade), despediu-se do resto (pois o que não era ela, era resto) e foi embora.
Ele não tinha um carro. Não tinha sequer habilitação. Era um moleque, ainda. Um moleque em seus vinte e cinco anos, longe dos pais, longe da mordomia, longe das facilidades que a vida tende a oferecer.
Longe da liberdade.
As ruas estavam sempre cheias, cheirando a cigarro, bebidas e a vida complexas demais para que fossem interessantes. Ele queria conversar. Na verdade, nunca admitiria isso, mas ele precisava conversar. Sentia falta de alguém, de uma companhia. Morar sozinho tinha suas vantagens, mas viver sozinho não era agradável. Nunca fora.
—Como você está, cara?
O seu reflexo não respondia. Estava do mesmo jeito que deveria estar. O mesmo rosto há cinco anos, com pouco menos barba (aparada pela necessidade do emprego). O cabelo no mesmo tamanho, nos mesmos tons. Os olhos com as mesmas olheiras.
A vida na mesma monotonia.
—Boa noite, senhor —disse uma garçonete, escorada ao balcão que ele sempre usava para se apoiar. —Deseja fazer um jogo esta noite?
Os números não eram favoráveis a ele. De acordo com as estatísticas, a cada dez pessoas no mundo, somente uma estava destinada a apodrecer sozinha, e ele era uma delas.
Ele odiava estatísticas, também.
—Não, obrigado.
A cordialidade surgiu sem aviso, e mesmo ele estranhou.
—Tem certeza? A loteria está acumulada!
—E o meu azar também —com rispidez. —Você devia ter ficado com a minha boa educação quando teve a chance.
—Como?
—Me traz uma cerveja.
Ele tinha sorte com cervejas. Não com números, é, mas com cervejas sim. Elas estavam sempre saborosas.
—Meu amigo, o senhor poderia me ajudar? Eu precisava comer alguma coisa...
A voz dos mendigos sempre vinha acompanhada daquela baforada obscura de podridão, e ele se repugnou a ponto de sequer voltar seus olhos par a o homem que lhe pedia auxílio.
—Depende, meu amigo. Será que você poderia me ajudar? Eu precisava ganhar na loteria. Precisava ganhar o amor daquela mulher. Precisava de muitas coisas, na verdade. Mas ninguém veio me oferecer elas, e eu não vejo um motivo grandioso o bastante para me convencer de que eu deveria fazer por você.
O velho marejou os olhos e, sem dizer mais nada, se retirou.
Sua cerveja chegou. Ele abriu e encheu um copo.
O celular vibrou. Uma mensagem dela.
Talvez você devesse me convidar para sair.
Ele fechou o aparelho. Aquilo não estava acontecendo. Era a sua chance de ouro. Ela estava lhe dando uma oportunidade, não estava? Ela estava oferecendo a ele a chance que ele precisava para ganhar a vida. Não a loteria, mas ao menos o amor da mulher que atraía seus olhares há, pelo menos, dois anos.
Ele não respondeu a mensagem. Não estava confiante. Não estava com sorte nos números e, de acordo com as estatísticas, ele deveria ficar sozinho, e ele aceitava esse fato, por mais que odiasse estatísticas.
Tinha sorte na cerveja, ao menos, mas naquele dia, sua cerveja estava vencida.
Dormiu, acordou, viveu um novo dia, e mais outro.
Olhou no espelho.
—Bom dia, cara.
Os trinta anos chegaram sem que ele percebesse. Ela já estava casada, tinha uma filha linda. Ele vira a loteria virar seus números numa noite qualquer, mas os seus números não eram seus, pois ele não chegou a apostar. Alguém ganhou o prêmio milionário sozinho. Ele se contentou com balas de iogurte, vodka e dois copos de Yakult.
Estava sentado num banco da praça, jogando pedaços de pão para os pombos (e só quem faz isso sabe o quão deprimente é sentar-se sozinho para alimentar os animais que defecam na cabeça das pessoas). Ao longe, o mendigo que ele não ajudou um dia vendia quadros pintados na hora. Ele parecia feliz e rico, ao menos de espírito. Não precisava mais pedir as coisas.
—Você também gosta de alimentar os pombos.
Não era uma pergunta, mas ele respondeu.
—Sim, eu gosto. Alguém mais no mundo faz isso?
A mulher sorriu para ele. Seu sorriso era alvo, mas seus cabelos eram dourados e reluzentes, como uma máscara humana para um comercial de creme dental.
—Eu faço —disse ela. —É interessante ver como eles reagem.
Ela era amável. Por um momento, um único instante, ele esqueceu o amor da sua vida. Percebeu que poderia se apaixonar de novo. Percebeu que poderia tentar outra vez.
—Que tal uma festa para o solteirão?
Aquela frase fora dita pelo seu chefe, o mesmo chefe de dez anos atrás, antes do seu aniversário de trinta e cinco anos.
Ah, claro, vale a pena ressaltar: ele não conversou com aquela garota. Ele hesitou, teve medo, e ela foi embora, e ele não mais voltou a alimentar pombos, muito menos a ver a manequim viva.
—Não gosto de festa.
Sem emoção alguma.
—Vai dizer isso até completar seus quarenta anos?
Fechou os olhos.
—Não gosto de festa —respondeu, quando perguntado cinco anos mais tarde.
Já havia cabelos grisalhos em sua cabeça, e a barba era áspera de tanto ser feita. Os olhos estavam cansados, mas a carteira estava cheia. Ele nunca aprendeu a dirigir. Beijou algumas garotas no ensino médio, não mais. Às vezes sonhava com modelos de seios fartos e saias justas, mas tinha de trabalhar no dia seguinte, então riscava a contabilidade de seus planejamentos e dormia ao som de um jazz brega.
—O que você fez com a sua vida?
A pergunta seria dolorosa se feita por qualquer pessoa, mas doeu centenas de vezes mais quando ele percebeu que, na frente do espelho, ele mesmo se perguntava.
—O que você fez com a sua vida?
Engoliu em seco.
—O que eu fiz com a minha vida?
Nada.
Ele não fizera nada. Nunca fizera.
Ou talvez tenha feito. Levantava, escovava os dentes, respirava, trabalhava, apaixonava-se, esquecia, não falava, bebia para superar, bebia para relembrar, bebia para ser outra pessoa, bebia para não ser ninguém.
Na frente do espelho, sentiu vontade de chorar.
—Eu poderia tentar...
Cinquenta anos. Viver, agora, não adiantaria mais nada. Era tarde demais.
Não era?
—Não.
Olhou para seus pulsos e, só então, viu as algemas que lhe aprisionavam. Tarde demais? Talvez fosse. Mas e daí? Ele via as algemas, agora. Via as algemas que ele mesmo colocou. Via as algemas que ele criou, as algemas que o impediram de fazer tudo o que tinha vontade.
Tomou um gole da cerveja que tinha no congelador, pois tinha sorte com cervejas. Ela estava choca, mas ele tomou até o final mesmo assim, e depois completou com suco de uva, pulando no lugar para esquentar, fingindo tomar vinho.
Ligou para ela.
—Alô?
Ele não escutava aquela voz ao telefone há anos.
—Boa noite. Eu sempre te amei.
—Como é?
—Eu disse que sempre te amei.
—Quem tá falando? Eu tenho um marido, sabia? Tenho uma família, tenho —
Ele desligou. Já havia feito o que precisava.
Saiu de sua casa. Chovia.
O terno encharcou antes que cinco passos fossem dados. Jogou os cabelos para trás, abriu a boca e provou a água da chuva. Era ruim. Correu até a praça e, sob uma área coberta, o mendigo pintava. Ele não era mais um mendigo, na verdade. Ele ganhava o dinheiro necessário para viver nas pinturas.
—Eu queria uma imagem.
Ele explicou ao velho, e ele estranhou, mas assentiu. Rabiscou, usou suas tintas, fez sua mágica, sua arte, e lá estava ele, pintado numa moldura, mas ali, naquela prisão do quadro, ele não tinha cinquenta anos. Não tinha vinte, talvez.
Era jovem.
Mais que jovem.
Era livre.
—Obrigado —disse ele, pagando a pintura. Saiu com ela na chuva, grande parte estragou. Então jogou-a para o ar, deixou-a cair, chutou até que o quadro se partisse.
—O que está fazendo? —perguntava o artista que via sua arte ruir.
—Estou me libertando.
E foi exatamente isso o que fez.
No dia seguinte, trabalhou, mas sorriu. Dias mais tarde, foi promovido. Alguns meses depois, deixou a empresa, conquistou uma oportunidade melhor. Conheceu uma mulher, e ela gostou de seu jeito, e eles se casaram alguns anos mais tarde. Eram velhos para ter uma criança, mas adotaram uma garotinha, e ela era amável, ainda que não parecesse tanto com nenhum dos dois.
E um dia, muito tempo mais tarde, ele postou-se na frente do espelho. Tinha rugas, começava a ficar calvo. Seus olhos estavam cansados pela aposentadoria. Seu corpo já não era mais saudável, sua vida já não era mais a mesma.
Levantou os pulsos, admirou-os.
Não havia algema alguma.